A manter suas práticas, torcidas organizadas contribuem para a elitização dos estádios brasileiros

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Mais uma vez, o país ficou estarrecido com cenas de violência e estupidez extremas no futebol brasileiro, dessa vez em Curitiba, na manhã de domingo, horas antes de um jogo do campeonato nacional. Em entrevista ao Correio da Cidadania, o sociólogo Maurício Murad, que lançou o livro A violência no futebol: novas pesquisas, novas ideias, novas propostas, comenta esse universo e lamenta a incapacidade política do país em apresentar estratégias  de redução de mais essa face da barbárie brasileira.

“Terminar 100% com a violência no futebol brasileiro acho muito difícil, quase impossível. Nenhum país conseguiu alcançar este objetivo. Mas é possível controlar, minimizar e colocar esse panorama de violências sob o controle da lei, da ordem e das instituições, para preservar o futebol como cultura popular, identidade coletiva e lazer de massas”, afirmou.

Nesse sentido, o professor da Universidade Salgado de Oliveira em Niterói e formado em Sociologia do Desporto pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto concorda com uma ideia pouco refletida nas críticas de quem defende tais associações, por entendê-las como representantes das camadas populares: as torcidas organizadas acabam por contribuir com a limpeza social nos estádios, engendrada a partir do processo da Copa de 2014 e da construção das luxuosas e superfaturadas “arenas”.

“Sem querer e indiretamente acabam dando força às medidas elitistas de transformar os estádios em estúdios e culpabilizar as camadas populares por um quadro geral de violências, que alcança todas as classes sociais, de renda e de escolaridade”, lamentou.

A entrevista completa com Maurício Murad pode ser lida a seguir.


Correio da Cidadania: Mais um episódio homérico de violência no futebol brasileiro, desta vez em Curitiba, a envolver uma torcida visitante que se encontrava em “território inimigo”. Como analisa o atual estágio da violência entre torcidas em nosso futebol?

Maurício Murad: A violência no futebol brasileiro tem aumentado muito e de forma preocupante, como expressão das violências macrossociais, que assolam a sociedade brasileira. Agressões, covardia, intolerância, exclusão, mutilações e mortes têm sido a marca do atual estágio das práticas de violência no nosso futebol.

Seguimos sendo o primeiro país em mortes comprovadas de torcedores, por conflitos entre facções criminosas, minoritárias (cerca de 5% dos organizados), mas perigosas, que se infiltram nas organizadas. E a impunidade, que também assola o país, marca fortemente o futebol brasileiro. Nos últimos três anos - 2014, 2015 e 2016 - somente 3% de todos os delitos cometidos no universo do futebol foram punidos até as últimas consequências.
 
Correio da Cidadania: São tempos repletos de discursos de modernização, por vezes até ufanistas, em torno do futebol nacional e sua gestão, em especial com o advento dos megaeventos. Passada a euforia, podemos dizer que nada evoluiu?

Maurício Murad: Passada a euforia da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos, quase nada mudou. O legado é um "largado", em diversos níveis: educação, saneamento, transporte, saúde, segurança pública. Em geral no país e em especial no Rio de Janeiro, onde a crise, além de econômica e financeira, é perturbadoramente moral.
 
Correio da Cidadania: Faz pelo menos 20 anos que a pauta da violência não sai de cena. A discussão e as reflexões estagnaram, faltam ideias concretas para diminuir essa chaga? O que dizer daqueles que lideraram tais debates ao longo desses anos?

Maurício Murad: Exatamente. Agora, é preciso dizer que pesquisas, ideias, propostas não faltam. O que falta mesmo é responsabilidade das autoridades públicas em cumprir as suas obrigações constitucionais. Nossas autoridades públicas, em sua imensa maioria, quase nunca são públicas e nem sempre são autoridades.

Mais preocupadas com seus interesses pessoais, familiares, de grupos, de partidos, do que com os interesses públicos de verdade. Mais preocupados em fazer política (no sentido de politicagem) do que em construir políticas, ou seja, estratégias para o bem estar público, nas áreas de saúde, educação, transporte, saneamento, segurança, esportes.
 
Correio da Cidadania: Temos extensa crítica sobre o aparato de segurança estatal e suas práticas. Mas o novo Mineirão já registrou uma morte de torcedor pelas mãos da segurança privada. Tirar essa atribuição da PM, e consequentemente das instituições públicas, pode sair pela culatra, não?

Maurício Murad: Sim, é verdade. A grande questão não é a segurança ser pública ou privada, mas sim ser responsável, eficiente e capaz de separar o joio (a erva daninha) do trigo, separar os vândalos infiltrados, dos coletivos culturais identitários e historicamente fundamentais ao espetáculo do futebol.
 
Correio da Cidadania: Sobre as torcidas e seu universo, após o assassinato de histórico dirigente da Mancha Verde tem se falado que a complexidade de suas teias, relações e interesses aumentou nos últimos tempos. Como teria se dado tal processo e quais suas imbricações?

Maurício Murad: O processo de violência nas organizadas de futebol tem como conjuntura marcante o ano de 1988 (morte do Cléo Sóstenes, dirigente da Mancha Verde, hoje Mancha Alviverde, considerada o primeiro grande assassinato entre torcedores) e 1992 (morte de Rodrigo de Gasperi, de 13 anos, primeira morte dentro de estádio de futebol).

De lá pra cá pouco foi feito, além de algumas medidas repressivas. A impunidade cresceu, os links com as violências sociais, principalmente o tráfico de drogas e o chamado crime organizado, se ampliaram assustadoramente e chegamos a esse cenário lamentável e desolador.
 
Correio da Cidadania: A manter seu padrão de atuação, as torcidas organizadas contribuem para a elitização do acesso ao estádio de futebol?

Maurício Murad: Sim, sem querer e indiretamente acabam dando força às medidas elitistas de transformar os estádios em estúdios e culpabilizar as camadas populares por um quadro geral de violências, que alcança todas as classes sociais, de renda e de escolaridade.
 
Correio da Cidadania: Acha mesmo viável falar seriamente sobre erradicação da violência do futebol brasileiro considerando o atual contexto econômico, político, social, institucional e até ético do país?

Maurício Murad: Terminar 100% com a violência no futebol brasileiro acho muito difícil, quase impossível. Nenhum país conseguiu alcançar este objetivo. Mas é possível controlar, minimizar e colocar esse panorama de violências sob o controle da lei, da ordem e das instituições, para preservar o futebol como cultura popular, identidade coletiva e lazer de massas.
 
Correio da Cidadania: Diante de tudo que debatemos aqui, como a reedição de seu livro pode contribuir nos debates e buscas por soluções?

Maurício Murad: Sou suspeito em dizer, claro, mas acho que pode contribuir, sim. Todos os dados e informações constantes do livro estão atualizados por pesquisas, reflexões e muitos estudos comparativos, em anos e anos (pesquiso o tema desde maio de 1990) de estudos e trabalhos de investigação.

O livro procura ser bem didático, com uma linguagem popular, para que todos possam ler, compreender e usar as suas ideias. Não é um livro para especialistas, de modo nenhum, e sim para todos os amantes de futebol.

Leia também:

Atletiba: um perfeito domingo de futebol brasileiro

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

 

Comentários   

0 #2 ViolênciaJosé 14-07-2017 11:26
No jornal de hoje 14/07/17 informa que o Vasco Da Gama foi inocentado de tumulto em São Januário, contra Corinthians, em 07/07/17 na próxima segunda-feira o mesmo clube e o mesmo estádio serão julgados por tumultos no jogo do Flamengo. outro informe, um palmeirense morreu ontem no Palmeiras X Corinthians.. Campeonato Brasileiro 2017, 13 rodadas, 15 incidentes graves. E nove mortes nestes seis meses do ano, no Brasil. Como registrou o jornal do RJ Mortes em Séries. Ou digo eu, Futebol faz Mal à Saúde, encarece o seguro de vida. Estádio Ame e Deixe, Se morrer ganhe um prêmio no ingresso...
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0 #1 Terrorismo de EstadoJosé 11-07-2017 08:38
Mais um tragédia no futebol, Estádio de São Januário, Rio de Janeiro, 08 de julho 2017. Não adiante culpar bandido que entrou com morteiro clandestinamente no Estádio. Ação da polícia é desastrosa. Bombas de gás lacrimogênio , ao acaso, distribuição de cassetetes. Quantos PM e seguranças privados tinham o Estádio? Tinha transporte público para ir para casa?. Um caos Estatal. E os clubes ainda ganham dinheiro público para realizar esse show de Rock in MORTE..
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