A encruzilhada

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Resultado de imagem para segundo turno 2018
Nos últimos anos o país caminha para a lógica de situações extremas e, embora na lentidão típica de nosso processo político, o drama se desenvolve de maneira quase imperceptível. Ainda assim, vez por outra, o espanto balança o espírito do eleitor progressista e o desespero emerge. Nesta semana, as pesquisas eleitorais produziram em muita gente boa o espanto e a angústia, pois o processo eleitoral finalmente ficou dividido entre Bolsonaro e os demais. Bolsonaro disparou.

No entanto, para além das pesquisas, há sinais mais importantes que indicam a rápida adesão de todas as frações do capital ao office boy dos Estados Unidos. As igrejas evangélicas fecham com o deputado. Amplos setores das classes médias e também no proletariado aderem sem vacilação ao protofascista.

As jornadas de junho de 2013 (ainda hoje consideradas pelo petismo como ação da direita!) e a destituição de Dilma foram eventos eloquentes a respeito da lógica das situações extremas, mas a narrativa do liberalismo de esquerda venceu e impediu avaliação lúcida. A vitimização típica do discurso petista capturou a consciência nos limites da ingenuidade e impediu a percepção de que algo mais profundo estava mudando rapidamente. O sistema petucano apodrecia, mas a narrativa petista "contra o golpe" chamou para si a representação do sistema e o tucanato na oposição até fortalecia o sentimento antipetista como se, de fato, este fosse o epicentro da crise. Não era, como alertamos muitas e repetidas vezes.

No entanto, a guerra de classes - aquela mesma que na luta pela terra mata dezenas de sindicalistas todos os anos no campo - tinha sido declarada de maneira aberta. O ajuste de Dilma foi a maior evidência nesta direção, mas o liberalismo de esquerda não podia admitir que as medidas impostas por seu governo eram consequência necessária da dinâmica da acumulação de capital inerente ao rentismo dominante que, com incorrigível oportunismo, o PT pretendia governar de maneira mais competente que os tucanos.

A narrativa do "golpe" construiu um mundo imaginário, aparentemente confortável para a paralisia das classes subalternas, mas não para as classes dominantes. A denúncia do golpe exauriu-se no processo eleitoral porque ninguém - rigorosamente ninguém! - defendeu o governo de Temer. A crise social é o fato mais importante do processo eleitoral e não o governo Temer.

A propósito, a "denúncia" do golpe era, na prática, um meio para evitar a avaliação crítica e a condenação sem cerimônia do governo petista dirigido por Dilma. Enfim, o bordão "fora Temer" e a condenação ao "golpe" não rende no terreno eleitoral e menos ainda na construção de uma alternativa à miséria petucana.

O diagnóstico da crise nem passa na cabeça dos poucos estrategistas pensantes do PT e seus satélites. À esquerda do petismo decadente, tampouco há consciência plena do solo em que pisamos. Ignora-se e despreza-se a análise séria sobre o capitalismo dependente em sua fase rentística. Assim é impossível perceber a profundidade da crise e suas graves consequências para a classe trabalhadora e o futuro da nação.

O tempo, agora, se acelera. O profeta petista mais popular julga que com a "razão e o amor" se poderá enfrentar a ameaça daquilo que chamam fascismo. As esperanças de reconstituir parte do paraíso perdido com a eventual eleição de Haddad também está sob suspeita, até mesmo para os mais entusiasmados. As lágrimas do profeta petista que "teoriza" sobre a ralé denunciam a angústia na alma e a impotência do acadêmico engajado.

Por que Bolsonaro deve vencer?

Por que as forças fascistas são maioria na sociedade brasileira? Não, mil vezes não!

Há razão mais elementar para o crescente apoio eleitoral (e político) a Bolsonaro: o povo está cada dia mais irado contra o sistema que nos domina e o processo eleitoral não foi capaz de produzir a politização necessária para reverter o avanço do ultraliberalismo e, de fato, nem poderia. Não basta declarar que o "sistema faliu" tal como sentencia o bom mocismo no interior da esquerda. Era preciso dizer claramente que FHC e Lula, o sistema petucano, seus políticos e empresários, são responsáveis diretos pela crise e devem ser tratados como tal.

A necessidade de um novo radicalismo político que alguns de nós defendemos no PSOL durante meses não foi acatada. Venceu a ideia de que deveríamos "dialogar com a base do petismo" no suposto de que poderíamos tirar nossa lasquinha do espólio lulista elegendo alguns deputados e eventualmente até mesmo senadores. No entanto, a narrativa do golpe fortaleceu as filas petistas e ocorreu inclusive sua recomposição eleitoral e parlamentar.

Bueno, enquanto os partidos de esquerda evitavam a crítica a Lula e ao sistema em seu conjunto, deixamos o monopólio da crítica para a direita.

E a direita avançou eleitoral e... Socialmente.

Há, portanto, algo mais grave do que o crescente apoio eleitoral a Bolsonaro. Milhões de proletários, trabalhadores, pequenos comerciantes e autônomos são agora, no momento em que termina a campanha presidencial do primeiro turno, cativos do discurso do deputado que lidera as pesquisas. Bolsonaro avança porque ataca o sistema em seu ponto mais sensível: a corrupção. E o sistema é, de fato, corrupto.

Bolsonaro ataca o Estado e a deficiência crônica dos serviços públicos e, de fato, tal fenômeno é real. Bolsonaro atua no fortalecimento da alienação e da consciência ingênua e não encontra antídoto em nossa trincheira de luta, pois basicamente as forças progressistas obedecem ao espírito de Poliana, buscando o lado positivo em tudo... Assim, lentamente, Bolsonaro construiu um cenário favorável: quem está contra o sistema é bom; quem está a favor do sistema é mau.

A eterna luta entre o bem e o mal

O desespero do militante sindical, do petista sincero que arregaçou as mangas e foi disputar o voto na rua, de setores das classes médias com inclinação e/ou sentimento de "esquerda", aumenta. Um pressentimento lhe diz que algo saiu errado. É possível afirmar que seu pressentimento está correto, pois algo grave está sob a mesa.  

Amplos setores sociais identificados com Bolsonaro julgam que o deputado protofascista a serviço do ultraliberalismo estadunidense é uma candidatura contra o petucanismo; neste contexto, pouco importa se você e eu sabemos que, ao contrário, ele é o produto mais acabado da podridão sistêmica. Ocorre que ele avança solitário na crítica ao sistema de partidos e não somente despreza como detesta o bom mocismo na política.

Ademais, Bolsonaro tem a seu favor a virtual extinção de uma geração de políticos: FHC, Lula, Serra, José Aníbal, Zé Dirceu, Aécio, Garotinho, Cabral, Richa etc. São distintos, pertencem a bandos diferentes, mas todos estão a serviço da classe dominante e, em larga medida, abatidos eleitoralmente.

No coração do povo existe uma ira justificada. A miséria e a exploração crônica foram "enfrentadas" com a digestão moral da pobreza dos governos petistas, incapazes de atacar o problema pela raiz. Gastou-se tempo e energia naquele projeto infame, orientado por boas intenções e condições econômicas passageiras muito particulares que jamais voltarão.

Nestas semanas, os apelos contra o voto orientado pela raiva e a política de ódio, simplesmente, não possuem força popular, pois o abismo social produz justificada ira e ressentimento contra tudo e todos. A ordem dominante não aparece como domínio de classe, mas tão somente como ressentimento contra os políticos mais conhecidos. Alckmin despencou. Ciro estancaou. Marina merecidamente desapareceu... Bolsonaro voou.

A classe dominante, os tribunais e a renúncia do ex-presidente à resistência democrática diante da prisão arbitrária impediram a candidatura de Lula; Haddad herdou algo relevante em termos eleitorais, sem dúvida. No entanto, a cada dia esta herança se revela mais débil diante da ofensiva do deputado protofascista.

Ademais, Haddad agora se encontra em situação incômoda: reivindica uma frente de todos aqueles que "prezam a democracia e a justiça social" contra Bolsonaro. Neste contexto, estará rodeado de políticos da ordem, até ontem considerados luminares da República. Haddad será um defensor da ordem contra o sujeito que ataca a ordem. O bem contra o mal. O cenário ideal pra disputa de segundo turno na estratégia do deputado do "baixo clero".

O ativista desesperado observa que não podem existir dúvidas entre Haddad e Bolsonaro. Grita com energia e redobrada esperança: "todos contra Bolsonaro, podemos vencer"! Mas na consciência popular o ódio de classe contra o sistema cresceu a cada dia e ainda mais durante o período eleitoral. A campanha do primeiro turno que terminou na quinta-feira com um debate na Globo (onde mais?), foi incapaz de reverter esta tendência, exceto se alguém acredita num golpe de sorte televisivo.

Bolsonaro se encontra em situação tão confortável que pode, por isso mesmo, dispensar o palco para seus adversários. A ausência do deputado vítima da violência pode revelar o quanto ele despreza o sistema político e sua liturgia desgastada e simuladora. Você realmente acredita que alguém definiu seu voto a partir de algum "debate" de TV? A disputa eleitoral ganhou nova dinâmica e a pífia audiência dos debates está demonstrando que os velhos mecanismos marqueteiros não mais movem moinhos. É boa notícia, sem dúvida.

A campanha televisiva foi rápida, mas mesmo que tivesse sido longa seria incapaz de traduzir o desespero de milhões. A dor e o desespero de milhões foi instrumentalizada em favor do ultraliberalismo que avançou como nunca no país. O ultraliberalismo é a ideologia dominante e, como a vida demonstra, não admite uma ala esquerda em sua trajetória. O ultraliberalismo eliminou pela raiz o antigo liberalismo, dividido entre uma ala direita (tucana) e outra de esquerda (petista). O petucanismo, como afirmei no artigo anterior, naufragou para sempre! O ultraliberalismo roubou a cena e chegou para ficar.

A estratégia de Bolsonaro consiste em potencializar o antipetismo somente na aparência. O alvo é o sistema e não o PT. O antigo hábito de conciliar interesses sem a participação ativa do povo agora conta com o sentimento popular em favor do programa ultraliberal... Um acerto de contas tão inusitado quanto bom para o rentismo!

No entanto, a operação anti-PT é funcional porque obriga Haddad à defesa da ordem, da democracia em abstrato, das regras da civilidade, com seus políticos venais, enquanto para Bolsonaro basta simular sua candidatura como a única alternativa real de "quebrar o sistema" e eliminar seus políticos corruptos. Eis aqui a natureza oculta do antipetismo denunciado por Alckmin, Marina e utilizado por Bolsonaro. Haddad está condenado à defesa da "democracia contra o autoritarismo", contra a "ameaça fascista", o velho e surrado bordão da impotente sociologia uspiana.

Neste contexto, o essencial não é votar em Haddad para evitar Bolsonaro. Essa é a visão superficial, meramente eleitoral do conflito político. A luta de classes em curso indica outra dinâmica: um candidato - Bolsonaro - se apresenta cada dia mais como antissistema e sua posição será ainda mais confortável no segundo turno. O outro, Haddad, o bom moço da USP e do Insper (!!!), aparece como parte constitutiva do sistema, uma tentativa de modernizar o velho, de reciclar a mensagem desgastada. É assim que o povo vê e, de fato, é assim que a vida é. A banda agora toca no ritmo idealizado pelo deputado protofascista.

Tudo indica que Haddad defenderá o sistema enquanto Bolsonaro atacará o sistema. O sistema é uma podridão imensa e a vala comum dos condenados da terra somente aumenta no seu interior. Aqueles que estão com o sistema serão considerados maus; aquele que critica e promete "quebrar" o sistema, será considerado bom. Logo, Haddad é expressão do mal e Bolsonaro... Ungido a posição do... Bem!

As ideologias não podem brigar contra os fatos para sempre, por isso mesmo, desabam. O eclipse do bom mocismo esta diante de nós; emerge o ultraliberalismo e seu encanto sedutor. No entanto, tal como alertou um notável personagem de Shakespeare, as ideias ruins somente se revelam totalmente ruins quando levadas à prática. É preciso pensar o pós-eleitoral já e fomentar o radicalismo de esquerda que enfrente sem ponderações a onda ultraliberal e seu enorme potencial destrutivo, sem as ilusões da esquerda moderna incapaz de tocar nas questões realmente relevantes da economia, da política e da cultura nacional.  

Enquanto o novo radicalismo de esquerda não vem, a angústia do militante preocupado parece não ter fim, pois a cada nova manhã uma notícia pior para seu cálculo eleitoral emerge das pesquisas e é ser confirmada nas ruas.

Na mais completa ausência de Lenin, sobraram Jessé e Boaventura. A luta política será sempre por questões concretas e não imaginárias. É neste vácuo que Bolsonaro e Mourão ainda navegam.

A História, sabemos, não tem fim. Este capítulo, tudo indica, está concluído. Voltemos nossos olhos, nossa atenção e nosso esforço militante para as próximas batalhas. Não há razão para supor que estamos condenados às ilusões que produziram a marginalidade da esquerda no processo eleitoral e no terreno mais profundo da política.

Sem as ilusões que nos angustiam, marcharemos melhor. Sem elas, podemos ter algum futuro.


Nildo Ouriques é economista e professor da UFSC, onde é colaborador do Instituto de Estudos Latino-Americanos.

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