Nicarágua: a geopolítica e o humanitário

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Chama a atenção o conjunto de mortes na Nicarágua – mais de 400 pessoas – por um governo cujo comandante já foi libertário e lutou contra ditaduras. O Centro de Defesa de Direitos Humanos de Petrópolis acaba de lançar uma nota, assinada por Leonardo Boff, denunciando veementemente o governo de Ortega.

Acontece que o sacrifício humano não é exclusividade de governos que se dizem ou já foram de esquerda. Ele está presente de forma diluviana também na direita. Não é uma questão de uma ou outra ideologia, mas da manutenção do poder, sobretudo quando envolve interesses geopolíticos determinantes.  

O governo nicaraguense vem sendo denunciado há tempos por corrupção, alianças com impérios, desrespeito aos direitos humanos. Mas, é bom lembrar que a situação piorou quando decidiu se aliar aos chineses para fazer um novo canal ligando o Atlântico ao Pacífico, mais moderno, para comportar a navegação contemporânea e, dessa forma, jogando para segundo plano o superado Canal do Panamá, controlado pelos Estados Unidos.

Esse tipo de canal tem um impacto socioambiental medonho, demanda muita água constantemente para manter o calado (profundidade) para grandes navios de carga, atinge famílias residentes no percurso do canal, principalmente campesinos. Mesmo assim a reação dos Estados Unidos para não perder o controle dessa rota comercial foi imediata.

O mundo da geopolítica é implacável na sua crueldade. A guerra da Síria é nada mais que um campo de batalha entre Estados Unidos e europeus contra Rússia e pelo controle da rota do petróleo que vem do Oriente Médio, aproveitando-se do mosaico étnico e conflitante do povo sírio. Agora, inclusive, todo interesse na construção de um gasoduto vindo do Catar e que passaria pelo território Sírio, com o intuito de diminuir a dependência dos europeus do gás que vem da Rússia.

Já se fala em mais de 500 mil mortos de sírios para decidir o controle da rota. Tudo indica que Estados Unidos e europeus perderam a guerra para Rússia.

Na geopolítica não existe humanidade e nem respeito pelo povo. O poder nunca tem rosto humano. Como já alertava o general Eisenhower dos Estados Unidos, o “complexo militar-industrial” vai controlar as nações. Pessoas existem aos bilhões e podem ser enterradas aos milhões, sem que façam falta, mas a voracidade dos donos do mundo não tem limites.

O que não dá para entender é que alguém ligado historicamente às causas libertárias resolva reprimir, até com mortes, seu próprio povo.


Roberto Malvezzi é agente pastoral na região do Semiárido.

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