1 por amor, 2 por dinheiro - a conta imoral do futebol

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Emily Lima, primeira mulher a dirigir a seleção brasileira de futebol feminino. 
Foto: Fernanda Coimbra/CBF

Já contei um pouco da epopeia que resultou num esgotamento físico e mental nunca antes experimentado por mim, no texto da semana passada.

Tudo começou com uma “matéria” veiculada pelo site Futebol Interior e “especulações” sobre uma possível demissão de Emily Lima do comando da seleção feminina e, na sequência, uma outra “matéria” falando sobre um “possível” retorno de Vadão à frente do selecionado brasileiro.

Ambas, nitidamente pagas, movimentaram legal o dia desta escriba que havia prometido tantas vezes que até perdeu a conta se afastar definitivamente do ambiente caótico que permeia a modalidade.

Mas não engano mais nem quem pacientemente acompanha minhas postagens, quiçá a mim mesma, que não posso ver uma treta injusta que já estou lá, chegando na voadora. Toda a indignação com a demissão de Emily que não completou 10 meses de trabalho tem razões bastante justas e apontamentos no mínimo curiosos diante da justificativa tosca do Marco Polo, que não pode viajar, coitadinho.

O argumento: resultados. Bem, Emily teve 7 vitórias, 1 empate e 5 derrotas nestes quase 10 meses. O detalhe mais importante: NENHUMA competição oficial. A competição que poderia ter entrado no calendário da recém-admitida era a Algarve Cup, competição esta que por anos a fio a CBF refutou o convite e com Vadão participou.

Quando Emily assumiu, vislumbrando o calendário de 2017, a competição voltou a ser desprezada com outro argumento tosco, desta vez do coordenador Marco Aurélio Cunha: está desprestigiada.

“Desprestigiada” inclusive, é palavrinha que o nada humilde coordenador gosta de usar com frequência, até para tentar atacar o trabalho de jornalistas independentes como eu, Rafael Alves, Eduardo Pontes e as meninas do Dibradoras.

Mas a bola pra gente continua rolando com trabalho de verdade.

O contra argumento dos “desprestigiados” para a justificativa “resultado”, foi e é: se resultado é determinante para a manutenção da técnica da seleção, por que raios o mesmo critério não se aplica aos técnicos das seleções Sub17 e Sub20 que estão em seus cargos há mais de dois anos e não ganharam nada nas competições oficiais que disputaram?

O vácuo, o eco...

A sexta-feira, dia da demissão, foi caótica. Meus nervos estavam em frangalhos, o que prejudicou sobremaneira a noite mais esperada da semana. Se a adrenalina e a raiva correram soltas nesse sangue velho de guerra, ao expurgar, o resultado foi devastador: aquele esgotamento muito prejudicial à minha costumeira cerveja. Goela seca, noite perdida. Mais um prejuízo pra conta dos irresponsáveis da CBF.

Fizemos barulho. Os “desprestigiados” agiram para alertar o descompromisso da CBF com o futebol feminino e ficou muito claro que a admissão de Emily para o comando da seleção foi apenas o “passa pano” para a FIFA.

Emily não se furtou de falar tudo o que viu nestes poucos meses em que tentou desenvolver um trabalho sério com a modalidade. São várias as entrevistas em que aponta fatos que, caso acontecessem na seleção masculina, já teriam colocado este país em pé de guerra.

Nesta segunda-feira, 25, eu e ela participamos do Programa Zé no Rádio, do Zé Trajano na Central 3. O podcast pode ser conferido aqui. E para quem tiver curiosidade, basta jogar o tema na rede que vai encontrar muita matéria um tanto diferente das duas publicadas pelo Futebol Interior, portanto, sem recibo.

Se nós da mídia nos posicionamos e atacamos o responsável direto – que jura que não sabia de nada – pela demissão da Emily, o mesmo não vimos das atletas, digo de modo público e direto ao ataque. E se alguns colegas ainda tinham a esperança de vê-las metendo o pé na porta, de minha parte a preguiça segue. Já discorri por aqui sobre a ausência de consciência de classe dos atletas brasileiros, portanto, nada de novo neste front.

O que me entristece, à vera, é perceber que o futebol praticado de modo coletivo não traz, ao menos para seus protagonistas, o conceito de coletivo para além das quatro linhas. Aliás, com o retorno de Vadão - leia-se Fabrício, o verdadeiro treinador – o coletivo tende a ficar de fora até dentro das quatro linhas, já que o padrão “passe longo”, vulgo chutão, é seu recurso predileto, além, claro, de colocar nas costas de Marta todo o protagonismo do jogo, como se ela estivesse em seu auge.

O fato é que o fator preponderante para assumir a seleção feminina brasileira é: ser amigo do coordenador, aceitar tudo o que ele fala e quer e promover churrasco para atletas e comissão. Trabalho para longo prazo? Nem pensar! Ciclo olímpico? O que é isso, minha gente?! É um acinte à supercarreira futebolística do coordenador. Por favor!

O cara que gosta de dizer que tem não sei quantos anos de futebol, não tem humildade para reconhecer que o futebol das mulheres não é o mesmo que o dos homens, embora se jogue com a mesma bola, medidas e tempo. Tampouco teve humildade para chegar no sapatinho, à maneira que se preza na quebrada. Sua prepotência beira o ridículo e a fuleragem de seus atos custaria no mínimo a demissão, caso fossemos regidos por uma confederação decente.

Mas, como bem dizem os quatro caras mais zicas do rap nacional: “1 por amor 2 por dinheiro, na selva é assim. Você vale o que tem na mão”. E na CBF essa continha imoral fecha bem com quem vive de flertar com o poder, custe o que custar.


Lu Castro é jornalista especializada em futebol feminino. É colaboradora do Portal Vermelho (onde o artigo foi originalmente publicado) e é parceira do Sesc na produção de cultura esportiva.

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