Petróleo, mico e passaporte

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Qual país se desenvolveu exportando petróleo por multinacionais estrangeiras? Qual país, continental e populoso como o Brasil, se desenvolveu exportando petróleo em troca de dólares?

O petróleo brasileiro do pré-sal é um mico, do qual precisamos nos livrar o mais rápido possível? Ou o pré-sal é um passaporte inédito para o futuro?

O petróleo é uma riqueza natural do Brasil. Desde a chegada dos europeus nossas riquezas foram exploradas, o mais rapidamente possível, em benefício de interesses estrangeiros. Foram extraídos da forma mais eficiente para um projeto colonial, aos menores custos para as elites de Portugal, Inglaterra e Estados Unidos.

Todos os ciclos beneficiaram uma pequena casta entre os brasileiros, aqueles responsáveis pela gestão do projeto colonial. Dos senhores de engenho e feitores aos executivos das multinacionais, donos dos meios de comunicação e banqueiros. Esses caboclos transitam através de portas giratórias e ocupam cargos públicos na gestão colonial e neocolonial, dos “homens bons” da Colônia aos executivos das agências reguladoras da Nova República.

A cobiça estrangeira em relação ao petróleo brasileiro é acentuada porque não há substituto para o petróleo barato de se produzir, mas ele acabou e a humanidade vive as consequências econômicas e sociais deste fato. As informações da indústria mundial, o investimento em Exploração e Produção (E&P) e a produção agregada desde 1985 evidenciam o aumento do custo médio de se encontrar e produzir cada barril adicional de petróleo, com severas consequências para a indústria e a sociedade. (Coutinho, O fim do petróleo barato e do mundo que conhecemos, 2017)

Quem pensa que a Petrobras está quebrada, que a produção do pré-sal é lenta, que o pré-sal é um mico e não tem valor ou que a exportação de petróleo por multinacionais pode desenvolver o Brasil, está sendo enganado. É vítima da ignorância promovida pelos empresários da comunicação, políticos e executivos a serviço das multinacionais do petróleo e dos bancos.

O petróleo do pré-sal pode ser como o pau-brasil, a madeira, o ouro e a prata, explorado, esgotado, com prejuízos sociais, ambientais e lucros privados de mais um projeto colonial de sucesso. Ou não, pode ser uma oportunidade para o aumento da produtividade do trabalho no Brasil, em benefício da maioria. Podemos planejar o uso do petróleo, em atividades industriais produtivas, agregar valor ao petróleo cru, nos apropriar e distribuir a renda petroleira.

O petróleo brasileiro do pré-sal não é mico, tampouco passaporte inédito ou um bilhete premiado. É mais uma oportunidade de desenvolvimento que pode ser aproveitada ou desperdiçada. Pode beneficiar a maioria ou, como sempre até aqui, favorecer a uma minoria a serviço do bem-sucedido projeto colonial.

Leia também:

O fim do petróleo barato e do mundo que conhecemos

A construção da ignorância sobre a Petrobrás

Felipe Coutinho é presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobrás

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