Flip, contradições e autonomia

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Acabou a 16ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e, apesar de sua complexidade e coleção de contradições e debates possíveis, difícil não ter como impressão principal a consolidação das iniciativas independentes como protagonistas de uma nova forma de se forjar a identidade dos cinco dias de evento no litoral fluminense-paulista.

Se a curadora Joselia Aguiar abriu sua gestão ano passado homenageando Lima Barreto, a escolha agora caiu sobre Hilda Hilst, amostragem suficiente para entender o tom da programação: maior foco em oferecer espaço para negros e mulheres, se distanciando (também por questões financeiras, diga-se) dos inúmeros convites para o modelo estabelecido do autor internacional contemporâneo, geralmente homem branco de língua inglesa.

Com Lima Barreto, as questões de representatividade foram a primeira prateleira da festa, com a professora Diva Guimarães emocionando o ator Lázaro Ramos ou o historiador Luiz Antonio Simas discutindo os subúrbios de Barreto tomando cachaça e cantando ponto de umbanda dentro da igreja católica. Agora, com uma programação oficial ainda menor, a impressão é de que o tom político se manteve acima dos assuntos trazidos pelos debates sobre a obra da homenageada, passando por exemplo pelo amor, pelo sexo, pela morte ou pelo misticismo e transcendência.

Claro, houve também grandes momentos, como a abertura com Fernanda Montenegro, a importante mesa de Djamila Ribeiro (dona dos segundo e terceiro livros mais vendidos na loja oficial da Flip, 'O Que É Lugar de Fala' e 'Quem Tem Medo do Feminismo Negro'), os depoimentos de quem pesquisa Hilda - da professora Eliane Robert Moraes ao cantor Zeca Baleiro ou o fotógrafo Eder Chiodetto -, a participação do decano Sérgio Sant'Anna ("o Brasil precisa ter mais leitores e menos escritores") e a participação de gente em alta, como o norte-americano André Aciman, de 'Me Chame Pelo Seu Nome' ou o carioca Geovani Martins, de 'O Sol na Cabeça'.

Mas, ainda assim, foi o entorno da tenda e do telão principais que deu o tom da Flip 2018.

Casas, casas e barco

A reinauguração do cinema de rua, a inédita presença de uma casa dedicada à homenageada, um bar montado por uma editora (Todavia), as ações educativas espalhadas pela cidade, a múltipla programação musical dos espaços tocados pelo SESC, as sedes de gente graúda como Folha ou Época, os tantos saraus e slams espalhados, as inúmeras casas formadas por editoras independentes - da Porta Amarela, do Desejo, Paratodxs -, e, por fim, um barco com debates e vendas de livro chamado Flipei. É como se não houvesse mais a opção de estar na Flip e viver de mesa oficial e café na pousada.

Porém, diferentemente das falas organizadas pela Flip e que podem ser vistas à distância pela tela grande, as pequenas casas acabam pequenas demais para a demanda de público. Da calçada, se escuta um sussurro mal resolvido driblando as cabeças acumuladas à frente. Nesse ponto, a iniciativa do barco acabou se tornando um grande sucesso.

Do lado de lá do rio, com espaço de sobra para circulação e com cerveja artesanal ao preço mais barato de toda a festa, aconteceu a Flipei - Festa Literária Pirata das Editoras Independentes. Convidado para apresentar uma das mesas de debate, acompanhei de perto a programação do barco.

Comandado por Cauê Ameni, sócio da Autonomia Literária, e fruto de parceria de mais de 10 editoras e outros tantos apoiadores, o barco surge como contraponto à especulação imobiliária que também sustenta os eventos em Paraty - o aluguel de uma casa para os cinco dias chega a custar R$30 mil, enquanto o barco saiu por R$10 mil. Também pega o rastro do Rizoma Ônibus, um busão-livraria tocado pela mesma turma que participa de feiras e tem atividade permanente na região central de São Paulo.

A programação e a temática é "organicamente progressista", como define Cauê, fruto de iniciativas que pretendem alterar a lógica do mercado editorial começando por um modelo mais colaborativo e que não dependa das grandes redes de distribuição ou venda de livros - via de regra, quebradas ou prestes a quebrar. Ainda assim, a FLIPEI precisou pagar a taxa por estar ali - segundo Cauê, R$2,5 mil, contra-proposta diante dos R$5 mil exigidos inicialmente - em troca da permissão para trabalhar e, por exemplo, da disponibilidade de energia elétrica. Se todos por ali concordam que não deixa de ser estranho o barco pirata estar na programação paralela (e do absurdo de pagar por isso), a organização justifica pela ideia de uma proposta não sectária. Conviver junto e debater aquilo que a FLIP oficial não debate. "A gente não é excludente", disse Cauê em diversas entrevistas.

Por ali estiveram duas mesas que valem a referência. Sonia Guajajara, candidata à vice-presidência pela chapa do PSOL, se juntou a lideranças locais para falar dos 518 anos de resistência da luta indígena; já Anielle Franco, Marcelo Freixo e Jaqueline Muniz falaram pela memória de Marielle e criticaram a intervenção militar no Rio de Janeiro.

Essas contradições entre ser pirata e ser Flip, estar à margem e precisar da chancela, e ter uma programação à esquerda me fizeram lembrar um pouco o ruído do Comitê Popular da Copa em 2014. O grupo, cujo lema era Copa Pra Quem?, precisava responder a todo tempo que não era contra a Copa do Mundo ser realizada no Brasil - pelo contrário, todos ali gostavam de futebol e sempre sonharam em ver um jogo mundialista na arquibancada do seu clube -, mas sim eram oposição ao modelo imposto pela FIFA, de superfaturamento, de construção de elefantes brancos, de retirada de famílias das áreas dos estádios, do acesso aos ingressos, da falta de transparência etc. Se muita gente pensa que o barco nega a Flip, talvez o barco também pudesse dizer o seu Flip Pra Quem?.

Porque o funcionário da FLIP grampeou o pano com a marca do evento no barco, lembrei na hora que um boteco em Itaquera não podia escrever Copa 2014 em sua fachada, sob risco de sofrer consequências por usar a marca oficial para atrair gente ao seu estabelecimento. Ou que um restaurante na Tijuca também não podia ter uma faixa com Venha Assistir a Copa do Mundo ali, pertinho do Maracanã. Mais semelhanças.

E aí, quando se misturam todos esses rótulos e impressões superficiais, comete-se erros. A matéria da Folha abre, não só no título como no parágrafo inicial, criando exatamente a rivalidade e a oposição, dizendo que o público do barco não vê com bons olhos a programação oficial. Programação oficial qual? A que tem Djamila Ribeiro, ovacionada no barco e também no telão da Flip? A que traz como homanegeada uma mulher fora do cânone para atravessar debates sobre poesia, feminismo, gênero, produção? Aliás, uma mulher que teve como obstáculo a recusa do mercado editorial em admitir que uma mulher fizesse uma literatura universal, e que peitava o tratamento para com as mulheres, como explica esse artigo no blog do IMS.

Talvez para a reportagem tenha sido complexo demais tentar conversar sobre o fenômeno de apropriação de um evento cultural, artístico e político (ainda mais diante de fetiches da mídia como MTST ou Lula). Com suas contradições, claro, e que construção não as tem?

E aí fica o estopim para uma reflexão profunda sobre os porquês de um evento desse tipo, num país que lê tão pouco, e tentando se reinventar à margem, com suas casas apertadas e seus barcos atracados. Dos dois lados, aliás. De uma negação por quem vê uma foto exótica do lado de lá do rio - tal qual a matéria da Folha - e também pela forma com que a margem vê o centro da cidade - inoportuna, por exemplo, a ironia do dono da Lote 42, João Varella, na mesa de abertura do barco, ao trazer o que ele chamou de 'leitor urso', que vai à Flip, pensa que entende de literatura contemporânea e depois volta a hibernar até o evento do ano que vem.

Lá ou cá, é possível debater os padrões de consumo, a distribuição dos livros, o mercado editorial, as formas de se enriquecer o debate diante de tanta gritaria. Até de se pensar no contraditório, frente a explanações que muitas vezes domesticam públicos encantados, ou mesmo os formatos de abordagem, de formação de leitores, de divulgação. São livros, é calor, é uma festa, é o momento político quente às vésperas de uma eleição. É uma salada, e minimizar isso é ver só a superfície, o chapéu do gnomo.

É possível também entender o que é uma crítica ao modelo de negócio da produção da Flip; o que é uma crítica à literatura ou à venda de livros atualmente; o que é uma crítica ao discurso hegemônico nas mesas tocadas e mediadas pelos grandes grupos e eventos; e o que é uma crítica à curadoria da programação da Flip. São nuances da criatura se atravessando nas ruelas.

Tal qual a surgimento do futebol de várzea, aquele com seus campos improvisados à beira do rio e que acabaram colocados em xeque quando do profissionalismo - para não falar hoje da própria várzea 'profissional' -, a Flip de várzea, literalmente separada da cidade pelo Perequê-Açú, tem também seus caminhos de resistência e de lidar com seus paradoxos.

No fim das contas, gosto do que vejo. E ganha quem agora tem a ponte para atravessar.  

Paulo Junior é jornalista e documentarista, é diretor de O Acre Existe, Largou as Botas e Mergulhou no Céu e Gerais da Pedra - este último trata do rastro do mito Diadorim, personagem central em Grande Sertão: Veredas, e será lançado em 2019. Autor dos livros O Acre Existe e São Bernardo Sitiada. Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

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