O sistema político e a pauta única

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O debate dos últimos tempos, com pauta única – em torno de Lula, seus processos, “injustiças” e “perseguições” – escancara a miséria política do país. Todas as consequências de sua condenação são reduzidas, nas redes e na imprensa, ao jogo eleitoral. O PT, por sua vez, não se sente responsável por nada. É “vítima” de um sistema penal que permaneceu inalterado, quando não piorado, nos treze anos de seus próprios governos.

O fato de a Lava Jato ter condenado vários integrantes das quadrilhas, de empresários a ex-governadores, recuperado vários bilhões e descortinado o modus operandi de um sistema completamente podre passa ao largo do que virou uma eterna campanha eleitoral.

Aos partidos comprometidos com os esquemas de corrupção não interessa qualquer outro tipo de debate, por óbvio, e os recursos públicos são destinados a salvar a pele de quem está no poder. Só que Temer e seus asseclas não caíram do céu. Passaram a ocupar significativos espaços no governo graças às alianças espúrias de quem pretendia se blindar – e por um tempo conseguiu – dos processos judiciais, desde o mensalão.

A chance de tirá-lo da cadeira caiu por terra com o julgamento do TSE, que livrou a chapa da cassação, com apoio de quem hoje se vitimiza. A tonelada de provas trazida por Herman Benjamin – que expôs a gigantesca fraude eleitoral – não serviu nem para pautar o debate político dessa esquerda falida. Eleição fraudada é democracia; golpe é o impeachment que abriu crateras para mais vitimização.

“Campeões nacionais” com recursos do BNDES, hidrelétricas das propinas, megaeventos das remoções, repressão e saques ao erário, Petrobras, um único empresário comprando quase dois mil parlamentares, medidas provisórias vendidas: nada disso aconteceu, é invenção de quem não suporta ver pobre andando de avião.

Em 2013, Valter Pomar avisava: “a verdade é que ou o PT se recicla, gira à esquerda, aprofunda as mudanças no país, ou toda a esquerda será atraída ao fundo”. A escolha foi feita, e deu no que deu.

Lula saiu do segundo mandato com 80% de aprovação. Num país em que cinco pessoas têm os mesmos recursos que 50 % da população, esse índice estava distribuído entre todas as classes sociais. Nas manifestações chamadas por movimentos de uma direita oportunista e caricata, em 2015 e 2016, muitos manifestantes sequer sabiam quem tinha convocado os protestos; defendiam gratuidade da saúde, educação e do transporte e já tinham sido eleitores do PT, segundo pesquisas de Pablo Ortellado, publicada em veículos como El País Brasil.

Nenhuma tentativa de diálogo com esse público foi esboçada: são “coxinhas” e ponto final. Foi um sucesso esse autoisolamento. A tal ponto que, para manter a estratégia da polarização, era necessário turbinar a candidatura do inominável - que agora respira por aparelhos, já que os espelhos foram quebrados.

Já não era possível repetir a dose de 2014, alçando o partido siamês, PSDB, ao lugar de “representante do mal”. Nem a representação da Rede e do PSOL, protocolada no Conselho de Ética para pedir a cassação de Aécio, o PT assinou. Tampouco moveu uma palha para provocar qualquer investigação do PSDB, quando esteve no poder. É corresponsável pela blindagem dessa turma.

O discurso do golpe – que foi tão golpe que tem várias fases e “ainda está em curso” – não impediu a aliança com partidos golpistas em cerca de dois mil municípios no pleito de 2016, ou o apoio aos candidatos golpistas à presidência da Câmara e do Senado.

A campanha prossegue com um discurso que não tem qualquer lastro na realidade: palavras de ordem, chavões, bravatas. O Partido estava tão interessado em outro caminho que escolheu Gleisi Hoffman para presidi-lo.
Após o julgamento de Lula em segunda instância, na mesma justiça racista e classista que o PT ajudou a manter, o que se vê é repetição do sintoma.

Mas que todo o debate político se resuma às eleições não é responsabilidade apenas do PT. “Vejam como fica o cenário eleitoral agora”, diz, uníssona, a grande imprensa. Eu não poderia me interessar menos por essa pauta. Mais do mesmo sob outra roupagem – já que o sistema podre permanece – não fará qualquer diferença.

Apresenta-se um cardápio com mais de uma dezena de candidatos, para que tudo permaneça como está. Trata-se de falsas escolhas. Mantenho a disposição para votar nulo ao cargo majoritário. Ninguém me representa. Oportunamente, pretendo escrever sobre os dois partidos que poderiam fazer alguma diferença no cenário, mas optaram, ainda que por vias distintas, pela mediocridade, com algumas exceções: “Rede-sem-rede” e “PTSOL”.

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Vera Rodrigues é psicóloga e psicanalista.

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