Estados Unidos: a corrosão antecipada de Donald Trump

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Antes de mover-se para a Casa Branca em janeiro de 2017, Donald Trump já era observado como pessoa blasonadora e empafiada, mas, por outro lado, bem-sucedido profissional (empresário dedicado ao ramo imobiliário e lúdico – cassino) em seu país – fortuna pessoal estimada acima de três bilhões de dólares.

Até o momento, suas duas primeiras características, embora negativas, se mantêm, ao passo que a terceira, a de êxito, patina, haja vista seus índices de popularidade ao longo do ano – entre 35% e 45% de aprovação, de acordo com o instituto Gallup.

No Cone Sul, situam-se Mauricio Macri, da Argentina, e Tabaré Vásquez, do Uruguai, em torno disso, ao passo que Horácio Cartes, do Paraguai, e, em especial, Michel Miguel Temer encontram-se abaixo do mandatário estadunidense.   

De toda sorte, conclui o controvertido bilionário o primeiro quarto do mandato presidencial com avaliação modesta aos olhos da sociedade americana. Entre os últimos dez dirigentes, ele classifica-se no pior lugar – pouco superior a ele, localizam-se Ronald Reagan, Barack Obama e Bill Clinton, bastante próximos quanto à estima dos eleitores.

O mais popular, ao cabo da fase preambular da administração, é, de modo surpreendente, George Bush, filho – favorecido, sem sombra de dúvida, pela incomum comoção do povo ao inesperado ataque terrorista de 11 de setembro de 2001 a Nova York e Washington - http://news.gallup.com/poll/201617/gallup-daily-trump-job-approval.aspx e http://news.gallup.com/poll/203198/presidential-approval-ratings-donald-trump.aspx.   

Com retórica confiantemente nacionalista durante a acirrada campanha de 2016, ao criticar de maneira debochada ou cínica diante da classe média baixa as consequências desfavoráveis da globalização – das quais ele próprio se beneficia de forma indireta como homem de negócios - o candidato Trump conseguiu cativar o eleitorado mais ressentido que tradicional.

Sua opositora, Hillary Clinton, equiparava-se a ele sem hesitação no tocante ao conservadorismo. O mote de campanha do polêmico republicano foi o de tornar a ‘América Magnífica de novo’. Com a recuperação concernente aos desdobramentos do baque financeiro do encerramento da gestão Bush lenta, o saudosismo emergiu entre a população sem muita perspectiva social.     

No discurso de posse, Trump aludiu à necessidade de reedificar os Estados Unidos e, ao mesmo tempo, de manter o compasso de todo o globo, através, de fato, da manutenção da democracia neoliberal, tão criticada por ele no transcorrer do pleito à sociedade.

O republicano herdou o país levemente melhor do recebido por seu antecessor democrata. Em 2009, a crise econômica compunha o cenário: o desemprego girava em torno de 8% - em janeiro de 2017, estava abaixo de 5%.

O produto interno bruto havia declinado cerca de 3,5%; no mês da posse do empresário, acima de 1,5%. No entanto, a pobreza e a desigualdade, medido pelo coeficiente de Gini, não se modificaram de maneira substantiva.  

No que tange à política exterior, maculava-a a ineficiência da dupla atuação castrense em solo médio-oriental. No começo do ano, conformado com o relativo fracasso em território iraquiano e afegão e com a intervenção russa na Síria, passou a Coreia do Norte a ser a principal preocupação, após a realização de quatro testes nucleares.

Nos últimos dias, com o propósito parcial de desviar a atenção disso, reconheceu Jerusalém como a capital israelense, a despeito da manifesta inquietação de numerosos países muçulmanos como Egito e Paquistão.

Como ocorrido com outros presidentes norte-americanos, a América do Sul tem sido relegada a plano secundário. Volta de forma momentânea ao noticiário em vista da possibilidade de aquisição da Embraer pela Boeing.

Enfim, o período inicial da administração de Trump tem sido bastante conversador, via redes digitais utilizadas pelo dirigente, porém pouco edificante com o objetivo de distensionar a comunidade internacional.

Com as eleições do meio de mandato em 2018, é possível que os republicanos tenham de adotar postura mais conciliadora, com o propósito de reduzir o desgaste precoce da presente gestão. De modo tradicional, cabe à maior potência garantir a tranquilidade sistêmica, contudo desde Bush, filho, são os Estados Unidos o elemento de instabilidade da ordem erigida por eles mesmos, ao abarcar até o menosprezo pelo bem-estar da própria população.

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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