Acusações podem criminalizar e derrubar Netanyahu

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Envolvido em quatro investigações de corrupção, o primeiro ministro Netanyahu está na corda bamba. Diversas delações, uma delas premiada, tornam particularmente difícil a situação do líder israelense.

Na sua edição de 4 de agosto, o jornal Haaretz faz uma descrição das investigações que estão tirando o sono de Netanyahu, descritas como “casos 1000, 2000, 3000 e 4000”.

Caso 1000

Netanyahu, sua esposa e seu filho teriam recebidos caríssimos presentes de dois bilionários: o australiano James Packer e o magnata de Hollywood, Arnon Milchan.

Eles têm enviado regularmente ao casal Netanyahu e filho uma série de agrados de alto preço, inclusive champagne e charutos dispendiosos, que valeriam centenas de milhares de dólares. Milchan excedeu-se nas gentilezas, presenteando madame Netanyahu com joias de deixar qualquer princesa saudita verde de inveja.

Certamente não foi para homenagear a família do chefão israelense que esses cidadãos estão gastando seu precioso dinheiro.

Os investigadores recomendaram o indiciamento de Netanyahu, esposa e filho como suspeitos de corrupção.

Caso 2000

Netanyahu está sendo interrogado por tentar fechar um acordo para reduzir a circulação do Hayom, líder de audiência, em benefício do Yeddoth Ahronoth, o vice-líder.

O Hayom, por sinal distribuído de graça, foi fundado e é financiado pelo magnata judaico-americano dos casinos de Las Vegas, Sheldon Adelson.

Ele é conhecido por contribuir pesadamente para as campanhas eleitorais de notórios políticos norte-americanos pró-Israel.

Este magnata é amigo de Netanyahu, sendo seu jornal um decidido defensor do primeiro-ministro.

Já o Yedoth costuma criticar com certa frequência o primeiro-ministro e seu governo de extrema-direita.

Muito esperto, Netanyahu teria proposto um estranho negócio a Aron Moses, proprietário do Yedoth: ele conseguiria fazer o Hayom cortar seu suplemento dominical, uma das partes mais lidas do jornal. Com isso, muitos leitores deixariam de lê-lo, emigrando para o Yeddoth, que assim se tornaria o jornal número 1 de Israel.

Em troca, o Yeddoth passaria a elogiar o primeiro-ministro, abandonando sua atual posição crítica.

E Netanyahu passaria a contar com o apoio dos dois maiores jornais de Israel. Claro, faltava “avisar os russos”.

O primeiro-ministro achava fácil convencer. Primeiro Adelson, afinal o magnata do jogo fundara seu jornal especialmente para ajudar Netanyahu e suas políticas de extrema-direita. Mas a coisa acabou fedendo.

Diversas conversas entre Aron Moses e o primeiro-ministro foram gravadas num smart-phone pelo seu assistente, Ari Harow.

Posteriormente, Harow deixou seu emprego público para dedicar-se a outras atividades.

Aí, o destino interviu nessa amigável negociação. Harow foi preso pelo Esquadrão Nacional Anti-Fraude sob suspeita de ter trabalhado como lobista em favor de empresas privadas, durante seus tempos de serviço público.

Diante da perspectiva de ir para a cadeia, o antigo homem de confiança do premier topou uma delação premiada.

Em troca da uma pena branda, prestação de serviços comunitários e multa de 193 mil dólares, ele entregou aos agentes seu smart-phone com a gravação altamente comprometedora para Netanyahu.

E ainda se pôs à disposição da polícia e da justiça para testemunhar contra seu ex-chefe, narrando tudo que sabia sobre as conversações mantidas por Netanyahu para convencer Sheldon Adelson a topar agir contra seu próprio jornal.

A Suprema Corte de Israel também entrou no jogo, ordenando que o chefe do governo divulgasse informações sobre as conversas que teve com Adelson e os editores do Hayom.

Recentemente, a mídia de Israel noticiou que o procurador-geral deverá solicitar logo o indiciamento de Netanyahu.

Caso 3000

É o chamado Submarine Affair (parece título de filme de James Bond). Trata-se da denúncia de subornos do Thyssen-Krupp, gigantesco grupo industrial alemão, na venda de submarinos ao governo israelense.

O principal suspeito neste caso de corrupção é, por enquanto, Michal Ganor, representante da Thyssen-Krupp em Israel.

Ela teria subornado altos funcionários do Ministério de Defesa para apressar o negócio.

Aqui também aconteceu uma delação premiada. Ganor assinou um acordo para prestar testemunhos contra outros suspeitos. Em troca, vai cumprir apenas um ano de prisão e pagar multa de 2,8 milhões de dólares.

Está sendo também investigado David Nimrod, advogado e amigo pessoal de Netanyahu, acusado de ter ficado com milhões de dólares na transação, que, aliás, acabou sendo suspensa.

Até então, o primeiro-ministro estava fora. Mas o submarino ainda não acabara de afundar.

O ex-ministro da Defesa, Moshe Yalon informou à polícia que Netanyahu tentara facilitar o negócio com o grupo alemão, instando pelo cancelamento de uma recomendação anterior do Ministério da Defesa para aquisição de submarinos.

E Yalon ainda acusou o primeiro-ministro de ter comprado mais submarinos do que o Ministério da Defesa considerava necessário.

Meia dúzia de suspeitos já foram pesos neste caso, entre eles um ex-comandante da Marinha de Israel, o vice-almirante Eliezer Marom.

Diante de tantas denúncias e delações, começa a se fechar um círculo em torno do primeiro-ministro.

Estima-se que em breve a autoridade policial começará a considerá-lo um possível suspeito.

Caso 4000

Neste escandaloso caso de corrupção, Netanyahu não é alvo das investigações policiais.

Shlomo Filber, diretor-geral do Ministério de Comunicações, e ex-assistente de confiança de Netanyahu, teria entregue à Bezeq, gigante das telecomunicações, documentos confidenciais e outras informações que beneficiaram a empresa.

Note que Filber foi trazido por Netanyahu para o Ministério das Comunicações (na ocasião, também assumido pelo premier) para substituir Avi Berger, despedido após tentar emplacar uma reforma adversa aos interesses da Bezeq.

O Controlador do Estado descobriu que, quando exercia também o cargo de ministro das Comunicações, o chefe do governo revelou, como obrigatório, sua amizade com Shaul Elovitch, o qual controlava acionistas da Bezeq.

Esta revelação era exigida já que, como ministro das Comunicações, o premier tinha poderes para formular a política da área, de modo a beneficiar a Bezeq.

Não há no caso 4000 evidências claras contra Netanyahu da prática de possíveis atos de corrupção. No entanto, a demissão que fez de um funcionário indesejado pela Bezeq e a contratação, em seu lugar, de outro que fazia o jogo da empresa são fatos potencialmente perigosos para Netanyahu.

Os quatro casos põem em risco a sobrevivência do líder direitista na chefia do governo.

Do que depender da Justiça, vai demorar e será difícil tirá-lo do cargo.
Isso somente aconteceria havendo uma forte pressão política.

O primeiro-ministro poderá ser investigado como suspeito, indiciado pela procuradoria ou considerado culpado pela Suprema Corte (depois de perder muitos recursos). Suas chances de queda variarão de acordo com a instância que o culpar. Mas, sem a aprovação do Congresso, nada feito.

É verdade que já no caso da polícia recomendar o indiciamento do líder direitista por suborno, o Haaretz admite ser possível que Moshe Kalon, ministro das Finanças, se retire do governo, levando consigo os 10 parlamentares do seu partido, o Kulagu. O que deixaria o governo em minoria, provocando a antecipação das eleições.

Outubro pode ser fatal para Netanyahu. É quando deverá ser discutido no Knesset o próximo orçamento de Israel.

O Kulagu discorda de várias cláusulas da proposta orçamentária do Executivo. Se as discussões pegarem fogo, Kalon talvez aproveite para cair fora, de olho no cargo de primeiro-ministro.

Ele provavelmente postulará esse cargo, durante as eleições que aconteceriam depois de o governo se tornar minoritário.

Tem suas chances, o Kulagu vem subindo e a imagem de um Netanyahu caracterizado como corrupto pode lançar às feras o Likud, seu partido.
 

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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