Assassinato do jornalista saudita: quem tem peito para encarar a monarquia?

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Ninguém acreditou que o jornalista crítico do príncipe coroado Mohamed bin Salman saiu vivo do consulado saudita, em Istambul.

Depois de passar 18 dias negando a morte de Jamal Khashoggi, o governo da Arábia Saudita acabou admitindo que ele foi assassinado.

O príncipe bin Salman, governante de fato do país, tido como o provável mandante, jurou que não sabia de nada. Tudo fora articulado e executado em segredo por gente dos serviços de segurança e inteligência.

Eles só pretendiam interrogar o jornalista. Infelizmente, houve troca de insultos e a operação degenerou em briga, na qual Khashoggi levou a pior e, vejam que chato, morreu.

O procurador-geral do reino informou que o governo estava agindo. Já demitira o vice-chefe da inteligência, Ahmed al-Assiri e o general Saud al-
Qatani, conselheiro do príncipe. Prendera 18 cidadãos possivelmente implicados no mortal affair. E o próprio rei Salman tinha encarregado o príncipe coroado de liderar investigação rigorosa do fato.

Sendo realista, tratava-se da nomeação de um lobo para investigar a matança de carneiros pela alcateia.

Nem na Europa, nem nos EUA, nem em qualquer parte do mundo civilizado houve quem engolisse as explicações sauditas.

O próprio Trump disse que ainda havia muito a ser explicado, embora a informação saudita fora “um bom começo. Muito bom começo”.

Ressalvou, porém, que jamais cortaria as vendas de armas para a Arábia Saudita, pois os 110 bilhões de dólares envolvidos no negócio garantiam 500 mil empregos norte-americanos.

Pressionada pelo ceticismo internacional, a Arábia Saudita produziu nervosamente mais duas novas versões do incidente, somando três em apenas 48 horas. Todas coincidindo na total inocência de bin Salman.

Acredita quem quiser

Na segunda, o ministro do Exterior Abel al-Jubeir relatou que os 15 assassinos pretendiam apenas convencer Khashoggi a voltar. Mas excederam sua autoridade e acabaram estrangulando o jornalista. “Um tremendo erro”, garantiu Jubeir.

Uma versão oficiosa, não tão idílica quanto as duas primeiras, partiu de um alto funcionário da corte real: os 15 tinham planejado por conta própria drogar, raptar e levar Khashoggi à força para o reino. Mas as coisas saíram do script. Quando um agente informou as intenções do grupo, Khashoggi resistiu. Aí só restara aos 15 bravos apelarem para a força bruta. Na luta, o jornalista defendeu-se com tanto ardor que os sauditas tiveram de o estrangular.

Diante do inesperado, o jeito foi tentar enganar. Disfarçado de Khashoggi, vestindo suas roupas, com uma barba igual à dele, seus óculos ray-ban e seu relógio, um dos agentes saiu do consulado, para provar às câmeras de segurança que nada de mal acontecera ao jornalista.

Quanto ao cadáver, foi enrolado num tapete e entregue a um “colaborador local” para dar sumiço nele.

Ainda assim a comunidade internacional não abrandou suas críticas.
     
Os três principais países da Europa – Reino Unido, Alemanha e França – divulgaram um comunicado conjunto, condenando o assassinato e solicitando esclarecimentos completos, “além das hipóteses levantadas até agora pela investigação saudita, que precisam ser apoiadas por fatos considerados críveis”.

A Alemanha foi mais longe. Angela Merkel mandou suspender as vendas de armas para o reino. E ainda apelou para que os demais países da União Europeia imitassem a postura do seu governo.

Todos os partidos de oposição inglesa – Trabalhista, Nacional Escocês, Galês e Liberal Democrata – exigiram que o governo do Reino Unido fizesse o mesmo.

Depois de exigir uma resposta convincente do governo de Riad, Jeremy Hunt, secretário do Exterior do Reino Unido, preveniu os sauditas que a amizade com o Reino Unido depende do compartilhamento de valores entre os dois países.

O que parece bizarro, pois a monarquia do deserto é uma ditadura que não aceita valores ingleses fundamentais como as liberdades individuais – os direitos humanos e a democracia.

Nos EUA, a rejeição às versões sauditas é tão generalizada que até a maioria dos republicanos as repudia.

O senador Lindsey Graham, um dos mais ardentes defensores de Donald Trump e da monarquia saudita, exigiu a demissão do próprio bin Salman, a quem chamou de “bola de demolição” que “fez esse cara (Khashoggi) ser assassinado no consulado na Turquia”.

E acrescentou: “nada acontece na Arábia Saudita sem MBS (apelido do príncipe) saber”.

Perguntado se acreditava na versão saudita de que o jornalista morrera acidentalmente numa briga, Randy Paul, outro senador republicano, respondeu: “absolutamente não. É um insulto!”

O reino está nu

O assassinato no consulado contaminou fortemente a imagem da Arábia Saudita nos EUA.

Em pesquisa do YouGov, apenas 4% dos norte-americanos manifestaram confiança incondicional na amizade dos sauditas a Tio Sam.

Pressionado pelos congressistas, a mídia e a população, The Donald foi aos poucos deixando-se levar pela onda.

Depois de começar afirmando que nada estava provado contra o reino e seu príncipe coroado, acabou reconhecendo que havia “decepções e mentiras” nas versões sauditas.

No dia 21 deste mês, revelou aos repórteres uma conversa dele pelo telefone com o príncipe bin Salman sobre a morte de Khashoggi. Não ficou satisfeito com o que ouviu. E não aceitou pedido de sua alteza para dar mais um mês às investigações que presidia.

Mas o morador da Casa Branca manteve seu mantra de jamais punir o reino com cancelamento das vendas de armas. O número de empregos que a sanção cortaria também mudou de declaração para declaração: dos 500 mil iniciais, passou a 600 mil. The Donald deixou de informar em que dados estava se baseando.

O fato é que a descrença internacional nas explicações do governo de Riad é absolutamente justa.

Não dá para acreditar que seriam necessários 15 homens só para interrogar o jornalista.

A composição desse grupo é estranha e lança suspeitas sobre o príncipe; sete dos 15 eram membros da sua equipe pessoal de segurança.

As suspeitas crescem devido à presença no grupo dos 15 de figuras como o diplomata Abdulaziz al Mutib, membro do cercle intime de MBS.

E se era para interrogar ou para sequestrar, por que incluir um médico legista na equipe de agentes? Soube-se depois que Tubaigy era expert em autópsias rápidas.

Sua função foi explicada na impressionante descrição do assassinato feita por fonte do Middle Eats Eye (17 de outubro): “Levaram Khashoggi do escritório do cônsul para uma sala próxima, onde o deitaram sobre uma mesa. Gritos terríveis foram ouvidos então por uma testemunha no andar térreo. O cônsul foi retirado da sala. Não houve nenhuma tentativa de interrogar (Khashoggi). Eles vieram para matá-lo. Os gritos pararam quando foi injetada uma substância desconhecida em Khashoggi. Tubaigy começou a cortar seu corpo na mesa, estando (o jornalista) ainda vivo. O assassinato levou 7 minutos”.

Esse relato foi confirmado por uma gravação, em poder das autoridades turcas, que já a apresentaram a oficiais da CIA (Hot Air, 23 de outubro).

Asseguram fontes do Middle East Eye que há outras evidências igualmente incriminadoras. Especula-se que se relacionam aos depoimentos já prestados por cinco funcionários turcos do consulado saudita. Outros 20 estão sendo ouvidos pelos investigadores.

Citando fontes sauditas, turcas e árabes, a Reuters revelou que um assistente top do príncipe teria comandado o assassinato.

Fonte árabe de alto nível, com acesso à inteligência e ligações com a corte real, contou que o já mencionado Said al-Qahtani, conselheiro de bin Salman há muito tempo, participou do ataque, via Skype. Ele mimoseou Khashoggi com palavrões, respondidos no mesmo tom. Ao que Qahtani urrou: “tragam-me a cabeça desse cão”.

Bin Salman

Em julho deste ano, ao afirmar que, como conselheiro de MBS, só agia de acordo com os desejos do chefe, ele reforçou a ideia que fora o príncipe que ordenara o crime.

Recentemente, novos indícios se acumularam contra bin Salman. O jornal do governo de Ancara publicou que, no dia do assassinato, aconteceram quatro ligações telefônicas entre o consulado e o gabinete principesco.

Em 22 de outubro, a polícia descobriu num carro da representação saudita malas com roupas e o laptop do jornalista assassinado (Middle East Eye). No mesmo dia, duas diferentes fontes do Sky News revelaram que se encontrara, enterradas no jardim do consulado, partes do cadáver do jornalista, que tinha sido desmembrado e seu rosto, desfigurado.

Ao ser informada, a primeira-ministra inglesa, Teresa May, considerou o fato “profundamente perturbador” (very disturbing).

Em sua aguardada fala sobre o conteúdo das investigações da polícia turca, o presidente Erdogan afirmou o que todo mundo já sabia: a morte do jornalista foi premeditada, um “horrível assassinato”.

“Temos algumas informações de que o crime foi pré-planejado, não espontâneo... Claro que foi uma operação planejada”, disse o presidente, prometendo levar tudo ao conhecimento público, brevemente.

Na verdade, não deve ser mais do que a confirmação oficial dos muitos relatos de fontes anônimas já divulgados pela imprensa.

Complicação internacional

O que surpreendeu na exposição de Erdogan foi sua solicitação aos sauditas para que entregassem os 15 assassinos à Turquia, onde deveriam ser julgados, pois lá fora o local do seu crime.

O governo de Ancara está preocupado com a possibilidade dos indigitados matadores serem executados pelo governo real, antes de seu interrogatório pelas autoridades turcas. Não está de todo errado.

Jornal turco anunciou que Meshal Saad al-Bostani, um desses cidadãos, morreu num acidente de carro suspeito, no dia 18 de outubro, em Riad.

Fonte saudita, com conhecimento íntimo dos serviços de inteligência do país, contou ao Middle East Eye (23 de outubro) uma história diferente.

Al-Bostani, como os outros executores de Khashogg, seria membro do “esquadrão tigre”, uma unidade secreta criada para matar inimigos do príncipe e do regime, sem deixar traços.

O próprio príncipe MBS foi acusado de dirigir e supervisionar as ações desse grupo.

Al-Bostani fora o responsável pela morte do príncipe Mansour, um adversário de MBS, alvejando-o com um míssil o helicóptero em que viajava. Constou publicamente que não passara de um acidente.

Bostani integrava o grupo dos 15, presos pelo assassinato do jornalista Khashoggi. Temendo-se que ele desse com a língua nos dentes, Bostani teria sido devidamente envenenado.

É de se crer que a monarquia petrolífera não aceitará o pedido de Erdogan, enviando à Turquia os 15 (agora, 14) para ali serem julgados. Não vai se arriscar a que alguns deles possam dar o serviço.

Já estão bem guardados numa prisão, onde ficarão até o governo de Riad resolver processá-los.

Possivelmente, aqueles que poderiam falar demais morrerão por causas naturais ou se suicidarão.

Os outros irão ao tribunal se dizendo culpados, isentando o príncipe de qualquer participação no crime.

Por que não?

Lembram dos célebres julgamentos de Moscou, nos tempos de Stalin? Foi lá que antigos ideólogos marxistas e heróis das lutas revolucionárias se confessaram culpados de hediondas crimes, traições ao regime, espionagem em favor de Hitler etc.

Se o regime comunista conseguiu manipular esses cidadãos, porque as autoridades sauditas, dispondo de recursos químicos mais modernos, não conseguiriam?

Não espere de Trump mais do que punições simbólicas, que não provoquem a ira saudita.

Ele não quer de jeito nenhum perder esse poderoso aliado contra o rival Irã, inestimável também pelas altamente lucrativas importações dos produtos das ávidas indústrias estadunidenses de armas e pela garantia de fornecer todo o petróleo que os EUA precisarem.

Se algum país desavisado pedir ao Conselho de Segurança da ONU uma investigação independente do crime no consulado, não vai dar outra: veto de Trump na cabeça.

Quanto aos países europeus, há a firmeza de Merkel, mas devemos desconfiar do pragmatismo de Macron e do conservadorismo de Tereza May.

É de se temer que o príncipe coroado Mohamed bin Salman abaixe a crista durante algum tempo, mas logo estará de novo unido a The Donald em novas peripécias internacionais. Tomara que estejamos errados.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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