Hélio Bicudo

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D. Paulo Evaristo Arns, Hélio Bicudo e Audálio Dantas: firmeza nos momentos mais críticos.

Os muitos méritos da trajetória marcante de Hélio Bicudo como jurista e homem público estão sendo desconsiderados pelos internautas para os quais os interesses e conveniências do PT são a medida de todas as coisas. Estes o estão julgando apenas e tão somente por sua participação no impeachment de Dilma Rousseff; e o fazem, ademais, de forma bem simplista, repetindo acriticamente as narrativas partidárias.

Em artigo na Folha, a ex-secretária nacional de Direitos Humanos, Flávia Piovesan, acertadamente, avalia como principal mérito de Bicudo seu devoção à causa dos Direitos Humanos, lembrando tudo que ele fez neste sentido.

Bicudo foi, ademais, um homem público honesto e competente, desde a década de 1950, ao presidir as Centrais Elétricas de Urubupungá quando Carvalho Pinto era o governador de São Paulo. Depois foi ministro da Fazenda interino, por uma semana, no governo João Goulart.

 
 Davi venceu Golias de novo

Adquiriria enorme prestígio como o homem que derrotou o Esquadrão da Morte, mas há um componente político importante que Flávia deixou de mencionar: tal grupo de extermínio nasceu na segunda metade da década de 1960, sob a liderança do delegado Sérgio Fleury, que então comandava o radio-patrulhamento na capital paulista.

Em 1968, Fleury foi requisitado pelo Dops para atuar na repressão aos movimentos de resistência à ditadura militar, distanciando-se do Esquadrão. Foi quem armou a tocaia para que Carlos Marighella fosse assassinado a tiros (teria sido até fácil prendê-lo com vida, mas todo o modus operandi adotado evidencia que nunca foi esta a intenção).

E participou de várias outras execuções, como as de Devanir de Carvalho (o Henrique) e Eduardo Collen Leite (o Bacuri), ambos torturados até morrerem. Como reconhecimento dos bons serviços (de carniceiro) prestados, foi condecorado pelo Exército com a Medalha do Pacificador e pela Marinha com a Medalha Amigo da Marinha.

Então, Bicudo teve contra si não apenas os protetores de policiais que exterminavam delinquentes, mas também os protetores de um policial que era, àquela altura, o maior exterminador de resistentes.

Ou seja, por haver se tornado um dos principais assassinos e torturadores da repressão política, Fleury era ostensivamente protegido pelos militares. A ditadura chegou a criar uma lei unicamente para evitar sua prisão imediata quando virou réu de um processo do Esquadrão.

Com extrema coragem, Bicudo levou sua cruzada até o fim; o incisivo apoio que recebia do jornal O Estado de S. Paulo deve ter dissuadido aquelas bestas-feras de atentarem contra ele, pois a repercussão seria enorme, no país e no exterior, o que não convinha ao governo militar.

Bicudo deu o xeque-mate ao colocar quem o apoiava na imprensa na pista da verdade sobre o Esquadrão: este não agia com fins de faxina social, mas sim para fazer jus à mesada de traficantes que utilizavam seus préstimos para eliminar a concorrência. A repercussão desta notícia foi péssima na caserna.

Os militares não tinham restrições morais quanto a proverem um escudo protetor para matadores covardes, mas a coisa mudou de figura quando se tornou conhecido que eram, ademais, capangas do narcotráfico. Assim, os fardados deixaram Fleury e os outros carrascos do Esquadrão entregues à própria sorte.

O primeiro sabia demais e foi, como diziam os mafiosos, dormir com os peixes, caso único de dono de barco que se afoga no ancoradouro. Os demais acabaram condenados ou transferidos para o quinto dos infernos (ou seja, para localidades as mais distantes possíveis da capital...).

Bicudo passou a ser visto pela esquerda como o homem que, por vias indiretas, vingara Marighella e outros resistentes martirizados. Daí o interesse do PT em recebê-lo nas suas fileiras: era um patrimônio moral de primeira grandeza.

As decepções viriam com o tempo, à medida que seus feitos foram sendo esquecidos por nosso povo de memória curta e seu valor político, consequentemente, diminuiu. Falemos das duas maiores.

Em 1998 (vide aqui), presidiu a Comissão de Ética que o PT criou para apurar as denúncias do economista e ex-guerrilheiro Paulo de Tarso Venceslau contra o empresário Roberto Teixeira, responsável pela montagem do primeiro esquema de desvio de recursos públicos para os cofres do partido.

Foi uma satisfação à opinião pública, pois Venceslau, depois de passar dois anos recorrendo em vão à direção do PT, levara suas acusações ao Jornal da Tarde.

Os grãos petistas certamente esperavam que Bicudo fizesse um jogo de compadres. Ele, contudo, optou por uma justiça salomônica. Recomendou a expulsão de Teixeira como maçã podre e de Venceslau por ter vazado à imprensa um assunto interno do partido.

Lula, compadre do Teixeira, ameaçou desligar-se do PT. Chantageada, a Executiva Estadual avocou a decisão final e, desautorizando a comissão de ética, livrou a cara do corruptor. Bicudo teve de engolir um sapo gigantesco.

Depois, no final de 2004, era vice de Marta Suplicy e assumiu a prefeitura quando ela se licenciou para disputar o governo do estado.  
 
É ingenuidade supor que isto não ocorreria sem o Bicudo

Ao invés de ficar simplesmente coçando o saco e discursando em solenidades, resolveu governar de verdade. Suas iniciativas foram muito elogiadas pela imprensa, provocando ciumeira na Marta e seus cupinchas. Hostilizaram Bicudo de tal forma que a ruptura com o partido se tornou mera questão de tempo. Cumpriu seu mandato até o fim e logo se desligou.

A partir de então, tornou-se um crítico contundente do PT. Apoiou José Serra na eleição presidencial de 2010 e Marina Silva na de 2014.

Suas justificadas mágoas o levaram, na minha opinião, mais longe do que deveria ter ido. Mas, seria ingenuidade supormos que as razões jurídicas eventualmente por ele alinhavadas e sua assinatura num documento tenham decidido qualquer coisa. Tudo aquilo não passou de encenação mambembe para preencher partes de uma peça cujo final já estava escrito muito antes de as cortinas se abrirem.

De resto, um partido que perde um Hélio Bicudo para ter um Roberto Teixeira e uma Marta Suplicy só poderia mesmo chegar à situação atual.


Celso Lungaretti é jornalista e ex-preso político.
Blog: Náufrago da Utopia.

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