Lava Jato na oposição saudita

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Às 11 da noite de um sábado, 4 de novembro, os hóspedes do Royal Carlton Hotel foram acordados pela polícia da Arábia Saudita.

Sem maiores explicações, foram obrigados a saírem dos seus quartos (com bagagens e tudo) e levados para outros hotéis.

Em seu lugar, entraram mais de 60 príncipes, quatro ministros de Estado, vários ex-ministros, importantes empresários bilionários e muitos funcionários públicos, totalizando 500 pessoas, segundo fontes do Wall Street Journal (New York Times, 8-11-2005).

Eles foram presos por ordem do Comitê Anticorrupção, sem ordem judicial, algo desusado no país. Sendo pessoas da mais alta hierarquia, tinham mesmo de ser “encarcerados” numa, digamos, prisão principesca. O Royal Carlton é um dos mais luxuosos hotéis da Arábia Saudita.

As origens dessa medida de força prendem-se a circunstâncias da ascensão ao trono do atual rei, Salman bin-Saud.

Ele chegara ao poder por ser o príncipe herdeiro número 1 de Abdullah bin Abdul Aziz Al-Saud, o rei anterior. Não foi uma sucessão tranquila, houve discórdias no clã Saud, dominante no regime saudita. Salman teve de aceitar a promoção para herdeiro preferencial do sucessor número 2, o príncipe Muktir, notório opositor.

As disputas internas

Uma vez no poder, Salman, sentindo-se forte, despachou Muktir, depois de três meses, substituindo-o por Mohamed bin Nayef e nomeando como segundo na ordem de sucessão o filho querido, Mohamad bin Salman.

Nayef tinha se distinguido na luta contra a Al Qaeda, merecendo ser o único príncipe alvo de atentado pelos liderados de bin Laden.

Mas Mohamad bin Salman (apelidado de MbS) era o filho querido do rei que o fez ministro da Defesa, chefe da Corte Real e Presidente do Conselho de Assuntos Econômicos e Desenvolvimento. Além disso, como ministro da Defesa, era quem conduzia a política externa. Já então era considerado o poder atrás do trono, pela sua profunda ligação ao velho e doente rei Salman.

Bin Nayef durou dois anos no cargo. Destituído em 2017, foi colocado em prisão domiciliar e até hoje não se sabe o que foi feito dele.

Alçado à posição de herdeiro número 1, bin Salman manteve ainda todos os cargos que possuía, ganhando um poder talvez desmedido.

Altas figuras do país ficaram descontentes com isso, afinal era tradição que o rei distribuísse cargos importantes entre os diversos ramos da família real.

Esse mal estar nos círculos mais influentes agravou-se com a forma com que foi afastado bin Nayef, uma figura muito respeitada pela eficiência com que enfrentara a al Qaeda.

Tudo indica que Salman sentiu o rumor. Querendo evitar que a futura ascensão ao trono do príncipe MbS fosse conturbada como fora a sua, iniciou um expurgo de oponentes e críticos.

As primeiras vítimas foram três príncipes, envolvidos em objeções às políticas oficiais e em movimentos suspeitos. Sultan bin Turk, Salat al Nasr e Turk bin Bandar foram sequestrados na Europa e levados para Riad, a destino desconhecido, entre fins de 2015 e meados de 2016.

Em setembro deste ano, cerca de 40 personalidades de destaque - intelectuais, ativistas, estudiosos do Islã, professores e pregadores foram detidos. Até mesmo três dos mais eminentes líderes religiosos - Salman al-Odah, Awad al-Qarni e Ali al-Omary - com milhões de seguidores nas mídias sociais também caíram nas redes da repressão real. Todos eles para Salman e seu álter ego, o príncipe MbS, seriam politicamente incorretos. Alguns deles por pedirem a Alá que favorecesse a volta da harmonia com o Catar, que o governo de Riad tinha bloqueado.

Jogos de poder

Para dar o golpe final, Salman criou um “supercomitê” anticorrupção, com todos os poderes possíveis, inclusive o de não ter suas ações atrapalhadas por qualquer lei, fatwa, regulamento ou o que for.

E o príncipe herdeiro, que já era ministro da Defesa, presidente do Conselho de Economia e Desenvolvimento e eminência parda do governo, foi ainda nomeado presidente desta todo-poderosa organização contra os corruptos.

O que parece estranho, já que ele e muitos príncipes sauditas têm o costume de confundir bens públicos com bens privados. Repete-se a velha história da raposa punindo outras raposas por ataques ao galinheiro.

Diz Nathan Brown, professor da Universidade George Washington, que estuda sistemas legais árabes: “ultimamente, o rei e alguns altos membros da família real podem fazer o que eles querem e tornar legal mais tarde”.

Editorial do The Guardian (5-11-2017) é taxativo: “ninguém sabe exatamente quanto é gasto pelo Estado. O círculo íntimo da família real é acusado de desviar vastas somas de fundos públicos”.

Por que, portanto, essa inesperada vontade de combater a corrupção? “Se o reino, uma monarquia absoluta, nunca tentou criar um sistema de cortes independentes para atender a queixosos; se a corrupção é definida como uso privado de recursos públicos, essa prática é tão generalizada que algumas medidas, a não ser que sejam revolucionárias, podem parecer mais uma perseguição seletiva (New York Times, 7-11-2017)”.

De fato, somente jornalistas e lobistas pró-sauditas duvidam que a Lava Jato do rei Salman não tenha por objetivo consolidar a posição de MbS como seu sucessor.

Possivelmente, os hóspedes forçados do Royal Carlton não serão mesmo exemplos de virtude. Na verdade, eles não foram selecionados por exibirem a mesma carência de virtudes, generalizada mesmo entre os príncipes e magnata, mas sim por serem ameaças potenciais à futura realeza do filho bem amado.

Os fracassos da política externa

Na verdade, além do ciúme, das queixas pela ausência de altas posições e da indignação pelo mau tratamento dispensado a al Nayef, há fatos sólidos que justificam a existência de uma significativa oposição aos planos do rei.

Como ministro da Defesa, o jovem Mohamad bin Salman (MbS) fracassou em três importantes campanhas no exterior.

Na Síria, na revolução contra Assad, financiada e comandada pela Arábia Saudita, sob orientação do herdeiro nº 1, foram gastos Amazonas de dinheiro.

E quais foram os resultados?

Muito barulho por nada. A derrota dos rebeldes hoje é praticamente certa, embora muitos ainda tentem uma improvável virada.

Além disso, passou para a opinião pública mundial que o reino tinha financiado uma franquia da Al-Qaeda – a milícia Al-Nusra –, fora outros grupos jihadistas radicais, inimigos jurados do Ocidente.

A guerra do Iêmen foi notoriamente obra de MbS. Como sempre, fortunas da Arábia Saudita foram enterradas nesse empreendimento principesco.

Hoje, depois de dois anos e sete meses de ataques por terra e, principalmente, bombardeios fulminantes, os houthis continuam em pé de guerra, ocupando inclusive Saná, a capital do país.

Especialmente em função da estratégia de bombardear civis e destruir seus meios de subsistência, a guerra tornou-se repulsiva no mundo inteiro. Ataques militares responsáveis pela morte de 10 mil pessoas; por tornar 17 milhões dependentes de auxílio externo para se alimentarem; pela expansão de uma epidemia de cólera, que já chegou a 2 mil mortos e 900 mil já inoculados e por deixar subnutridas milhões de crianças, não são nada de que o príncipe possa se orgulhar. Especialmente porque contribui poderosamente pela perda de prestígio da Arábia Saudita.

O terceiro insucesso é o bloqueio do Catar. Há tempos que esse país causa profunda irritação nos príncipes sauditas por não aceitar sua liderança no Conselho dos Países do Golfo.

Entre outras razões porque o emir catariano hospeda a Irmandade Muçulmana e dirigentes do Hamas, mantém boas relações com o Irã e financia uma grande emissora, a Al Jazeera, que, vez por outra, ousa criticar o governo de Riad.

O Irã e a Irmandade Muçulmana são absolutamente execrados pelo príncipe bin Salman – ele os qualifica como os principais inimigos. Talvez os iranianos sejam os mais odiados. Ousam disputar a hegemonia no Oriente Médio com a Arábia Saudita.

Quanto à Al Jazeera, MbS considera simplesmente inaudito, insulto de graves proporções, um simples jornal árabe ousar criticar seu país.

Qatar delenda est, ele decretou (na tradução árabe, claro). Com o peso financeiro e militar da Arábia Saudita, convocou vários outros países árabes a apoiá-lo numa série de imposições draconianas ao minúsculo, porém desobediente Qatar.

Contava que humildes e contritos, os catarianos viessem pedir água, topando tudo que lhes fora exigido.

Para MbS, o apoio norte-americano era certo, depois das garantias e afagos de Trump ao governo de Riad.

Novo fracasso, o Catar resistiu e, com apoio da Turquia, do Irã e de outros países, somado à neutralidade dos EUA, continua firme, seis meses depois do bloqueio.

Imagem internacional em frangalhos

Um quarto empreendimento está pintando como mais um vexame internacional de obra de MbS, ministro da Defesa e responsável pela política externa do seu país.

Em mais um lance para satanizar o Irã, ele e o rei (seu pai) culparam o governo de Teerã pelo lançamento de um míssil contra Riad (interceptado pela defesa antimíssil, sequer feriu uma mosca). O Irã teria fornecido o míssil aos houthis, responsáveis assumidos pelo ataque balístico.

Segundo o governo saudita, o lançamento era uma declaração de guerra, da qual o Líbano também seria culpado, pois o Hizbollah, aliado ativo dos houthis, integra o governo de Beirute. E ainda por cima, os sauditas garantiam, foram milicianos desse movimento xiita que dispararam o míssil fatídico.

Em seguida, como uma orquestra bem (bem?) afinada, o premier libanês-sunita, Hariri, viajou para Riad onde declarou que fugira do seu país porque havia um complô do Hizbollah para assassiná-lo, e com as digitais do Irã. Fatos que passam longe da verdade.

O míssil foi identificado por oficiais sauditas, logo após sua derrubada, como o Burqan 2H, arma sabidamente projetada e construída pelos houthis. Acredita-se que os rebeldes iemenitas jamais teriam motivos para encarregarem o Hizbollah do lançamento. Mesmo que, por um estranho capricho, quisessem, não seria possível. Inexiste qualquer notícia de milicianos do Hizbollah lutando na guerra do Iêmen, dentro das fileiras dos rebeldes.

Por fim, o presidente do Líbano, Michel Aoun, por sinal cristão, tratou a denúncia de Hariri como “uma bobagem”. E chamou o fujão de volta.

O conflito que, a partir de ameaças ao Líbano, parecia ser o início de uma guerra pelo menos econômica contra o Irã, (o grande desejo de MbS), foi obstruído quando a União Europeia se colocou em defesa do governo de Beirute. E os EUA pregaram pela paz entre seus amigos sauditas e libaneses.

O agressivo príncipe herdeiro não desistiu. O reino saudita prontamente respondeu, convocando os cidadãos do seu país, moradores no Líbano, a voltarem imediatamente.

Espera-se que, em seguida, os libaneses, que vivam em terras sauditas, sejam expulsos pelo governo de Riad.

Mal para o Líbano, pois as remessas de dinheiro dos seus cidadãos que vivem no exterior pesam bastante na economia do pequeno e pacífico país.

Ainda que neste episódio, o governo de Riad acabe se saindo razoavelmente bem, sobram os motivos para que o herdeiro tenha de encarar difíceis problemas para conseguir suceder ao rei, seu pai.

O que vem pela frente

Como diz o Middle East Eye (10-11-2017) citando fontes autorizadas, “a estabilidade do reino foi construída sobre três pilares: a unidade da família al Saud, o caráter islâmico do Estado e a florescente comunidade dos negócios domésticos. Atacando as três ao mesmo tempo, os riscos do reino afundar na areia são muito grandes”.

De fato, esses pilares foram abalados desde o início do governo al Salman, que deixou membros dos outros ramos da família al Saud de fora da administração. Tremeram perigosamente, com a prisão de dezenas dos príncipes dessas famílias. E rachaduras já estão pintando, causadas pelo modo com que parte destes dignitários estão sendo tratados pela polícia do rei.

Conforme relato de fontes anônimas ao Middle East Eye (10-11-2017), “algumas, mas não todas as figuras principais aprisionadas foram contempladas com o mais brutal tratamento, sofrendo ferimentos no corpo em consequência do uso de métodos clássicos de tortura. Como não há ferimentos nos seus rostos, eles não mostrarão sinais físicos de suas provações quando aparecerem em público”.

O segundo dos pilares do reino, o islamismo associado ao Estado, foi alvo das punições reais com a detenção infringida a importantes autoridades religiosas, algumas muito populares.

Finalmente não se sabe o que será do terceiro pilar da estabilidade do reino, o estreito relacionamento com os empresários do reino. A maioria dos principais magnatas sauditas acha-se confinada luxuosamente nas cinco estrelas do Royal Carlton Hotel. Especula-se que parte deles estaria entre os que passaram algumas horas infinitamente menos agradáveis, submetidos a torturas nos nada luxuosos calabouços de Riad. Lá eles foram convencidos a revelar completos dados referentes a suas contas bancárias.

Todos os fatos aqui relacionados criam um clima potencialmente beligerante entre os príncipes dos ramos das famílias reais que não compartilham do poder com al Salman. Não se sabe quantos deles foram presos, nem se alguns serão reintegrados em seus palácios. Também não tenho informação sobre o número daqueles que, embora hostis ao situacionismo saudita, não foram distinguidos pelas punições reais, talvez por terem cuidado em esconder seus sentimentos. Toda ação costuma ter reação.

Parece certo que, apesar das precauções tomadas pelo rei Salman, o príncipe herdeiro, depois da morte do rei seu pai, poderá ficar sozinho para defender seu acesso ao trono.

Tem chance de vencer, afinal como ministro da Defesa ele controla duas das mais poderosas forças militares do país. Agora, também a terceira, a Guarda Nacional, cujo novo chefe foi há pouco escolhido por Salman para substituir o anterior, Miteb bin Abdullah, considerado de lealdade duvidosa.

No entanto, se MbS continuar marcando bobeira na política internacional está seriamente ameaçado de ver seus ambiciosos sonhos se transformarem numa miragem.
 

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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