Oportunidades do “oficialismo” consumaram vitória de Cristina na Argentina

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A eleição de Cristina Kirchner à presidência da Argentina na semana que passou veio envolta em uma série de avaliações pelos meios jornalísticos, que destacaram desde a apatia do eleitorado até uma vitória calcada em números realmente fantásticos atingidos pelos índices econômicos e sociais na gestão Kirchner.

 

Intermediando esses pólos, viram-se também as análises que enfatizaram a persecução de uma política de cunho compensatório, que, bem longe de mitigar mazelas estruturais da sociedade argentina, mascarou-as com um assistencialismo impotente para dar um rumo firme ao desenvolvimento.

 

Para comentar o que sucedeu nessas eleições e fazer um breve prognóstico do que poderá decorrer na Argentina, conversamos com o ex-ministro da Agricultura da Província de Buenos Aires, Gillermo Gallo Mendoza.

 

Confira abaixo.

 

Correio da Cidadania: A imprensa no Brasil narrou um certo clima de indiferença dos argentinos para com as eleições. Você corrobora essa impressão?

 

Guillermo Gallo Mendoza: Diria que, mais do que um clima de indiferença dos argentinos habilitados para votar, o clima foi de confusão e incerteza até poucos dias antes de 28 de outubro.

 

Questionamentos quanto à legalidade de algumas candidaturas, que logo foram desprezados pela Justiça – casos do candidato a governador da província de Buenos Aires, representante do oficialismo e atual vice-presidente da nação, por não residir na província, e do também candidato ao governo de Buenos Aires apoiado pelo “macrismo”, a quem queria se impugnar por haver nascido na Colômbia –, além de outros casos menores.

 

Contribuiu para a confusão o fato de que vários dos candidatos presidenciais estavam encabeçando diversas listas integradas por candidatos que criaram diferentes partidos para a ocasião, como se fosse uma eleição interna. Essas listas foram denominadas “colectoras”, e deram lugar a uma enorme proliferação delas. Em cada quarto escuro de votação, ocuparam amplos espaços, obrigando os eleitores a procurar a lista de sua preferência – assim como a cortá-las, além de outras “astúcias e diversões” de alguns eleitores que as misturaram e aumentaram ainda mais a confusão.

 

Assim, exercer o limitado direito de voto se converteu em um exercício de paciência, algo a que os argentinos não estão certamente acostumados. O fato de que os argentinos procuraram votar dessa vez se manifesta no número de votantes, cerca de 70% do total de habilitados para fazê-lo. E a confusão se colocou em evidência na grande quantidade de votos em branco, impugnados e nulos.

 

Mesmo com todos os problemas acima assinalados, caso não tivessem ocorrido nessa ocasião, não teria sido mudado o resultado das eleições, por razões que posso explicar.

 

CC: O que foi, então, nesse contexto, determinante para a vitória de Cristina?

 

GGM: A desordem nas eleições não foi a causa do triunfo da candidata oficial – mas sim a forma com que outros candidatos desenvolveram as suas campanhas.

 

Alguns deles, ao se agregarem à gente da velha política, sofreram muito, com demoras na escolha das candidaturas e da confirmação de frentes e alianças, campanhas infantis da esquerda, saída tardia de quem poderia ter obtido uma votação maior a partir do peronismo revolucionário etc.

 

Por outro lado, o oficialismo desenvolveu sua campanha eleitoral corretamente, de forma ordenada, utilizando todas as oportunidades que traz o exercício do governo federal, provincial, municipal etc., e não acordaram em integrar uma mesma lista. Cada conjunto apresentou uma lista à qual se agregava, em seu topo, a candidatura oficial à presidência.

 

Também, mas mais tarde – ou seja, mais perto das eleições -, a candidata que ficou em segundo lugar aceitou as “colectoras” em sua postulação. Foi essa a metodologia que atraiu mais votos; os que não tiveram “colectoras” saíram derrotados – ou seja, pode-se dizer que as “colectoras” acabaram com os partidos.

 

CC: A crítica da esquerda ao governo de Lula no Brasil salienta a manutenção da ortodoxia na economia, ao lado do incremento de políticas sociais compensatórias, sem um enfoque suficiente na busca de soluções estruturais para debelar a desigualdade de renda. Parece-nos, pelas análises de estudiosos argentinos mais críticos, que algo semelhante pode ter ocorrido na Argentina, a despeito da postura de Kirchner de maior enfrentamento com o mercado financeiro. O que você teria a dizer sobre isso?

 

GGM: Creio que a metodologia política, apoiada em algumas aparentes distribuições de ingressos da nação, tais como aumentos aos aposentados, acordos salariais com prêmios importantes, ações de aparente “freamento” aos empresários, de aparente controle de preços, o congelamento de impostos antes das eleições, a hábil e contínua propaganda oficial sobre o crescimento contínuo da economia a partir das taxas espetaculares dos últimos anos e anúncios de obras, esteve por cima de análises mais profundas da economia ou de presumidos enfrentamentos com o poder financeiro.

 

CC: Como você imagina que será o mandato de Cristina? O que resultará para a Argentina, a seu ver?

 

GGM: Em princípio, se nada mudar em relação à gestão da economia, o governo poderá ter que enfrentar problemas maiores do que os da gestão anterior. No entanto, para dar uma resposta mais profunda, é necessário saber com certeza como será formada a nova equipe do governo federal e das províncias mais importantes, assim como saber como serão definidas matérias como recursos naturais, energia, além de outros temas. Essa resposta espero poder dar em vinte ou trinta dias.

 

CC: Como está e quem é a oposição hoje na Argentina? Como deverá ser a sua atuação no governo Cristina?

 

GGM: Na realidade, não há uma oposição real. Creio que a oposição irá se conformando à medida que o novo governo avance em suas decisões políticas. Já está claro que nenhum dos outros principais candidatos e que nenhum dos partidos que participaram das eleições são donos dos votos que receberam.

 

Inclusive, o oficialismo triunfante deverá trabalhar para avançar na questão da distribuição de renda, para consolidar pelo menos 30% ou 40% dos votos que recebeu, pois, ao não perceber a possibilidade de um triunfo de uma oposição, estes seriam como “votos úteis”. Em palavras simples, creio que votaram pelo “espanto”, e não por “amor à camisa”. Isso também poderá ser visto de modo mais aprofundado mais adiante.

 

 

Colaborou Mateus Alves.

 

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