Africanos em Israel: ou partem ou cadeia

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Existem 40 mil africanos em Israel. Quase todos vieram da Eritreia ou do Sudão, fugindo da miséria endêmica, condições de trabalho degradantes, violência étnica e/ou perseguições políticas. Para dar um exemplo, a maioria dos refugiados eritreus visava evitar o chamado “serviço nacional”, onde, desde 1995, todos os jovens são obrigados a trabalhar por prazo indefinido em minas, construções e projetos agrícolas, que os ativistas de direitos humanos consideram trabalho escravo.

Todos esperavam encontrar as chances de uma vida decente e um povo compreensivo no “único país democrático do Oriente”.

Não foi bem isso do que encontraram. É verdade que muitos, senão a maioria, têm hoje trabalho e condições de vida bem melhores do que as que encaravam em seus países de origem.

Mas também é verdade que recebem em Israel discriminações, exclusões, prisões e até maus tratos policiais.

O sentimento contra os migrantes vem crescendo na população, influenciada por políticos chauvinistas, a mídia sensacionalista, figuras do exército, da política e do governo que os qualificam como “infiltrados”, “câncer” ou “lixo”.

Em entrevista ao Haaretz, a parlamentar Miri Regev afirmou que os sudaneses são um câncer em nosso corpo. E seu colega, Danny Danon, seguiu por caminho semelhante, garantindo que os emigrantes são “um Estado inimigo de infiltrados que se estabeleceram em Israel, sendo sua capital o sul de Telavive (onde a maioria dos africanos vive)”.

Por sua vez, para o premier Netanyahu, “eles não são refugiados, mas migrantes econômicos” e “estrangeiros ilegais que não pertencem a nosso país”. Ele acha que a identidade nacional judaica estaria em risco com o aumento da imigração. O que tem um aroma contundente de racismo. Os nazistas sustentavam que a pureza racial ariana seria ameaçada por judeus, eslavos e ciganos e outras raças que consideravam inferiores.

Em parte por razões desse tipo, desde 1948, apenas 200 refugiados africanos tiveram sua residência legalizada oficialmente. Segundo o Centro de Desenvolvimento dos Refugiados Africanos, menos de 1% dos pedidos de cidadania têm sido atendidos. Parece que o Estado de Israel vem driblando as normas da Convenção de Refugiados da UNHCR (agência da ONU), de 1948, que estabelece cláusulas justas para estrangeiros adquirirem cidadania.

Mesmo aceitando a ideia, altamente discutível, de que Israel deve ser um Estado destinado só a judeus, o fato é que esse objetivo dificilmente será ameaçado pelo aumento de emigrantes africanos, que hoje somam 48 mil, ou 0,5% da polução israelense. Teriam de se reproduzir com uma velocidade superior à dos coelhos.

Mas o temor dos “puristas” acabou sendo reconhecido em 2014. Lei do Knesset (Parlamento) estabeleceu penas de prisão de três anos aos migrantes ilegais.

Em dezembro de 2014, o ministro do Interior, Gilad Erdan, disse que dois blocos discutiam essa lei: “aqueles que põem Israel em primeiro lugar e eternamente a única nação-Estado dos judeus e os esquerdistas que, infelizmente, estão afim de ameaçar esse objetivo”.

Recentemente, o governo aprovou uma lei que confisca 20% de todos os salários dos migrantes, colocando-as em contas especiais. Os imigrantes poderão resgatar seu dinheiro quando decidirem sair de Israel. Só que caso resolvam permanecer no país, a lei não explica o que devem fazer.

Finalmente em dezembro de 2017, o governo pareceu encontrar a solução final para se livrar dos incômodos africanos “infiltrados”.

Serão apresentadas duas opções a eles: ou decidem serem deportados voluntariamente ou serão internados numa prisão indefinidamente.

A expressão “voluntariamente” usada no nesse decreto de branqueamento da população me parece um tanto bizarra. Não há decisão voluntária quando a alternativa é a prisão.

Comentando a nova lei, Netanyahu foi enigmático. Depois de se referir aos imigrantes como infiltrados, o premier disse: “eles (os africanos) cooperam conosco e vão embora voluntariamente, respeitosa e legalmente, ou nós temos outras ‘ferramentas’ a nossa disposição, que também estão de acordo com a lei”.

Prender indefinidamente está, de fato, de acordo com uma lei: a lei da selva.
O plano do governo objetiva livrar-se dos 40 mil eritreus e sudaneses que perturbam o delicado equilíbrio racial de Israel.

Os primeiros a serem defrontados com o pouco amigável “ou sai, ou cadeia” serão provavelmente os 18 mil eritreus e sudaneses que já requereram asilo. Apenas sete eritreus e um sudanês ganharam proteção oficial.

O resto já recebeu o chega pra lá de Telavive. As autoridades preveem deportar pelo menos 600 migrantes por mês. Para onde, ainda não se sabe.

Mas ninguém duvida que, devidamente recompensado, algum ditador africano receberá os migrantes. O que fará deles, só Deus sabe.
Infelizmente, a maioria da população de Israel apoia o plano do governo.

Diz pesquisa que 56% são a favor, 32%, contra e 12% não têm opinião. Até o Mapalm, principal partido de oposição, agora sob nova e oportunista administração, ficou do lado de Netanyahu.

No entanto, diversos segmentos da sociedade israelense não se deixaram influenciar pela propaganda antiafricanos dos líderes chauvinistas.

Dov Henin, do partido Meretz, de esquerda, clamou que as medidas que Israel está tomando contra os migrantes são imorais: “os judeus, frequentes vítimas de perseguições no passado, deveriam demonstrar compaixão em relação aos africanos”. Todo o Meretz apoiou esta posição.

Os pilotos da El Al (Linhas aéreas de Israel) recusam-se a dirigir as deportações forçadas, que consideram “uma barbaridade”. 150 das tripulações das aeronaves somam com eles e ainda apelaram para que o pessoal de outras linhas aéreas fizessem o mesmo.

Uniram-se ao movimento diversos médicos e um grupo de rabinos, liderados pela rabina Susan Silverman, que propôs a todos que adotassem um programa de desobediência civil. Eles toparam e, dirigindo-se aos habitantes dos kibutz e às comunidades das sinagogas, pediram voluntários para esconder migrantes africanos em vias de serem expulsos.

Trinta e seis sobreviventes do holocausto enviaram uma carta ao governo, dizendo:

“Nós, que sabemos precisamente o que é ser refugiado... Sem o abrigo de um Estado que nos preserve e nos proteja da violência, não podemos compreender como um governo judeu pode expulsar refugiados e apelantes de asilo para uma jornada de sofrimento, tormento e morte”.

Foi tocante. Lavaram a honra de Israel.

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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