Largando mão

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Por que não falo mais de Temer, Reforma Trabalhista e outros atrasos? Primeiro, porque não acredito mais no facebook/redes sociais como possibilidade de nada que envolva debate. Depois, porque já sofri lá atrás, quando os patos ainda estavam inflados, e ardi antecipadamente - já não fazia sentido esperar o óbvio acontecer para só então arder.

E também porque não acredito na esquerda brasileira, nem em nenhuma alternativa dentre as possíveis - creia, só sou contemplado por uma possibilidade de cenário político que hoje não passa de fantasia. Considero o Brasil morto detrás de uma malha rígida que interdita mais da metade dos por aqui vivos, seja por causa da Globo, que nunca vai abrir mão de sua lobotomia, leia de novo a palavra nunca, seja por causa das milícias religiosas paralelas que hipnotizam amazônias inteiras de famílias e sequestram suas capacidades cognitivas, e não há força capaz de desarticular estas duas frentes.

A educação, que seria nossa reação de longo prazo, não existe, temos um canivete para lutar contra exércitos inteiros e em breve nenhum brasileiro vivo saberá o que foi um dia ter uma educação minimamente decente. E será que valeria falar sobre nosso capitalismo colonial rendido e chantageado, nossa malha judiciária inominável, nossa Amazônia dilapidada ao vivo, nossos índios assassinados diariamente, nosso racismo interno boiando inclusive no facebook?

Vou eu falar de JBS com tanto latifúndio de miséria, lamentar o Aécio quando a capacidade máxima de lamento de um ser humano já não comporta nem 1% do que dá para lamentar em um país? Vou apontar aqui, com notícias que ninguém vai ler, as contradições do país? Nada. Eu quero a discografia do Gilberto Gil, a namorada, um futebol de sábado, o Palmeiras me segura por uma mão, mamãe pela outra, e é por isso que o Brasil ainda é uma opção para mim - por isso e porque sou um duro, ir pra Miami ou Havana custa um pouco de dinheiro, os indignados com cartão de crédito deram sorte nessa.

Menção honrosa às máfias que são a saúde, o agronegócio, o sistema bancário, o esporte, cada um deles, a distribuição de energia, a gestão de segurança e de penitenciárias, as corporações militares e civis, diplomáticas, tudo. Meu irmão me perguntou por que eu não falo nada sobre há tempos. É, BASICAMENTE, por isso.

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Leandro Iamin é jornalista e diretor de conteúdo da webrádio Central3, projeto de mídia independente parceiro deste Correio.

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