A burrice como opção

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Rafael Braga, vítima de um sistema judicial que ignora fatos e acredita nas próprias mentiras | Foto: Luiza Sansão/Ponte Jornalismo

O desprezo pela inteligência é uma característica marcante das políticas de segurança pública do Brasil. Se abraçamos o triste recorde de país com o maior número absoluto de homicídios no mundo, não foi por falta de estudos, pesquisas e análises a respeito da questão da violência no Brasil. Embora não faltem estudos, contudo, falta quem preste atenção neles.

Por mais que diversos especialistas tenham feito incursões profundas em seus objetos de estudo e levantado um manancial de informações que nenhum interessado em pensar segurança pública no Brasil poderia desprezar, gente que pensa e estuda ainda é vista com enorme desconfiança pelo ambiente anti-intelectual em torno do tema.

"Para enfrentar essa situação, repleta de causas e fatores, temos curiosos demais dando palpites infelizes, muitos deles apresentando-se como 'especialistas em segurança', 'juristas' e 'professores'", escreveu recentemente o repórter policial Percival de Souza.

E um dos alvos mais ridicularizados pelo canal de humor "politicamente incorreto" são os "especialistas da USP": uma esquete do canal chegou a sugerir que os especialistas seriam mais úteis se fossem usados como escudos humanos por policiais durante tiroteios.

O resultado é o que se vê. Entra ano, sai ano, diversos governos continuam a insistir nas mesmas políticas de sempre: guerra às drogas, militarização da segurança pública, encarceramento em massa, cumplicidade com os policiais que torturam e matam negros pobres. Continuamos a repetir as mesmas políticas, como se não houvesse outras experiências bem sucedidas, aqui ou em outros países, que pudessem servir de inspiração para políticas menos repressivas e mais eficientes.

A opção ostensiva pela burrice chega ao auge com a eleição de Jair Bolsonaro e de seus seguidores nos estados, como Doria em São Paulo e Witzel no Rio. O obscurantismo já era uma marca forte do programa de governo de Bolsonaro, que buscava traçar uma ligação delirante entre aumento de homicídios e o Foro de São Paulo e apostava no armamento da população como estratégia de combate à violência, contrariando praticamente tudo o que a literatura científica tem a dizer a respeito.

Haveria muitos caminhos diferentes a trilhar. Já que o novo governo é tão fã dos norte-americanos, poderia, por exemplo, dar uma olhada em práticas adotadas com sucesso por lá, que incluem a descriminalização da maconha e o aumento da maioridade penal, adotadas por um número crescente de estados, ou um projeto de reforma do sistema de justiça criminal, que prevê abrandamento de penas e desencarceramento, e que ganhou apoio até do presidente Donald Trump.

Mas ninguém ali parece interessado nisso. Aliás, os bolsonaristas parecem simplesmente não se importar com o mundo real, a julgar pelo comportamento revelado nos últimos dias pelos ministros indicados por Olavo de Carvalho: enquanto o futuro ministro de Relações Exteriores nega a existência do aquecimento global, o próximo ministro da Educação defende, sem qualquer evidência, que a facada em Bolsonaro foi fruto de um "complô do crime organizado com os radicais de sempre".

As teorias da conspiração são uma parte essencial do bolsonarismo, que baseia seu sucesso na estratégia de vender soluções falsas a partir de diagnósticos delirantes. É uma velha característica dos extremismos políticos, à direita e à esquerda, a de combater a inteligência e negar a realidade factual a todo custo.

Para o bolsonarismo, os fatos não importam e a realidade é sua inimiga. É por isso que o jornalismo independente e crítico, que tem como missão justamente expor fatos e retratar as diversas facetas da realidade, ganha um papel ainda mais relevante nos dias que correm: o de sempre, a cada dia e contra todos, gritar que os reis estão nus — e cobertos de sangue.

Ponte Jornalismo – Justiça, Direitos Humanos e Segurança Pública.

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