O perigo vem de Washington

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Perguntado a respeito das ameaças que pesariam sobre os EUA, o diretor de cinema, Oliver Stone respondeu: “nós não estamos sob ameaça. Nós somos a ameaça”.

Não exagerou. Há muito tempo, os EUA costumam impor seus interesses aos demais povos deste planeta. E ai de quem resistir. Vai ter de enfrentar o poder da força econômica e militar dos norte-americanos.

Justificando as ocasiões em que ameaçam - ou mesmo vão às vias de fato – para dobrar países rebeldes, os presidentes dos EUA (uns mais, outros menos) escondem seus verdadeiros motivos: hegemonia política, domínio de mercados, vantagens a grupos econômicos ou objetivos de política interna.

Faz parte da lógica dos impérios dourarem suas ações autocentradas como sendo voltadas para a defesa da democracia, liberdades civis, direitos humanos, leis internacionais, ordem global, enfim, dos valores éticos das nações civilizadas.

Raros presidentes, como Jimmy Carter e Barack Obama, não adotaram esse comportamento hipócrita como regra de conduta. Procuraram integrar nas suas políticas os interesses de outras nações e princípios, aqueles mais cultuados no nosso tempo.

Ruptura com o TPI

Nem sempre, porém. O peso do establishment político-econômico no governo do país foi decisivo em diversas situações, levando esses dois presidentes a não fugirem das regras normais do cargo.

Entre todos os presidentes norte-americanos aquele que mais usou a imensa superioridade econômica e militar do país para impor os interesses imperiais, sem qualquer limitação de ordem ética, é sem dúvida Donald Trump.

E o vem fazendo rotineiramente sem os disfarces que seus antecessores usavam para manter o mito do excepcionalismo yankee, do grande irmão do norte, empenhado na proteção da justiça nas relações internacionais.

É fato que, algumas vezes The Donald falseia seus intentos reais, adoçando-os com motivos nobres que não existem. Mas, quase sempre ele não vacila em apresentar seu America, first como a defesa exclusiva dos interesses norte- americanos (eventualmente também de uns poucos aliados e vassalos). E que os demais países tratem de se conformar.

Esta, digamos, filosofia, aparece claramente definida no atrito da Casa Branca com o Tribunal Penal Internacional (TPI).

O Tribunal Penal Internacional (TPI) foi criado em 2002 para julgar indivíduos acusados dos mais graves crimes internacionais: genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade e os chamados crimes de agressão, aqueles cometidos por pessoas ou grupos que, tendo o controle das forças armadas de uma nação, planejam e/ou promovem um ataque a outro país, prejudicando sua independência política, sua condição territorial ou violando sua soberania.

É do interesse da comunidade internacional contar com um tribunal habilitado a julgar culpados de crimes internacionais em países onde o governo se omite por fraqueza das suas instituições ou falta de interesse.

Neste ano, atos de representantes dos EUA no Afeganistão entraram no foco do TPI.

A promotora-chefe levou à consideração do tribunal um milhão e duzentas mil denúncias contra indivíduos do Talibã, das forças do governo de Cabul e da coalizão da OTAN, liderada pelos EUA.

Militares e políticos acusados da prática de tortura e ações semelhantes é algo que enfurece o governo Trump.

John Bolton, o conselheiro de estimação de The Donald, reagiu, em nome do seu chefe.

Considerou inominável a ideia de um tribunal estrangeiro processar algum militar ou político dos EUA.

Jamais um estadunidense se sentaria no banco dos réus do TPI. Com isso, um tribunal criado por 120 países para atender a uma necessidade da ordem mundial foi simplesmente descartado.

E Bolton não se limitou a afrontar o TPI: ameaçou o tribunal, seus membros e qualquer pessoa que ousasse assessorar o TPI nessa maligna postura de processar norte-americanos. Os EUA retaliariam de forma implacável.

Mencionou algumas armas do arsenal de Washington: proibição desses juízes e procuradores de entrarem nos EUA, congelamento dos fundos que possuíssem no sistema financeiro norte-americano e seu processamento nos tribunais dos EUA (seria pelo “crime” de importunar Tio Sam?).

Sanções como estas – ou mesmo muito piores – tem sido as armas mais usadas por Trump para convencer outros países a aceitarem seu diktat.

São consideradas altamente eficientes, pois arrasam e matam sem por em risco a vida de um único soldado. Com a vantagem de o custo ser mínimo, irrisório mesmo, em comparação com o custo das ações propriamente militares.

Sanções para todo lado

É verdade que os efeitos das sanções demoram mais a aparecer. No entanto, sua letalidade é inquestionável.

Sobre a possibilidade das sanções matarem o povo iraniano de fome, Mike Pompeo, o secretário de Estado, comentou, na BBC: “A liderança iraniana tem de decidir se querem que seu povo coma”.

Portanto, o governo de Teerã, seria o culpado pela fome causada pelas sanções, caso não cedesse à pressão norte-americana.

Bizarra inversão das responsabilidades. É o mesmo que culpar alguém morto num assalto por ter resistido aos bandidos.

Atualmente, as sanções são as estrelas nas guerras econômicas travadas contra diversos países: Irã, países da União Europeia, Rússia, Coreia do Norte, Palestina, Turquia, Cuba, Venezuela e Belarus. Some-se a esta lista alguns da África, também alvos das sanções da Casa Branca.

O Irã é a principal vítima do America, first. O governo Trump alega que a intervenção de Teerã no Oriente Médio está desestabilizando a região.

Através de contínuas ameaças estaria, ainda, pondo em risco a própria sobrevivência de Israel.                                                                                         

O governo dos EUA exige que os iranianos parem de produzir mísseis intercontinentais e destrua totalmente suas instalações nucleares. Além de circunscrever suas ações ao território do país.

Numa suposta defesa da ordem e da justiça, The Donald retirou os EUA do Acordo Nuclear com o Irã, que bloqueia um eventual programa nuclear militar iraniano por, pelo menos, mais 10 anos.

The Donald disse que, graças ao Acordo Nuclear, o Irã certamente se rearmaria em segredo. A solução do presidente era alterar as regras aprovadas, inserindo ideias do amigo, Bibi Netanyahu, inaceitáveis por Teerã.

Os demais signatários (Alemanha, Reino Unido, China, Rússia e França) protestaram: o Irã estava cumprindo as exigências feitas, o acordo fora mundialmente aprovado como eficiente. E mais: de imediato, iria garantir a paz, impedindo um conflito bélico que se desenhava no Oriente Médio.

O Acordo Nuclear com o Irã é do maior interesse das nações do urbe, inclusive dos EUA. Foi o ex-presidente Obama um dos seu principais mentores.

Só que os interesses da política externa dos EUA de The Donald sã outros.
O que ele deseja é liquidar o regime iraniano, evitando que continue disputando a hegemonia no Oriente Médio com os EUA e os seus parças, Arábia Saudita e Israel.

Riscos no Oriente Médio

Juntamente com esses dois, mais os Emirados Árabes Unidos e outros países árabes menos votados, o presidente republicano tem um plano para mostrar a Teerã o que é bom para a tosse.

A Arábia Saudita tem um papel importante nesse enredo. Os sauditas são parceiros tão valorizados, que o presidente dos EUA esqueceu os princípios da revolução norte-americana para proteger o príncipe coroado Mohamed bin Salman, ora imputado pela comunidade internacional como mandante de um horrendo crime, o assassinato de um opositor na principal cidade da Turquia.

No seu afã de mostrar serviço ao reino do deserto, The Donald chega a contestar a condenação da sua própria CIA, além da maioria do seu partido e dos grandes países ocidentais, alegando falta de provas contra o autocrático príncipe.

Ele mesmo explicou os motivos: as vendas de 110 bilhões de dólares em armas, investimentos supostamente prometidos na ordem de 450 de bilhões e apoio ativo no conflito contra o Irã.

Quanto a Israel, além de suas afinidades com Netanyahu, Trump conta com a ação do lobby pró-Israel nos EUA, que dispõe de grande poder de influência, inclusive no Congresso e na imprensa, e com os colossais financiamentos de campanha de magnatas judaico-americanos, tendo em vista as eleições presidenciais de 2020.

Sem contar que Israel tem sido um posto avançado do império no Oriente Médio.

Para cortar as asas da república islâmica, The Donald foi buscar no seu arsenal uma sanção de elevado poder destrutivo: o bloqueio da economia iraniana.

Quem ousar desafiá-lo, investindo no Irã; importando produtos locais, principalmente petróleo – pilar da economia iraniana – ou exportando algum item de que o Irã necessita, perde o acesso ao riquíssimo e altamente lucrativo mercado norte-americano, fica fora do sistema bancário internacional e pode dizer adeus a qualquer transação com os EUA.

Se esta arma for eficaz, a economia iraniana acabará entrando em colapso, com violenta queda da produção, desemprego, carência de alimentos, falência da saúde e da educação públicas, desestruturação da administração pública e da prestação de serviços, aumento da criminalidade, fazendo, enfim, o Irã retroagir dezenas de anos, se não séculos.

O Irã sofreria danos que só uma feroz guerra militar poderia causar, inclusive um número elevado de mortes desnecessárias.

Atualmente, quando a crise ainda está se esboçando, já tem gente morrendo no Irã.

Estando o país impedido de importar aviões e peças de reposição desde o início da os seus problemas com o Ocidente, seus aviões comerciais ficaram velhos e defasados, sem condições de operar com segurança.

As consequências tem sido fatais: nos últimos 25 anos, 17 aviões caíram, com a morte de 1.500 pessoas. Números muito maiores do que a média de qualquer outro país.

Com o fim das sanções trazido pelo Acordo Nuclear, os iranianos tentaram resolver este problema, adquirindo 80 modernos aviões da Boeing e 100 da Airbus.

Mas, ao sair do Acordo Nuclear, Trump proibiu essa operação. Mesmo os negócios com a europeia Airbus foram bloqueados, pois suas aeronaves usam algumas peças Boeing.

Assim, sem disparar um único tiro, The Donald condenou à morte muitos iranianos, passageiros dos inseguros aviões que continuarão a cair por suas falhas técnicas.

Já neste ano, as sanções vêm contabilizando mortes no sistema de saúde, que normalmente seriam evitadas ou, ao menos, retardadas.

Já está acontecendo uma falta crescente de medicamentos produzidos no exterior, necessários para o tratamento de doenças graves.

Sua importação foi interrompida devido às sanções. A consequência é um grande número de pessoas doentes dependentes desses medicamentos, que hoje vivem em péssimas condições de saúde, atingidas por sofrimentos, antes evitados ou suavizados, quando não têm seu falecimento antecipado por falta do tratamento adequado.

Estudos já mostram os efeitos das sanções nos cancerosos do Irã. Recentemente, o Mahak, Centro de Pesquisas e Tratamento de Câncer Pediátrico, informou na revista inglesa, The Lancet, que a carência de medicamentos essenciais começa a encurtar a vida de muitos pacientes.

Os EUA se defendem, alegando que a importação de bens humanitários é permitida pelas sanções. Não entendem esta falta de medicamentos no Irã…
Fingem desconhecer que as empresas do exterior evitam fazer qualquer negócio com os iranianos de medo de caírem nas proibições do complexo regulamento das sanções norte-americanas. E serem devidamente punidas.

O cineasta iraniano, Abdolreza Kahani, faz uma observação sobre a realidade das sanções: “Crime de guerra não é apenas matar pessoas com gás mostarda. Aplicar sanções em medicamentos é o maior dos crimes químico... É o maior crime contra a humanidade”.

Embora não diretamente visados pelas sanções, os países da União Europeia também são alvejados por elas. E sofrem danos consideráveis.

Ao declarar o bloqueio econômico do Irã, The Donald decidiu monocraticamente que todos os países do planeta não mais realizassem qualquer transação com Teerã.

Historicamente, o Reino Unido, por exemplo, sofreu sanções semelhantes por dois imperadores.

Napoleão, no século 19, e Hitler no século 20, determinaram o bloqueio de toda navegação marítima com os portos ingleses. Ambos fracassaram.

Nos dias de hoje, por ordem do imperador Donald 1º, quem se atrever a desobedecê-lo sentirá o peso das sanções, sendo-lhe negado o acesso ao mercado dos EUA e, praticamente, ao sistema bancário internacional.

Primeiros resultados

Muitas nações são assim fortemente prejudicadas. Empresas da Alemanha, França e Itália tiveram de cancelar grandes empreendimento planejados (e até iniciados) em território iraniano.

O Reino Unido preparava-se para aproveitar as inúmeras oportunidades de um mercado de 80 milhões de habitantes e riquíssimas jazidas minerais, especialmente petróleo, cujas reservas são as terceiras maiores do mundo.

O impacto no comércio exterior também foi pesado. As exportações alemãs para o Irã, por exemplo, caíram 4% nos primeiros cinco meses de 2018, depois de terem crescido 16% no ano passado, conforme a Câmara Alemã de Comércio e Indústria.

Muitos países que importavam petróleo iraniano em boas condições reagiram contra a proibição. The Donald acabou consentindo num waiver (licença de importação) de 45 dias, findo os quais teriam de parar essas operações. China, Índia, Turquia, Japão, Coreia do Sul, Itália, Grécia e Taiwan foram beneficiados pela “generosidade” do presidente norte-americano.

A China, a Índia e a Turquia (os principais importadores) já afirmaram que não vão ceder à pressão imperial do governo da Casa Branca. Continuariam a importar petróleo iraniano como sempre fizeram. É de se duvidar.

Seja como for, a política de The Donald vai causar prejuízos econômicos a grande número de países, que serão obrigados a pagar mais por mercadorias importadas de novos fornecedores, além de vários terem de perder preciosas oportunidades de lucros no mercado iraniano (perder lucros prováveis significa prejuízos).

O dano pior causado pelo novo Zeus entronizado na Casa Branca é a emergência na guerra no Oriente Médio. Isso pode acontecer. Ainda em 2019.

Caso a Europa e a China não consigam defender o desenvolvimento econômico iraniano (como prometeram no Acordo Nuclear), evitando que as sanções levem o país para o caos, o governo de Teerã se verá fraco para se defender de agressões dos seus inimigos.

Prevê-se como certo que acabaria promovendo a produção de armas nucleares. O que provocaria uma intervenção militar dos EUA, Israel, Arábia Saudita e países vassalos do reino de Riad.

Apesar de a Europa tentar reagir às consequências das sanções do autocrata de Washington, as perspectivas não são das melhores.

Em associação com China e Rússia, a França, a Alemanha e o Reino Unido, signatários do Acordo Nuclear com o Irã, criaram um sistema para fugir às sanções. Trata-se do chamado SPV (Special Purpose Vehicle).

O SPV visa permitir exportações e importações de e para o Irã sem o pagamento em dólares. Com isso, qualquer país poderia comerciar com os iranianos, sem ser penalizado pelos EUA.

Mas,  a instalação do sistema não está fácil. É necessário instalar uma clearing house (caixa de compensação) para viabilizar o SPV. Os países consultados para sediar essa unidade – Áustria e Luxemburgo – não aceitaram. Provavelmente porque temem retaliações de Washington.

A União Europeia não desistiu, continua procurando um país que tenha a audácia de encarar The Donald.

Está em jogo uma mudança radical na área internacional, na qual os legítimos interesses universais poderão se sobrepor aos da política, pelo menos discutível, de uma única nação.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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