Assassinato de jornalista saudita assusta Trump

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Donald Trump está vivendo um autêntico inferno astral. Ele sente que a aliança com o reinado saudita, pedra angular de sua política externa, está em perigo.

Os detalhes do sumiço do jornalista Jamal Khashoggi, visto como assassínio praticado pelo governo do príncipe bin Salman, estão deixando os norte-americanos e o resto do mundo brutalmente chocados.

E o que é mais grave, a opinião pública dos EUA exige que a Casa Branca tome uma atitude.

Embora o reino amigo costume frequentar as manchetes com notícias de seus inúmeros desrespeitos aos direitos humanos, desta vez a coisa ficou realmente séria.

Matar um jornalista renomado, morador nos EUA e colunista do Washington Post, ainda por cima em pleno consulado saudita, aí passou da conta, e muito!
Imprensa, povo e políticos compartilham da mesma virtuosa indignação.

O senador Randy Paul solicitou medida legislativa para suspender as próximas vendas de armas aos sauditas se houver “qualquer indicação” das culpas dos governantes.

Até congressistas, que sempre defenderam a monarquia do deserto, estão mudando de ideia; 22 senadores dos dois partidos enviaram carta, exigindo que a Casa Branca investigue profundamente o caso e sancione o governo de Riad, caso fique provada violação dos direitos humanos.

Os empresários dos EUA e de outros países estão querendo distância da Arábia Saudita.

A conferência Iniciativa de Investimentos no Futuro, marcada para fins de outubro em Riad, seria a vitrine do plano Visão 2030, concebido pelo príncipe Bin Salman (que manda no país) para industrializar e modernizar a Arábia Saudita.

Informa o Middle East Eye (13 de outubro de 2018) que a conferência estaria “rapidamente se tornando um fiasco depois que a maioria dos patrocinadores da grande mídia e muitas grandes empresas estão caindo fora”. Alegam ser devido às circunstâncias perturbadoras do desaparecimento de Khashoggi e à falta de explicações críveis. O Middle East Eye lembrou que o Visão 2030 é “fortemente dependente de investimentos do exterior.”

De fato, tudo depõe contra os reis do petróleo. Khashoggi, um conceituado jornalista que ousou criticar o todo-poderoso príncipe Bin Saud, exilou-se nos EUA para não ter o mesmo destino desagradável de outros críticos.

Lá continuou contestando o príncipe, como colunista do Washington Post.
Em 2 de outubro, acompanhado por sua noiva, ele se dirigiu ao consulado saudita em Istambul para solicitar documentos pessoais.

Câmeras de segurança mostram que ele entrou no consulado. E nunca saiu.

O governo de Riad jura que Khashoggi saiu, sim. Mas não prova. Vem com a desculpa de que não tinha câmeras de segurança para confirmar. É um tanto estranho, não dá para acreditar que uma representação diplomática de um país no exterior dispense esse equipamento.

Existem abundantes indícios do crime. Na madrugada do fatídico dia, dois jatos Gulfstream sauditas desceram em Istambul, trazendo 15 elementos dos serviços de segurança saudita.

Todos foram identificados pelos serviços de segurança turcos. Pelo menos 8 deles eram militares. Havia ainda três guarda-costas do próprio príncipe Bin Saud, dois guardas reais, vários soldados das tropas de choque, o chefe da agência de segurança interna e um médico legista.

Esse chamado “esquadrão da morte” fez seu check-in num hotel e logo foi para o consulado, onde permaneceu até duas horas depois da chegada do jornalista, quando seus integrantes se retiraram. Voaram para seu país no mesmo dia, à noite.

Tudo isso foi filmado por diversas câmeras de segurança. Que mostram ainda pessoas saindo do consulado, carregando várias malas grandes, guardando-as num automóvel e as levando, em seguida, para a casa do cônsul saudita.

As malas alimentam a hipótese de que Khashoggi, depois de morto, fora desmembrado (talvez para isso a equipe trouxera um legista).

Desvendando o mistério

Não se sabe se é verdade. O que se sabe é que existe uma prova altamente comprometedora, até mesmo definitiva, do assassinato no consulado.

Trata-se de um vídeo, com som e imagem, mostrando que o jornalista foi torturado e morto pelo esquadrão da morte, em plena representação do seu país na Turquia.

Agentes turcos que participam da investigação do crime garantem terem visto esse vídeo.

Um dos agentes revelou a jornalistas do Washington Post: “você pode ouvir a voz dele (Khashoggi) e as vozes dos homens, falando em árabe. Você pode ouvir como ele foi interrogado, torturado e assassinado”.

Esta denúncia foi confirmada por oficiais de segurança norte-americanos, aos quais o vídeo foi exibido.

Todo o affair está sendo rigorosamente investigado pelos serviços de inteligência turcos, posteriormente com a colaboração dos respectivos serviços estadunidenses. Há um outro fato que deve ser objeto dessa investigação.

Soube-se que, semanas antes do crime, os EUA interceptaram uma conversa entre oficiais de inteligência sauditas, sobre um plano para atrair o jornalista a Riad e lá agarrá-lo. E, aí, fazer com ele sabe lá o que.

De acordo com diretiva presidencial emitida por Obama em 2015, num caso assim os norte-americanos precisariam ter informado Khashoggi para que tomasse as devidas precauções.

Mas se omitiram. Se isso tivesse sido feito, ele jamais adentraria um consulado saudita e hoje talvez ainda estivesse vivo.

Quem deveria cumprir essa obrigação e porque não cumpriu, são questões que exigem resposta.

Saia justa

Inicialmente, The Donald não ligou para o furacão que estava pintando.

Disse à imprensa que o assunto o preocupava, mas que não gostava do que estava ouvindo. Rapidamente, a tormenta começou a se espalhar por todos os EUA. The Donald teve de endurecer seu discurso.

Depois de insistir que tinha mandado a investigação chegar aos “mais altos níveis”, deu uma maneirada: não valia a pena bloquear vendas de armas aos sauditas. Perder 110 bilhões de dólares por causa de um simples jornalista, que desapareceu fora do território norte-americano... Absurdo!

Admitiu que se, por acaso, fosse provada a culpa saudita, teria de haver punições severas. Mas nada de cortar envio de armas, outras sanções seriam mais adequadas.

Finalmente, no programa 60 minutos, o presidente, pressionado pelos fatos, acabou reconhecido que o rei Saud e seu dileto herdeiro bem que poderiam ser os autores da barbaridade.

Mas é de se duvidar que The Donald ache mesmo que irá sancionar seus bons aliados e ainda melhores clientes da Arábia Saudita.

Business as usual?

O governo da monarquia é um dos seus dois maiores aliados (o outro é Israel) na cruzada contra o diabólico Irã. Particularmente importante porque dá as cartas também na União dos Emirados do Golfo, no Bahrein e no Kuwait, sem contar numa série de repúblicas africanas, cujos presidentes dependem dos financiamentos sauditas para se manterem no poder. O interesse econômico também fala bem alto.

Os sauditas garantem aos EUA todo o petróleo que desejarem e o necessário para não deixar na mão os países que pararem de importar petróleo iraniano, em obediência ao diktat da Casa Branca.

Além disso, são esses monarcas amigos os maiores importadores de armas dos EUA. Já contrataram uma compra de 110 bilhões de dólares. E prometem seguir nessa toada pelos anos afora.

Por sua vez, os empresários de armas dos EUA precisam continuar surfando nessa onda de lucros, proporcionados pelos negócios com o trono saudita. Eles não podem passar sem refeições diárias regadas a Romanée Conti La Tache 1990. Seria injusto.

The Donald tem esses nobres na mais alta conta, eles estão entre os mais generosos doadores de suas campanhas políticas.

No mesmo dia em que Trump dizia que os sauditas poderiam sofrer sanções, o diretor do jornal Al Arabya (ligado ao reino), fez relações assustadoras, mostrando que a reação de Riad poderia ser muito mais explosiva do que se imaginava.

Depois de afirmar que lera as 30 ideias que Salman e Bin Salman estudavam aplicar contra possíveis retaliações norte-americanas, ele trovejou: “se os EUA impuserem sanções sobre a Arábia Saudita, nós estaremos diante de desastre econômico que abalaria o mundo inteiro”.

E deu alguns exemplos. A compra de 110 bilhões de dólares em armas dos EUA seria transferida para a Rússia. As empresas norte-americanas de armas iriam chorar a perda do mercado saudita e seus lucros das mil e uma noites.

Mas isso é a menor ameaça que The Donald deve temer. Como a Arábia Saudita tem forte influência sobre o mercado internacional do petróleo, será fácil provocar o aumento do preço dos atuais 80 dólares, que o morador da Casa Branca já acha excessivo, para 100, 200, até mesmo dobrar.

De castigo, às vendas à China, um dos maiores consumidores mundiais do ouro negro, seria em yuans, sabotando o status do dólar como a moeda internacional de reserva.

E a realeza vai além. Admite como possível ceder uma base militar para os russos em território saudita, aproximar-se do Irã e transformar em aliados os hoje inimigos Hizbollah e Hamas.

E agora, Donald?

Se der uma de John Wayne, alvejando os interesses sauditas, jogará seus aliados nos braços “malignos” da Rússia e perderá um aliado indispensável contra o Irã, assumindo um amor hoje impossível com os aiatolás. Sem falar no possível afastamento das empresas de armas e seus preciosos dólares do comitê de arrecadação de fundos das campanhas do presidente.

Talvez mais importante. O que seria da economia estadunidense face uma escalada brutal dos preços do petróleo graças aos bons ofícios do rei Salman e herdeiro (quanto ao resto do mundo, Trump não deve se importar, America first)?

A economia em crescimento, a queda no desemprego, a Bolsa voando nas alturas... Tudo isso daria marcha à ré, levando consigo as chances de Trump continuar gozando as delícias da presidência no sonhado segundo mandato.

Ao mesmo tempo, igualar-se aos “fundadores da pátria”, Jefferson, Hamilton e Washington, para, em nome da Declaração dos Direitos, sancionar os importantes aliados sauditas, seria saudado pela imprensa como um lance justo e corajoso.

Certamente o elevaria vertiginosamente nas pesquisas de intenção de voto na próxima eleição presidencial. E bloquearia a caminhada dos democratas Bernie Sanders e Elizabeth Sanders em direção à Casa Branca.

Ficar em cima do muro, com uma saída marota, só seria aceitável por quem acredita em Papai Noel.

Possivelmente, Donald Trump está pensando em algo assim. Mesmo porque, não deve ser desprezível o número de norte-americanos que esperam o bom velhinho no Natal.

Talvez um bode expiatório, que resolveu praticar o crime sem conhecimento da família real.

Ou foram consequências lamentáveis do fervente entusiasmo dos 15 agentes enviados para tão somente interrogarem o jornalista.

Uma maquiavélica conspiração russa é outra hipótese viável, igualmente bizarra.

Deixar o tempo passar, enquanto as investigações prosseguem até que o assassinato comece a ser esquecido, parece ser algo mais lógico.

Claro, ajudaria, se The Donald também censurasse (polidamente) a monarquia, tentando satisfazer o público com sanções como taxar as viagens de turistas judeus a Meca, proibir as mulheres norte-americanas de usarem burca ou cortar as exportações de Bourbon para a Arábia Saudita.

Se for por aí, o morador da Casa Branca terá de combinar com o pai e o herdeiro para se evitarem problemas da suscetibilidade real. Sancionar ou não sancionar, eis questão.

Seja qual for a decisão, qualquer uma é muito perigosa. Se você conhece uma receita para dormir, mande para a Casa Branca.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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