Novas armações de Trump contra o acordo nuclear com o Irã

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Na história do lobo e do cordeiro, Trump assume o papel da fera. Nos termos do acordo nuclear do Irã com o P5+1 (EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Rússia e China), de 90 em 90 dias, os chefes de Estado dos países signatários precisam verificar se o Irã está cumprindo suas obrigações.

Em julho, perto do fim do prazo, a maioria deles já dera sua aprovação. Não havia dúvidas, a própria AIEA (a Agência Internacional de Energia Atômica) tinha investigado e dado nota 100 ao Irã.

Menos Donald Trump. Ele não queria saber de nada: iria reprovar o inimigo e ponto final! Argumentou ser necessário apertar o Irã, ainda que esse país não tivesse feito nada de errado.

Foi a senha para os membros do Conselho de Segurança Nacional convencerem o destemperado presidente a evitar uma saída escandalosa, que chocaria a opinião pública internacional e os aliados dos EUA.

Trump acabou topando, mas não deixou de proclamar publicamente que o governo de Teerã estava violando o “espírito do acordo”. E, ainda, The Donald não deixou a coisa morrer assim.

Antes de dar sua aprovação aos iranianos, impôs a seus ministros e assessores a adoção pelos EUA de certas armadilhas para pegar Teerã no pulo.

O site LobeLog, de 31 de julho, explicou quais seriam elas. Os EUA deveriam exigir acesso dos fiscais da AIEA a qualquer das dependências das forças armadas do Irã. Nucleares ou não.

Absurdo, pois o texto do acordo diz que os fiscais do P5+1 teriam acesso somente a locais relacionados ao programa nuclear militar. Investigar dependências militares não nucleares, só quando houvesse evidências de atividades suspeitas.

Ora nenhum Estado soberano jamais permitirá acesso sem restrições às suas dependências militares.

Os EUA contam com a recusa do Irã para, então, denunciarem o pacto nuclear por violação das suas estipulações.

Aí, adeus acordo, que levou 20 meses a ser firmado, adeus paz no Oriente Médio, adeus Revolução Islâmica Iraniana, com o país sendo estigmatizado mundo afora como rogue state (Estado fora da lei), sujeito a intervenções estrangeiras.

Mas esta estratégia pode não dar certo. A atitude dos principais países europeus (exceto a Inglaterra) já não é tão flexível como outrora diante do diktat dos EUA.

Especialmente depois do nacionalismo vesgo do presidente republicano, que retirou seu país da luta mundial contra o aquecimento global e aprovou medidas anti-Rússia, com consequências anti-Europa.

É provável que França e Alemanha se juntem à China e à Rússia para recusarem os pedidos norte-americanos de fiscalizações alheias ao pacto nuclear.

E deixem Trump isolado, ou talvez apoiado apenas pela fiel Inglaterra do Partido Conservador, mas sempre em clara minoria.

É verdade que ele vai alegar supostas atividades suspeitas em alguma das instalações militares convencionais para justificar inspeções fora do normal. Que Teerã jamais aceitaria.

Acredita-se que a França e a Alemanha, mais a China e a Rússia, não cairiam nessas arapucas. Já houve firmes pronunciamentos de Macron e Merkel em defesa do acordo com o Irã. Inclusive porque seus países estão muito interessados nesse mercado de 80 milhões de habitantes, carente de investimentos estrangeiros na maioria dos seus setores.

Não quer dizer que The Donald não tenha mais flechas na sua aljava. Ele acaba de garantir ao Wall Street Journal que, da próxima vez, o Irã será considerado não cumpridor das normas do pacto nuclear, mandando o acordo nuclear para o espaço.

Talvez se trate de simples wishful thinking (anomalia psicológica na qual o indivíduo pensa que acontecerão as coisas que deseja).

Possivelmente, o líder republicano retomará antigas acusações, como a que taxava os testes balísticos das forças iranianas como violações ao disposto pelos P5+1.

Só que essas atividades não são focadas entre as que foram proibidas. O pacto se refere unicamente a ações no setor nuclear.

Trump sabe que nem a ONU, nem quase todos os países do grupo P5+1 concordarão com sua estranha tese.

Por isso, ao invés de submetê-la à discussão com os demais integrantes do P5+1, preferiu aprovar a lei que inclui o Irã na relação dos países que sofrerão novas sanções. O que acabará sobrando para empresas de qualquer país que negociem com Teerã.

Não é de se crer que França, Alemanha, China e Rússia vão se conformar, afinal estão em jogo muitos bilhões em prováveis negócios com Teerã.

Ainda mais porque as novas sanções disparadas contra o Irã violam o núcleo central do pacto nuclear.

Nele, o Irã desiste de encerrar seu programa nuclear militar em troca da suspensão gradual de todas as sanções existentes contra o país. Substituir essas sanções por outras sanções me parece uma autêntica trapaça.

Se fosse admitida, transformaria o acordo com o P5+1 num acordo leonino, mudado unilateralmente em prejuízo de uma das partes. Portanto, ilegal.

Pretender justificar as novas sanções, dizendo que, depois da assinatura do pacto, Teerã praticara atos, que não poderiam ficar impunes, é outra falácia.

As ações condenadas e sancionadas pela nova lei dos EUA - “malignas atividades pelo Oriente Médio que sabotam a estabilidade regional, segurança e prosperidades das regiões (Departamento de Estado)”, já eram condenadas antes do acordo. Há muito tempo o Departamento de Estado acusa os iranianos dessas mesmas ações, consideradas de tal magnitude que o Irã vem sendo proclamado pelos EUA como “os maiores incentivadores do terrorismo no mundo”.

Possuído por sua alergia ao Irã, Trump, na recente reunião dos G-20, fez campanha junto a representantes dos outros Estados pelo rompimento do acordo do P5+1. O que levou o ministro Zarif, do Irã, a qualificar esta conduta como “uma violação, não do espírito, mas da letra do acordo nuclear”.

Embora pareça que nem Freud explica o ódio irracional ao Irã do ex-astro de TV, há quem confie no bom senso dos seus conselheiros: o secretário e Estado Rex Tillerson e os generais Mattis e McMaster.

Afinal, quando Trump em transe estava para rejeitar injustamente a conduta do Irã no cumprimento das obrigações assumidas para com o P5+1, foram eles que o fizeram abrir os olhos, deixando para outra oportunidade sua ânsia em destruir o pacto nuclear.

No entanto, há mais coisas que existem entre o céu e a terra do que desconfia a vã filosofia (Willian Shakespeare in Hamlet).

Os generais Mattis, Mc Master e Munford, principais influenciadores da política externa estadunidense, também têm as piores intenções quanto ao Irã.
Mattis, por exemplo, quando os generais taxavam a Rússia de principal inimiga dos EUA, discordou. Para ele, ninguém mais ameaçador do que o Irã.

As outras figuras que Trump ouve, como o neofascista Bannon, o secretário de Estado Rex Tillerson, a princesa herdeira Ivanka e o príncipe consorte, Jared Kushner, defendem que o Irã deve ser sacrificado para agradar o Congresso, insuflado contra o governo por um acerto secreto (mas, não provado) com Putin, para prejudicar a campanha Clinton.

No entanto, pelo menos Tillerson, o secretário de Defesa, Mattis, e o conselheiro em segurança nacional, McMaster, mais o par principesco, querem que isso seja feito com jeito. Chutando as leis internacionais e a justiça, no estilo Trump, seria má estratégia, pois afastaria cada vez mais os aliados dos EUA, com exceção de Israel, Arábia Saudita e emirados do Golfo, governos em baixa perante a opinião pública internacional.

Todas as personalidades anti-Irã defendem armadilhas hábeis que forcem os esquentados iranianos a alguma atitude intempestiva, que possa dar margem às retaliações do império, sem criar muito rumor na comunidade internacional.

Não devemos esquecer o que Rex Tillerson declarou a jornalistas em 19 de abril): “a administração Trump não tem a intenção de passar o pacote do irã à futura administração”.

Vale ressaltar que, em junho, ele informou ao Congresso (Newsweek, 27 de junho de 2017) que a política norte-americana em relação ao Irã estava sendo desenvolvida e a derrubada do regime persa continuava objetivo do governo.

Estas declarações não devem ter pegado bem na Europa. Antes de o governo atual chegar às últimas contra o governo do presidente Rouhani, conviria que ele se justificasse no fórum próprio, a ONU. Provasse que o Irã é tão feio quanto o general James Mattis o pinta.

Não vejo intenções de Trump fazer isso. Talvez ele não disponha de bons argumentos.

James Madison, antigo presidente dos EUA, falou algo que os norte-americanos deveriam levar em conta, diante dos eventos críticos que pintam como possíveis: “se a tirania e a opressão chegarem a este país, será com o disfarce de uma luta contra um país inimigo”.

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Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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