Mano Brown estava com a razão

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Não foi apenas no Capão Redondo, bairro da Zona Sul de São Paulo, onde mora o rapper Mano Brown, que a dificuldade do PT em falar com o povo se mostrou em toda a sua crueza. Isso ocorreu em inúmeras localidades periféricas de todo o país, nas quais se concentra a maior parte da população brasileira. Nelas, a esmagadora maioria dos moradores é constituída de gente pobre, convivendo com o desemprego, com a falta de saneamento básico e de serviços de educação e de saúde, assim como com a violência.

Foi com as populações dessas localidades que o PT havia criado elos e raízes profundas por mais de vinte anos, permitindo-lhe a vitória nas eleições presidenciais de 2002, 2006, 2010 e 2014. Apesar disso, as eleições presidenciais de 2018 tornaram-se uma demonstração de que grande parte dessas populações não só deixou de acreditar no PT como está decepcionada com o sistema social e político vigente.

Se existir alguma dúvida a esse respeito será bom examinar a quantidade de abstenções e de votos em branco e nulos, superior a 30% do eleitorado, assim como inúmeros depoimentos trazidos a público. Muitos afirmando que o PT não conseguia mais falar a língua do povo. Antigos votantes no PT demonstraram não só decepção com os políticos em geral, mas especificamente com o PT por supostamente haver se tornado igual a eles, chegando à triste conclusão de que “político é tudo igual”.

Outra fonte de verificação do distanciamento real do PT em relação às camadas populares do povo pode ser encontrada na confrontação dos votos no PT nas eleições anteriores. Em muitos locais onde obteve votações superiores a 60% em 2002, 2006 e mesmo em 2010, os votos começaram a cair sensivelmente desde então. E, na atual, embora a marca mais evidente seja a decepção, grande parte desses votos “petistas” foi para o candidato que se apresentou falsamente como nacionalista e opositor do sistema vigente.  

Na fase final da campanha eleitoral o candidato do PT até procurou reverter o avanço do candidato fascista anunciando que, se eleito, aumentaria o salário-mínimo acima da inflação, tabelaria o preço do botijão de gás e elevaria o valor do Bolsa Família em 20%. Além de ter vindo tarde, esse anúncio não tinha mais a base daquela relação em que promessas desse tipo são tomadas seriamente. Mesmo porque não eram o desdobramento de propostas vigorosas e compreensíveis no terreno do combate ao desemprego, à falta de segurança pública e à corrupção, nem tinha mais como condutores os laços de relação íntima e participação ativa nas lutas cotidianos do povo trabalhador.

É verdade que, apesar de tudo isso, o PT foi capaz de conquistar importantes vitórias em vários estados do Nordeste e na eleição de uma razoável bancada no parlamento. O que o cacifa não só para enfrentar a dura tarefa de se colocar como partido que pode liderar a luta pela conservação dos direitos democráticos formalmente constantes na Constituição, mas também como um partido capaz de fazer uma avaliação vigorosa dos erros cometidos em suas relações com as camadas populares e com outros partidos de esquerda.

Mesmo porque se não fizer isso não contribuirá para evitar o pior. É verdade que Bolsonaro, na reta final e pós-vitória, fez juras à democracia. No entanto, seria ilusão supor que fez isso por haver mudado de opinião frente às manifestações generalizadas em defesa da Constituição. Ele apenas recuou tendo em vista a necessidade de concretizar seu bloco político nas demais instituições do Estado, principalmente no governo e no Congresso, de modo a retomar a ofensiva para liquidar a Constituição de 1988 e varrer a esquerda e mesmo o centro da vida política nacional.
 
Como comentamos em texto anterior, a história da ofensiva fascista na Europa dos anos 1930 em diante é rica de ensinamentos. A partir deles não é difícil deduzir que, no governo, o bolsonarismo vai procurar manter as aparências.

Enquanto isso, seus bandos de milicianos e blackblocks, com a conivência das forças oficiais de segurança, vão fazer o trabalho sujo, como já estão fazendo, de agredir e perseguir militantes petistas, democratas e sindicalistas, assim como os movimentos camponeses, sem-moradia, comunitários e estudantis. A “caça” a petistas no meio das ruas assim como os “ensaios” que juízes e policiais realizaram em pleno pleito para impedir universitários de debaterem o perigo fascista, são apenas amostras do que está sendo preparado.
 
Não esqueçamos que todos os movimentos históricos fascistas até chegaram, em determinados momentos de sua ascensão, a reprimir tais bandos para demonstrar que sua consolidação no aparato de Estado já atingira o ponto de não necessitar mais deles. Todos eles levaram dez anos ou mais para consolidar o Estado repressor que tinham em mente, inclusive liquidando a direita conservadora e religiosa que havia apoiado sua ascensão.
 
A vantagem do movimento fascista de Bolsonaro, assim como a de Hitler nos anos 1930, consiste em que foi “democraticamente” legitimado pelas eleições. Por outro lado, suas dificuldades consistem em que as condições brasileiras atuais são muito diferentes daquelas que assistiram à ascensão do fascismo na Europa dos anos 1930 e ao reacionarismo no Brasil dos anos 1960, quando se instalou a ditadura militar.
 
Nos anos 1930, apesar da crise econômica, as diversas nações capitalistas ainda estavam num intenso processo de desenvolvimento de suas forças produtivas através do uso do trabalho humano e da exploração das colônias e semicolônias. Na atualidade, as nações capitalistas, tendo à frente os Estados Unidos, se encontram envolvidas em crises bem mais fortes do que a dos anos 1930, incluindo uma progressiva crise de desemprego em virtude das recentes revoluções tecnológicas poupadoras de trabalho vivo, exigindo das nações dependentes a total subordinação à devastação promovida pelas corporações financeiras.
 
Ou seja, na atualidade, o nacionalismo, a independência e a soberania arrotados por Bolsonaro só teriam vez se passassem a regular os investimentos estrangeiros, de modo a fazê-los transferir tecnologias avançadas em associação com empresas públicas e privadas industriais nacionais. Isso está longe de passar pela cabeça privatista, financista, dependente e subordinada dele e de sua equipe econômica, colocando fora de cogitação até mesmo uma industrialização desnacionalizada como a dos anos 1960 e 1970.
 
Ou seja, a promessa de multiplicação dos empregos não passa de propaganda enganosa. Em outras palavras, Bolsonaro não terá cacife de longo prazo para continuar enganando quase todos por tanto tempo. Muito dificilmente terá condições de superar a crise econômica e social que o país atravessa, mantendo-o no atraso, dependência, subordinação e desnacionalização que o caracteriza. Por outro lado, não se pode nutrir ilusões de que o mergulho ainda mais intenso do país nessa crise de desenvolvimento levará o bolsonarismo a recuar e mudar seu projeto antidemocrático. Ao contrário, pode levá-lo a apelar para um fascismo ainda mais rápido e brutal.

Nessas condições, se quiser realmente defender a democracia e o povo, as militâncias petista e de esquerda terão, em primeiro lugar, que reaprender a falar com o povo. O que só será possível, repetindo algo já dito em outros momentos, se os militantes e dirigentes estiverem intimamente entrosados com as lutas cotidianas do povo trabalhador, dos excluídos e da classe média baixa. Isto é, se participarem e vivenciarem tais lutas como suas. O que é e deve ser verdade também para os militantes e/ou dirigentes eleitos para as diversas esferas parlamentares e administrativas. Os “políticos” do PT e demais correntes da esquerda não podem ser “iguais” aos “políticos” que representam as classes burguesa e média alta.

Em segundo lugar, precisará assumir o posto de combatente contra o sistema político corrupto que mancha a democracia brasileira. É incompreensível que o petismo não só tenha se deixado enredar pelas malhas da Lava Jato, mas também tenha permitido que apresentassem o PT como grande corrupto e não tenha elaborado qualquer estratégia nem táticas de luta contra a corrupção. A corrupção, tanto a interna quanto a praticada pelo empresariado e por seus representantes políticos, tem demonstrado ser uma doença senil capaz de afundar não só transições socialistas, mas também transições democráticas.

Em terceiro lugar, precisará não ter vergonha de seu patriotismo, de ser um combatente firme na defesa da soberania nacional, na luta contra o entreguismo, a subordinação e a dependência do Brasil a potências estrangeiras, em especial aos Estados Unidos. A bandeira verde e amarela brasileira não pode faltar ao lado da bandeira vermelha do petismo, mesmo que consideremos que “democracia e progresso” sejam muito superiores à “ordem e progresso”.    
   
Certamente haverá outros erros e correções a serem enfrentadas pelo PT para voltar a conquistar os corações e mentes do povo brasileiro. Mas, no momento, diante dos últimos resultados eleitorais e da eleição de um fascista para presidente da república (apesar do esforço para provar que obedecerá à Constituição), talvez as descritas acima sejam as mais urgentes. Não creio que a militância aguerrida do PT seja incapaz de enfrentá-las e superá-las.

Wladimir Pomar

Escritor e Analista Político

Wladmir Pomar

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