O rito civilizatório versus o mito da decadência

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“Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.”

(CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, Poema Além
Da Terra, Além do Céu, Nova Cultural, 1988, p. 153)

1. O MITO DA DECADÊNCIA
Das estações sombrias
Nasce o mito tirânico
Assombroso e bárbaro;
É a mitologia da decadência
Negando o processo
Civilizatório e a vida.
Alguns reluzem
À noite
Como se fossem
Mitos,
Mas ao nascer
Do sol
Já sugaram
O futuro
E secaram a vida.

Há muitos
Que ainda acreditam
No mito da decadência
Porque já tinham
Deixado de sonhar!
Já se sabia de tudo,
Mas nem todos
Acreditavam;
Só aos poucos
O mito tirânico
Vai revelando
Quão assombroso
E bárbaro pode ser
Para qualquer
nação!

O mito tirânico
E bárbaro só existe
Porque alguém
Acredita nele;
Sua existência
Depende da crença
Que os outros
Depositam nele!

Cria formas
Metamorfoses,
Elo que cria
O indigesto,
A indigestão
Desidratada,
A fome
Sem comida
Digerida,
A peste sem
Vacina aplicada,
Os mortos sem
Sepultamento,
A dor sem
Cura,
A morte
Sem vida!

O mito da decadência
Assombra
O corpo,
Assombra
A mão,
Assombra
A consciência,
Assombra
A dignidade,
Assombra
A liberdade,
Assombra
A fraternidade,
Assombra
A igualdade,
Assombra
A civilização,
Assombra
A nação,
Assombra
A humanidade!

Em resposta
À decadência
Civilizatória é
Necessário munir-se do
Verbo amar,
Princípio
Do existir e
Rito humanitário,
Antídoto do ódio,
Alimento à vida
E à civilização!

2. OS ALGOZES FESTEJAVAM

Os algozes festejavam
Sem muito saber
Porque comemoravam;
Muitos riam como se
Estivessem num teatro,
Mas o palco estava vazio
E as cadeiras da plateia
Não existiam mais.
Mas eles continuavam
Sorridentes e festejavam
Sem pressa
E quando a aurora
Chegou
Já não havia mais flores...
Crianças choravam
Porque não sabiam
Onde estavam
Seus pais.

Os algozes continuavam
Sorridentes e festejavam;
Já as crianças continuavam
Chorando aos prantos;
Enquanto isso
Passava o funeral
Que levava aqueles
Por quem elas choravam.
Mesmo assim, os algozes
Continuavam sorridentes
E festejavam
Como se lhes dessem
Poderes eternos
Ou imortais.
Não conseguiam
Parar de sorrir e festejar;
Só não sabiam
Como fazer
Para eternamente
Sorrir e festejar,
Pois tinham medo de
Passarem pelas crianças
E perceberem
Que eram feitos
Da mesma matéria
Daqueles que choravam!

3. O REFÚGIO MUNDANO AMEAÇADO

Meu refúgio
Não pode ser
Onde me escondo;
Se, pois, me escondo,
Já não me refugio,
Mais me exilo de mim
Mesmo e dos outros;
Não me refugio
Nem sou refugiado,
Sou simplesmente
Um ser ameaçado!

Por que devo
Me exilar do meu
Próprio refúgio
Se meu lugar
No mundo só
Pode ser ocupado
Por mim mesmo?...

O que é a ditadura
E seus derivativos
Senão a negação
Do outro e o fim
Do refúgio humano
Como o lugar
Em que cada um
Vive refugiado
Como um ser
Humano?

A humanidade
Deve ser
O nosso
Único refúgio
Habitável
E a pátria
Universal,
Onde amar
E viver
Não deveria
Causar medo
Nem alimentar
O ódio,
Pois o verbo amar
Nasce no princípio
Do existir!

4. A RAÇA HUMANA

(A Luigi Luca Cavalli Sforza)

Das raças
Somo todos
Uma parte só,
Na constituição
Das raças
Somos uma
Raça só,
A raça humana!

Na genética
Da raça,
O primeiro gene
E o último gene
Iniciam e terminam
No mesmo ponto
Da gênesis humana,
A de que a raça humana
É esteticamente diversificada
Na cor, no sexo, nos traços,
Nas origens sociais
E ambientais,
Mas ao final,
No ponto de partida
E de chegada somos
Todos iguais,
E no trajeto da caminhada
Somos uma raça só,
A raça humana.
Por que querer
Ser mais
Que isso?
Querer negar
Que nossa
Evolução
Genética
É ser uma só
Raça humana
É o mesmo
Que não acreditar
Que somos todos
A raiz história
Humana!

Não há poder
Não há dinheiro
Não há ciência
Que possa
Criar outra
Raça humana.
Quando a humanidade
Nega a própria
Raça que é,
A raça humana,
Fica perversa e destrutiva
Da própria
Raça humana!
Pois não há como
Contrapor raças
Quando existe
Uma única raça,
A raça humana,
E no gene
Da alma
O código
Genético mais
Importante
Sempre será
O do Amar!

5. POR QUÊ?...

Por que
Nos sentimos
Às vezes
Tão pequenos
Como que
Carregando
Uma montanha?..

Só uma
Alma
De sonhos
Não sucumbe
A escalada
Da montanha,
Porque nas costas
A alma carrega
Uma montanha
De esperança
E resistência!

6. CAOS

Não há caos
Que não tenha
Um tanto
Da mão humana
Cindida pelo ódio
Talhando a desgraça
Na feição do outro
E esparramando
As cinzas do amor
Na cova da decadência!

7. UM MUNDO 100% DOS SERES HUMANOS

(A David Harvey)


Na totalidade do mundo
Somos todos cem por cento
Seres humanos,
Mas na divisão das classes
Há um por cento que detém
O que os outros noventa e nove
Por cento não tem!
Parece que estamos precisando
De um mundo sem classes
E que nenhum por cento fique de fora!

Num mundo:
Que ninguém viva
Desolado e só;
Que ninguém viva
Na miséria e só;
Que ninguém viva
Mutilado e só;
Que ninguém viva
Sem dignidade e só;
Que ninguém viva
Sem esperança e só;
Que ninguém viva
Sem o outro e só;
Que ninguém viva
Sem sonho e só;
Que ninguém viva
E sonhe só!


8. O BECO DOS SONHOS


Ando
Já no entardecer
Da noite
Perguntando por
Onde andam aqueles
Que ajudavam
Carregar os sonhos
Madrugadas afora
E agora
Já não os vejo mais
Tão entusiasmados,
Como antes,
Mas mais esterilizados
E amedrontados pelo medo,
Um tanto distantes e tristes.

Buscamos esconderijos
Seguros, mas esquecemos,
Como sempre,
Que os gaviões nos espiam
Para o melhor momento
Do ataque fulminante!

Infelizmente, como de costume,
Os gaviões não se preocupam e
Nem consideram
Se sonhamos ou
O que sonhamos,
Ou se ainda sonhamos;
Ou são nossos
Sonhos que vigiam?...
Apenas apreciam
A caça vigiada,
Antes que o sonho
Se realize,
Prontos para o abate!

O beco continua lá...
Já nossos sonhos
Não podemos
Encarregar os gaviões
Para cuidar deles!
O sonho pode ser vigiado,
Mas o segredo
Do sonho
Está na alma
Que o
Carrega
Para o futuro!

Roberto Antonio Deitos é poeta e professor da Unioeste.

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