Gershon Knispel, artista e socialista, morre aos 86 anos em Israel

0
0
0
s2sdefault


O artista Gershon Knispel concede entrevista em seu ateliê, em São Paulo / Foto: Reprodução Youtube/TVPUC
 
O artista plástico e militante comunista Gershon Knispel, um dos maiores representantes do mundo do Realismo Socialista nas artes plásticas, faleceu na madrugada do último dia 7 de setembro, em Israel, aos 86 anos de vida. O artista nasceu na Alemanha e dividiu sua vida entre Israel, Palestina e Brasil, onde veio viver pela primeira vez em 1957, após vencer um concurso que decidiu o design da antena da emissora de TV Tupi – sua proposta foi adorná-la com padrões indígenas pré-coloniais.

Aqui, conheceu o arquiteto Oscar Niemayer, com quem desenvolveu uma longa amizade e parceria profissional. Knispel se envolveu profundamente no meio artístico brasileiro e criou esculturas e murais em áreas públicas em diversas cidades. Em 1964, após o golpe militar, Knispel, correndo perigo de vida, fugiu do país e retornou a Haifa.

Além de desenhos e pinturas, criou esculturas e baixo relevos em áreas públicas que estão espalhadas por toda cidade de Haifa. Lá, ele ensinou arte no acampamento de emigrantes de Shahar Halya e nas escolas públicas das cidades de Ata e Nesher, além de ter sido nomeado diretor do departamento de Arte.

Os resultados dos trabalhos desses anos apresentam figuras de operários, desempregados e emigrantes. Mostram cenas do mundo do trabalho e das manifestações políticas. Ele retratou judeus e árabes, ocidentais e orientais em pinturas marcadas pelo materialismo e as cores intensas.

Knispel voltou a São Paulo em 1995 e, desde então, alternava temporadas no Brasil e em Israel e na Palestina.

Confira, abaixo, entrevista concedida por Knispel ao Brasil de Fato, realizada em comemoração aos 82 anos do artista, e que fala sobre o conflito entre Israel e Palestina, sua trajetória de vida e ideologia, os tempos no Brasil e muito mais.
 
Brasil de Fato – Para começar, conte um pouco como foi sua infância.
 
Gershon Knispel – Nasci em um dia “significante”: 11 de setembro de 1932, na cidade de Colônia, na Alemanha. Um ano depois em 1933, o nazismo ascendia com a nomeação de Hitler como chanceler do país.
 
Isso fez com que sua família saísse da Alemanha?
 
Meu pai foi perseguido desde o início, por motivos profissionais. Ainda em 1934 ele já estava determinado a ir para Palestina. Ele era membro do movimento sionista, que pregou essa ideia de manter um outro lugar, dominado pelos judeus, para não haver mais perseguição.

Fomos para a cidade de Haifa. Chegamos no único porto que havia em Israel Um porto, aliás, construído pelos britânicos. Digo isso de propósito, porque no passado os colonialistas ainda faziam algo pelos países que dominavam. Nós também estamos fazendo algo no país que a gente ocupa: derrubando árvores, bombardeando as casas, não deixando vestígios, “comendo” a terra.

Como eram as relações com os palestinos nesse momento?
 
Meus pais chegaram sem dinheiro, que havia sido confiscado pelos alemães. Eles só podiam alugar um apartamento na região mais barata, mais perto de onde viviam os árabes, no bairro vizinho. Um bairro formidável. Havia vilarejos bem cuidados. Portas grandes e abertas, e eles me recebiam como uma criança do povo deles. Eu me senti lá no paraíso. Eles me ofereciam comida. Eu até aprendi um pouco da língua árabe antes de aprender o hebraico.

Foram meus primeiros amigos. Sabe onde eles estão agora? Em Gaza. Eu chorei vendo os bombardeios. Eu não sei o que está acontecendo com eles. Cada bomba que cai em Gaza me deixa mais louco. Não são apenas meus amigos, são famílias inteiras.

Hoje, qual sua avaliação desses momentos iniciais?
 
Para fazer o diagnóstico de uma doença, tem que ir às raízes. Os judeus compraram terras de grandes proprietários árabes, a primeira coisa que fizeram foi uma torre para caixa d’agua, que na verdade, servia como torre de vigilância, cercando-se por um muro.

Era uma situação paradoxal, de um lado, igualdade social entre os judeus, você não era dono nem das próprias roupas, não havia salário, todos comiam juntos, era o ideal dos kibutzim, unidades agrícolas coletivas, mas os falahim, os camponeses árabes ficaram de fora, e se viram de uma hora para outra sem trabalho.

Como foi a luta pela formação do Estado de Israel?
 
A geração de 1948, que fundou esse diabo, achava que estava combatendo o imperialismo. Nós tínhamos a noção de que nós éramos os combatentes contra o colonialismo no Oriente Médio. Israel foi fundada com o objetivo de ser o primeiro Estado contra o colonialismo e o imperialismo. O mundo ocidental embargou Israel, não tínhamos armas. A União Soviética chegou com a ideia de dividir a Palestina em duas partes, e deu armas para nós via Tchecoslováquia.

E quando isso mudou?
 
Começou em 1956, quando fomos convocados de novo. Diziam que era um ataque de Nasser, presidente do Egito. Mas, anteriormente, os EUA haviam feito de tudo para nos convencer a não se aliar ao Nasser, fundador do terceiro-mundismo. Nosso ataque chegou até o canal de Suez. Lá, vimos soldados franceses e ingleses. Eu pensei: “meu Deus, fizemos uma operação junto com eles? Estamos devolvendo o Oriente Médio para o colonialismo?” Fizemos o jogo imperialista.

Nesse conflito, quando tomamos o Sinai, liquidamos as tropas egípcias, só depois percebemos que eles estavam preparados para defesa, não para o ataque. A razão para o ataque foi uma mentira.

Foi então que você começou a se preocupar com política?
 
Não. Foi antes. Quando meu pai, sem dinheiro nenhum, chegou à conclusão de que faltavam carrinhos de bebês em Haifa, ele criou uma indústria e uma loja na cidade. Ele chegou a empregar três operários. Com dez anos, eu já o chamava de “capitalista”, dizendo que ele explorava-os.

Em casa ficou uma atmosfera pesada. Eu gostava, ainda gosto, de provocar. Nunca ando na rota que os outros querem. Aquele não era meu destino. Então, com 12 anos, fui morar em um kibutz. Ele era ligado ao grupo mais à esquerda dentro da ideologia sionista. Tínhamos referência na batalha de Stalingrado [ocorrida durante a Segunda Guerra]. Quem havia conseguido parar o demônio fascista e nazista na Europa? A União Soviética.

E o envolvimento com as artes?
 
Eu tinha um professor de desenho no kibutz. Ele conseguiu me ensinar coisas que eu jamais imaginei que pudesse ser capaz de fazer.

Com 14 anos eu cheguei à conclusão de que meu destino era ser artista. Foi quando eu conheci a Guernica de Picasso. Eu fiquei louco. “Esse é um artista engajado, faz coisas para mostrar o mundo, a falta de igualdade, a brutalidade, quero ser como ele”.

Para entrar na academia, era necessário terminar o ginásio. O kibutz não queria perder seus “filhos”. Assim, poucos cursavam universidade, já que havia o risco de não voltar. A saída tinha quer ser aprovada pela assembleia geral da comunidade. Com 16 anos, eu percebi que não entraria na academia se não saísse do kibutz.

No fim de 1949 eu entrei na academia em Jerusalém. Depois de um ano eu decidi ir para o serviço militar, preferi cumprir essa obrigação antes de completar a universidade.

Quando terminei voltei à escola, depois de dois anos recebi meu diploma, em 1954. Me ofereceram a chance de continuar como professor, mas eu não quis. Quis servir ao povo e voltei para Haifa.

O que você fazia lá?
 
Fui professor em campos de refugiados que chegavam da Europa, que estavam para uma situação péssima, o que me abriu os olhos para o que foi o Holocausto, e também nas escolas primárias para os filhos de operários. Em paralelo eu recebi do Exército um andar inteiro de uma casa abandona, para criar um ateliê, e lá eu dava aula para soldados com talentos artísticos.

Lá havia uma agência para auxiliar desempregados a encontrar trabalho. Eu pagava eles para servirem como modelos. Isso de 1954 até 56. Eu retratei essa situação em uma obra que iria para a Bienal de Moscou em 1957. Mas ela desapareceu em Viena, não chegou. Ela foi mostrada em várias cidades de Israel, e foi um escândalo. Diziam que eu pintava os judeus sem emprego, me acusando de que eu queria desestimular os judeus na União Soviética a virem para Israel.

Foi nesse período que, em uma visita à Nazaré, encontrei alguns beduínos que eram vizinhos do meu kibutz. Eles estavam abandonados pelo governo israelense. Foi então que eu rompi com o antigo movimento do qual que fazia parte e que estava no governo e entrei no Partido Comunista.

Foi aí também que você sai de Israel pela primeira vez?
 
Um dos museus da União Soviética comprou todas as minhas obras. Eu saí de Israel, pretendia voltar, mas acabei não voltando. Fui fazer uma viagem de estudos. Fui convidado a dar aulas na Alemanha Oriental. Depois fui para Munique.

Houve um concurso internacional para fazer a fachada do prédio da emissora do Assis Chateaubriand. Eu enviei um projeto e ganhei. Em 1958, vim de navio ao Brasil. Foi quando conheci uma pessoa, baixinha, bigode, olhos profundos, meio careca: era o Oscar Niemeyer. Uma amizade que durou até o dia que ele faleceu.
Fizemos muitos trabalhos juntos.

O que achava do Brasil naquele momento?
 
Eu encontrei um país muito dividido, cheio de favelas, mas em pleno entusiasmo para fazer reformas. Che e Fidel haviam acabado de entrar em Havana, foi o que abriu as possibilidades. Logo fiz contato com Juca de Oliveira, Guarnieri. Ajudei a funda o Centro Popular de Cultura.

No dia 31, chegou um telefone dos Prestes avisando que iria ter um golpe militar. Fui pra Santo Amaro, onde ficava meu ateliê, queimei cartazes em um forno. Fugi e consegui chegar até o consulado de Israel no Rio de Janeiro.

Depois, houve a volta a Israel?
 
Trabalhei 22 anos como professor em Haifa. Fiz tudo possível para fazer projetos artísticos junto com palestinos. Fizemos uma exposição que foi um escândalo internacional, a primeira vez que pintores israelenses exibiram junto com Palestinos.

Fiz protestos em uma galeria contra a política do governo. Em 1995, depois de uma exposição sobre o Holocausto em Israel, fui convidado para trazê-la para o Brasil. É uma posição permanente no Palácio de Governo.

Qual o empecilho para a paz entre judeus e palestinos?
 
Como começou essa situação que nos leva ao inferno? Em minha opinião, mas não só a minha, Israel se suicidou em 1967. Virou um país ocupante. Plantamos cidades, indústrias, kibutzim. Se você quer paz, tire as colônias. Mas é muito difícil. Foi um erro a colonização das terras ocupadas, contra as leis internacionais, contra decisões da ONU. O território palestino virou um queijo suíço.

O que estamos fazendo agora? Destruindo, pegando mais terras, fazendo mais cidades. Estou ficando louco. Abro os jornais e vejo a catástrofe que estão fazendo em Gaza. Cada bomba que cai em Gaza me deixa mais louco.

Mas há esperança para o povo palestino?
 
Eles lutam como em Stalingrado, sem armas, contra uma enorme potência. Eles vão vencer. Se necessário, farão uma cidade inteira embaixo da cidade. Vão se enterrar vivos para ficar lá. Qual a vantagem política que Israel tira disso? Nenhuma. Mais uma guerra e estamos acabados. É necessário que surjam lideranças fortes que convençam ambos os povos da necessidade da paz.

Edição: Diego Sartorato. Link original.

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados