Maryam Fathi: “me surpreende partidos ocidentais de esquerda apoiando um Estado assassino e autoritário como o Irã”

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Na virada de 2017 para 2018, houve no Irã uma onda de protestos populares “como não se via desde a Revolução de 1979”. Cidades e povoados de todo o país se levantaram em enormes protestos populares contra as políticas do governo que planejam destinar metade do PIB iraniano para atividades de guerra fora das fronteiras do país. O Irã atualmente participa nas guerras da Síria e do Iêmen, mas os assuntos internos não andam nada tranquilos, como contou Maryam Fathi para esta entrevista publicada no jornal Brecha, do Uruguai.

“O problema econômico iraniano é grande: 80% da população se encontra abaixo da linha pobreza. Uma das políticas empregadas pelo regime para se perpetuar no poder consistiu em empobrecer a população. Em sua opinião, uma população faminta e preocupada com suas necessidades materiais imediatas não pode se ocupar de assuntos políticos. Os protestos acontecem porque as pessoas não têm nada. Os jovens não podem sequer escutar música na rua. As pessoas estão tristes, têm fome. Não há qualquer liberdade”, explicou.

Maryam é jornalista e ativista pelos direitos da mulher no Curdistão iraniano, e teve de empreender o caminho do exílio diante do risco de ser encarcerada. Desde 2011 vive como refugiada política na Europa, onde deu a entrevista que pode ser lida abaixo.

Brecha: Quais foram os motivos dos protestos que o Irã recebeu na virada do ano?

Maryam Fathi: Os problemas econômicos foram o detonador e, concretamente, o anúncio do atual presidente, Hasan Rouhani, no parlamento iraniano, de que no novo programa econômico o orçamento destina 50% dos recursos nacionais para sustentar operações militares fora das fronteiras do país.

Nos protestos as pessoas pediam para que o governo se esquecesse do Líbano, da Síria e do Iêmen, onde são conduzidas operações de guerra, e que pensasse mais no Irã. Estão espoliando o povo para manter sua política internacional. A solidariedade com os povos que sofrem a guerra é algo diferente a se opor ao envio de fundos a grupos armados ou ao governo sírio. Vejo os protestos como expressão de uma necessidade urgente do povo iraniano que vive graves problemas econômicos.

Ao mesmo tempo, as verbas para educação, por exemplo, estão ridículas no Irã, incapazes de satisfazer as necessidades da população.

O problema econômico iraniano é grande: 80% da população se encontra abaixo da linha pobreza. Uma das políticas empregadas pelo regime para se perpetuar no poder consistiu em empobrecer a população. Em sua opinião, uma população faminta e preocupada com suas necessidades materiais imediatas não pode se ocupar de assuntos políticos.

Mas, obviamente, não podem separar política e economia, ainda mais tendo em conta a importância que o Estado iraniano concede a esta última. Faz muitos anos que o Irã aguenta o isolamento. As dificuldades com a União Europeia e os Estados Unidos, que levaram à assinatura do acordo nuclear, trazem uma determinação que não vai dar conta de resolver décadas de problemas econômicos.

O Irã tem um governo teocrático radical, portador de uma ideologia em certa medida semelhante à do Estado Islâmico; não há esperança de mudanças com um governo assim. Os protestos acontecem porque as pessoas não têm nada. Os jovens não podem sequer escutar música na rua. As pessoas estão tristes, têm fome. Não há qualquer liberdade.

Que diferenças esses protestos guardam para os de 2009?

Maryam Fathi: Existem diferentes análises sobre os últimos protestos no Irã. Do exílio na Europa, muitos iranianos pensam que os protestos estão orquestrados por potências estrangeiras, como os Estados Unidos ou a Arábia Saudita. Por outro lado, os reformistas e os conservadores se acusam mutuamente.

Na realidade estes protestos começaram na cidade de Mashad, símbolo do nacionalismo persa. Um lugar onde o ex-presidente Mahmud Ahmadinejad tem muitos simpatizantes e ninguém sabe se tiveram parte no começo dos protestos.

O que está claro é que após poucas horas de seu início, as pessoas se levantaram em outras cidades e em pequenos povoados onde não havia tido nenhuma manifestação desde a revolução de 1979. Nem reformistas e nem conservadores esperavam que a revolta se estendesse com tanta rapidez e em tantos lugares do Irã. Tampouco podiam imaginar a massiva presença de jovens e mulheres, da classe trabalhadora, na linha de frente.

Desde a queda do Xá, repito, não tinham acontecido protestos tão grandes, e menos ainda nos quatro pontos cardiais do Irã: Baluchistão, Curdistão, terras de azerbaijanos, de árabes, Teerã e o centro persa.

A diferença com os protestos de nove anos atrás é que naquele ano os protestos foram liderados pela ala progressista do regime e só aconteceram no centro do Irã, em Teerã: não chegaram a outras regiões e comunidades. Nasceram, por outro lado, das diferenças políticas entre os dois setores do regime.

Já as recentes manifestações são uma erupção que estava larvada, que vinham se gestando e têm entre seus destinatários tanto os conservadores quanto o reformistas, aqueles que em 2009 conseguiram apagar o descontentamento com a promessa de novas leis e de levar a população para as eleições, a votar uma vez mais pelo mesmo Estado e pela mesma ideologia. Se hoje em dia houvesse um referendo no Irã, os líderes ultrarreligiosos teocratas da atualidade não venceriam.  Sobrevivem graças à repressão, às execuções públicas, torturas, cárceres, ao empobrecimento da população e suas intervenções em outros Estados do Oriente Médio.

São muitos os lugares da região onde estão acontecendo mudanças políticas radicais. Até a data, o Irã conseguiu se manter afastado disso graças a sua política internacional que causou tantos e tão graves danos, como por exemplo na Síria e no Iêmen – entre outros fatores. Política internacional esta que desvia a atenção estrangeira do que acontece no interior do Irã.

Quais são os interesses do Estado iraniano na Síria?

Maryam Fathi: Por um lado está participando da política do bloqueio, com Assad, Rússia, China e Irã de um lado, enquanto Arábia Saudita, Estados Unidos, Israel e Turquia se colocam do outro lado.

Por outro lado, existe o desejo do Irã de chegar ao Mediterrâneo: sua ideia é criar um tipo de “corredor xiita”, uma “meia-lua xiita”, através da Síria e do Iraque, respaldado por seus simpatizantes. É também uma forma de se aproximar do Líbano e de Israel. Por isso o Irã se interessa em ter boas relações com o Estado Sírio e está apoiando Assad junto com os russos.

A questão nacional é outro fator a ser levado em conta já que os persas não são maioria no Irã?

Maryam Fathi: Sessenta por cento da população iraniana está composta por balochis, curdos, árabes, azerbaijanos, turcos e turcomanos. Os persas ocupam a parte central do território, mas não são maioria. Em compensação, o Irã é um Estado-nação teocrático que só respeita a cultura persa e a religião islâmica xiita.

Os protestos começaram em lugares significativos para a condução do Estado – Mashad, Isfaã (capital cultural do Irã), Qom (centro espiritual de onde saíram todos os líderes do regime) – o qual mostra a gravidade de circunstância, a crise ideológica que se vive no seio do poder. Vista a situação no coração do Estado, os povos compreendidos no Estado iraniano aproveitaram o momento e também saíram às ruas. De fato, a maioria das mortes aconteceram nesta periferia, fora do centro persa onde fica a capital e estas importantes cidades. Só na pequena cidade curda de Kermanshah, por exemplo, houve sete mortos durante os protestos.


Mapa étnico iraniano

Dezenas de mortos, milhares de feridos – como está a situação agora e que perspectivas há?

Maryam Fathi: O regime, primeiro, suspendeu todas as telecomunicações telemáticas, cortou a Internet. E já há anos aplicativos como Instagram ou Telegram têm um papel importante para as mobilizações, já que não há nenhum meio de comunicação que não esteja sob a tutela do Estado.

Não há partidos de oposição. Não há alternativa. Nesse contexto a internet é fundamental para o intercâmbio de opiniões, informações, para formar grupos. Isso é um dado bem sabido pelos líderes iranianos, que ademais de cortar a internet, suspenderam páginas de mídia alternativa como o Ahmed News, que tinha um milhão de seguidores.

O passo seguinte foi militarizar as cidades. Vinte e um mortos em tão poucos dias não é qualquer coisa. Se o protesto interno continuasse, haveria mais mortos, porque o governo é capaz de massacrar a população. Um governo que realiza execuções públicas é um governo genocida em potencial. Só em 2016, segundo dados do próprio governo, executaram mais de mil presos políticos e sociais.

Como analisa a dissidência iraniana a respeito do apoio que parte da esquerda internacional, sobretudo na Argentina e Venezuela, tem dado ao regime iraniano?

Maryam Fathi: Nós que temos vivido durante quase toda a nossa existência no Irã e conhecemos o regime sabemos que a esquerda clássica, tradicional, está equivocada. O governo do Irã não é anticapitalista e nem anti-imperialista.

Basta olhar para a Entente que forma com uma potência imperialista como é a Rússia. A esquerda à qual me refiro está há muito tempo enganada pelo governo do Irã. Pensar que os Estados Unidos e a Arábia Saudita estão por trás de protestos tão grandes – realizados em mais de 90 cidades diferentes e em povoados pequenos que nem sequer os líderes iranianos podiam suspeitar que seus habitantes saíssem às ruas – é um equivoco.

Milhares de pessoas estavam na rua; e para acreditarem na intervenção estrangeira haveria de admitir que essas potências controlam o Irã – o que se choca com o discurso do governo.

Que depois de 40 anos de silêncio tanta gente, de tantos lugares, de tantas identidades, tenha saído às ruas, é algo que por si só já desmente a ideia.

Por outro lado, no Oriente Médio está acontecendo uma mudança que também alcançará o Irã. Nós curdos sabemos muito bem que as potências estrangeiras têm seus interesses e a guerra é uma ferramenta para realizar suas políticas no Oriente Médio.

Pensar que se a guerra não chegasse ao Irã sua população não teria que seguir aguentando a fome, a humilhação, a injustiça e a violação dos direitos humanos, a repressão, é um equívoco. Por outro lado, apoiar um Estado como o iraniano, é como apoiar os Estados Unidos. Os Estados implicados na guerra da região e os membros da coalizão internacional não vão trazer democracia ao país.

O povo iraniano sabe disso e não quer seguir permitindo as políticas internas e externas do regime. Contra um sistema ditatorial é preciso sempre lutar, mas também é preciso ter o cuidado com os interesses dos Estados capitalistas em um lugar com tanta reserva de petróleo e com um papel geoestratégico tão importante, como o Irã.

Parece que a memória coletiva de parte da esquerda ocidental se congelou com a queda do Xá, mas esqueceu tanto a contrarrevolução islâmica como a execução de mais de 350 mil militantes de esquerda em 1988 ao final da longa guerra contra o Iraque.

Maryam Fathi: A revolução que derrotou o Xá Mohammad Reza Pahleví em 1979 foi encabeçada pelos comunistas (Tudeh) e outros partidos de esquerda como o Pmoi (Organização dos Mujahidin* do Povo do Irã) e Fedayín**. Quem nasceu e cresceu no Irã sabe que aquela revolução foi sequestrada pelos fundamentalistas religiosos, um feito que França e Grã Bretanha tiveram muito o que ver.

Dada a contrarrevolução, a esquerda protestou: uma República Islâmica não era aquilo pelo que haviam lutado. A maioria dos militantes de esquerda foi executada e, aqueles que puderam, como os curdos, muito ativos então nas políticas do Tudeh, escaparam para as montanhas (literalmente) ou para o exílio.

Eu nasci depois desses fatos, e os conheci, em grande parte, graças à leitura. Aos nascidos depois de 1980 nos chamam “a geração queimada”, porque nascemos sob um regime teocrático, tão repressor que não deixa que a vida floresça; são gerações sem futuro.

Sobre o massacre contra as pessoas de esquerda, eles faziam o seguinte: entravam nas cidades do Curdistão (e de todo o Irã), tiravam os primogênitos de dentro de casa e na mesma porta os assassinavam na frente da família e dos vizinhos. Mas também eram mortos nas prisões de Teerã e Isfaã. Foi um massacre. O regime não permite a dissidência.

Nós curdos não temos representação alguma; não temos oposição. É verdade que há curdos em instâncias governamentais, curdos que estão a favor do governo, mas são indivíduos. Quero dizer que não existe uma cadeira no Congresso ou qualquer tipo de representação para nós, nem para outros povos não-persas.

O mesmo sucede com as mulheres: o Irã é a maior prisão feminina do mundo. O presidente Hasan Rouhani pertence a ala dos reformadores, mais aberta, supostamente, que a outra. Mas em seu gabinete nunca houve qualquer mulher, não existem ministras. As mulheres tampouco podem ser juízas, não podem chegar à presidência... Me surpreende quando vejo partidos de esquerda ocidentais apoiando um Estado assim, tão autoritário.

O Irã tem problemas com os povos e nações, com as minorias religiosas, com as mulheres e os jovens.

*definição para combatentes de movimentos anticolonização da Ásia Central e Oriente Médio, mas hoje mais associado a grupos fundamentalistas

** sinônimo de guerrilheiros ou mártires no jargão da resistência palestina

Por onde é possível pensar em uma solução ou saída? Existe uma construção de algo alternativo no Irã?

Maryam Fathi: A unidade entre os povos e conquista de autonomias democráticas são passos importantes. Em 11 de janeiro o Parlamento Europeu acolheu uma reunião de representantes de diferentes povos do Irã e deputados de esquerda da Europa.

O Partido pela Vida Livre do Curdistão, Pjak, propôs ali o confederalismo democrático como saída, como elemento para o trabalho comum. Está sendo trabalhada uma maneira de formar uma confederação democrática de povos do Irã, ainda que no exílio.

No momento a ideia é levar a iniciativa até o país, organizar o povo, sensibilizá-lo sobre essas propostas, que podem favorecer a aparição de autogovernos. É preciso promover a organização para acompanhar novos protestos ou fazer frente a problemas que possam surgir. Sabemos que não podemos esperar apoio externo e nem mudanças em Teerã: não nos trarão democracia, apenas mais problemas.


Leia também:

Projeto Curdo: “Todos devem ter acesso à democracia”

Alvaro Hilario Pérez de San Román escreve para o jornal Brecha, de Montevideo, onde a matéria foi a publicada em espanhol.
Traduzido por Raphael Sanz, para o Correio da Cidadania.

Publicado em espanhol no semanário  Brecha e no blog Correspondencia de Prensa da revista L´Encontre. Ambos meios de comunicação uruguaios. 

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