Morte barata

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Conheci uma senhora, nos anos 60 do século passado, quando eu tinha vinte e poucos anos, e ela devia ter o dobro da minha idade. Nesta época, não existiam, pelo menos muito difundidos, os planos de saúde. Passaram uns vinte anos e ela continuou sem plano, o que foi um erro, principalmente dos seus dois filhos.

Infelizmente, ela teve um tumor no cérebro e seus filhos foram obrigados a pagar, com grande esforço financeiro, a operação, consultas e exames.

Antes da operação, ainda lúcida, ela chegou a pedir ao médico para tirar-lhe a vida, o que foi obviamente negado. Ela argumentava: “irei dar muito prejuízo para meus filhos. Eu só quero uma “morte barata”!

Nos dias atuais, vemos a recriação dos fatores que irão fazer muitos de nós solicitarem uma “morte barata”. Uma informação a conferir, mas bem plausível para os tempos atuais, é que as empresas de plano de saúde não estão mais oferecendo planos nos quais elas são proibidas de rejeitar a continuidade do mesmo a qualquer época, a menos que o beneficiário esteja deixando de pagar regularmente.

Provavelmente ocorrerá de o beneficiário de um plano ser “dispensado” a partir do momento em que atingir a idade crítica a partir da qual, na média, os gastos de saúde ultrapassarão os pagamentos mensais do plano. Ou seja, quando o beneficiário irá mais precisar do plano, este será revogado. A ideia do seguro coletivo, nascida na Inglaterra no século 19, está sendo hoje refutada, por empresas que não irão mais trabalhar dentro dos princípios éticos racionais da seguridade da assistência médica e hospitalar.
 
Através de cálculo atuarial, os ideólogos do sistema de seguro coletivo imaginavam que o fundo coletivo criado por um grupo com as contribuições de seus componentes durante anos iria cobrir os gastos com saúde do grupo e, ainda, restaria algum lucro. Hoje, a cada mês, o fundo deve dar lucro e, quando começar a dar prejuízo, porque as pessoas envelheceram, o seguro é extinto.

São inúmeras e profundas as medidas antissociais que o capital está providenciando, neste instante, no Brasil, país onde ele está livre para causar o dano que quiser, pois a capacidade de absorção de sofrimentos do nosso povo tem se mostrado imensa. Este fato antinatural deve levar sociólogos e antropólogos à busca da compreensão da aparente irracionalidade.

Nas minhas divagações à procura de nexo, sem a formação ideal, encontro um arremedo de causa. Temos no nosso DNA, com orgulho, grande participação da etnia negra. Assim, nossos antepassados sobreviveram aos mais terríveis sofrimentos impostos pelos colonizadores europeus. Os vivos de hoje são descendentes daqueles que se calaram com muita dor.

Entretanto, uma conscientização precisa ocorrer, pois os opressores atuais não irão abrir mão de suas regalias injustas facilmente. Não há democracia em um país em que uma pequena casta, os inquilinos da Casa Grande, concentra tantos poderes e propriedades. É preciso que a sociedade mostre sua indignação, de forma pacífica, mas contundente e determinada.

Existe outro problema. A nossa mídia convencional, apesar de ter perdido influência nos últimos tempos, ainda é a mais importante fonte de informação da população. Na verdade, ela é um instrumento de dominação do capital, à medida que deturpa fatos, informa acontecimentos irrelevantes, para tergiversar, e não informa o principal. Cabe à população consciente continuar na árdua e nobre tarefa de informar seus irmãos, muitos dos quais nem sabem que estão mal informados.

Para encerrar o conjunto de desgraças brasileiras atuais, os próprios Executivo, Congresso e Judiciário brasileiros são inimigos do seu povo. Que reflexão explica esta situação disparatada? A questão é gravíssima, pois temos um presidente, ministros, juízes, deputados e senadores que tratam o povo inacreditavelmente com escárnio. Ouso dizer, em comparação macabra, que o brasileiro sofre hoje, esquecendo as especificidades das épocas, tanto quanto no período da ditadura de 1964.
 

Paulo Metri

Conselheiro do Clube de Engenharia

Paulo Metri

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