Estados Unidos e Brasil: fechamento de ano apreensivo

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2013 não foi um ano bom no relacionamento cotidiano entre Estados Unidos e Brasil: a revelação da espionagem rotineira da Casa Branca, embora de alcance planetário, abalou o Planalto, ao menos em público.

No entanto, isso não foi suficiente para encorajar o governo trabalhista a conceder asilo político a Edward Snowden, malgrado a importância dos dados divulgados por ele sob risco pessoal e da inexpressividade demonstrada por Washington quanto a mero pedido de desculpas a Brasília, postura bastante diferente concernente a Berlim.

Conceder ao norte-americano acolhida definitiva era externada por uns como medida desnecessária por ser provocação aos Estados Unidos e por não desfrutar o Brasil de peso para aproveitar informações sigilosas de outrem. Contudo, poderia soar como amedrontamento também, ao não desejar aborrecer a potência nortista.    

Não restou opção ao Planalto a não ser de demonstrar seu desagrado, ao ter por símbolo o cancelamento da viagem da presidente Dilma Rousseff à Casa Branca. Havia expectativa positiva quanto à visita futura, vez que a de 2012 não havia sido proveitosa, se considerada a pouca atenção dos meios de comunicação locais à comitiva pátria.    

Em setembro de 2013, a dirigente havia-se queixado do comportamento norte-americano no proscênio da Organização das Nações Unidas durante a abertura da assembleia geral. Conquanto inócuo, o lamento repercutiria bem no país. Na prática, com as denúncias públicas da bisbilhotice externa, Brasília obteria maior prazo para refletir sobre a necessária e bem-vinda aquisição dos jatos.  

Por outro lado, aguardava o Planalto aceno amigo da Casa Branca. Poderia ser, por exemplo, relativo à redução da burocracia para a emissão de vistos, dado o número de viajantes brasileiros para o território norte-americano.

Nesse sentido, eles eram considerados excelentes consumidores, com compras com valor médio acima das dos europeus ocidentais, japoneses e chineses. Estimava-se o país entre os cinco de melhor poder aquisitivo - o consulado de São Paulo seria um dos maiores emissores de endossos da chancelaria estadunidense.

A despeito da quantidade de interessados em deslocar-se aos Estados Unidos, o Brasil não conseguia compor o programa Global Entry, iniciativa governamental norte-americana com a finalidade de facilitar o ingresso lá de turistas, empresários, estudantes etc. de países avaliados como de risco baixo – da América do Sul, figuram nele apenas Argentina e Colômbia - https://www.cbp.gov/travel/trusted-traveler-programs/global-entry/eligibility.    

Estimava-se na época que só o polêmico programa Ciência sem Fronteiras – organizado em 2011 pelo Ministério da Educação sem contemplar pesquisadores da área de ciências humanas em pleno século 21 – poderia encaminhar para lá até 2015 quase trinta mil universitários - http://www.cienciasemfronteiras.gov.br/web/csf/bolsistas-pelo-mundo 

A preocupação com o adiamento da viagem da mandatária era a possibilidade de ela não ocorrer no ano seguinte, em função da eleição presidencial pátria. De maneira tradicional, a diplomacia norte-americana costuma prevenir-se contra o agendamento de idas de dirigentes em período de pleito maior, haja vista o impacto nesses processos.

Por isso, o resguardo. De todo modo, a percepção de arrogância do tradicional parceiro, em face de seu comportamento no imbróglio da segurança, já havia sido suficiente para perturbar as relações, embora de forma temporária.

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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