Protestos tímidos antecedem aprovação da Reforma Trabalhista

0
0
0
s2sdefault


Foto: Esquerda Diário

Depois de uma opaca greve, que não mobilizou alguns dos principais setores do mundo do trabalho e foi marcada pelo jogo duplo das centrais sindicais, cerca de 400 manifestantes se reuniram na Avenida Paulista para protestar contra a Reforma Trabalhista. Convocado pela Frente Povo Sem Medo, o ato contou com a presença dos militantes do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto) e membros de partidos identificados à esquerda.

“Se as reformas passarem, o Brasil vai parar”, bradavam os manifestantes, que terminaram o ato em frente ao prédio da FIESP, com novas palavras de ordem e um jogral no encerramento.

“Estamos aqui pra protestar contra esse governo e seu congresso maldito. Se aprovarem essas reformas, o Brasil vai queimar. Não estamos de brincadeira, vai queimar!”, gritaram os presentes, puxados por uma militante sem teto, enquanto mais uma vez incendiavam um pato de plástico, símbolo dos protestos convocados pela FIESP que culminaram na queda de Dilma.

Espécie de segundo escalão da atual burguesia brasileira, o empresariado mobilizado em torno da Federação presidida por Paulo Skaf continua com suas pautas em dia: “Reforma política já” era a mensagem apresentada por grandes letras de concreto que recepcionava aqueles que observavam o hall de entrada do seu edifício, protegido por uma fileira de policiais militares na noite de ontem.

Passível de votação nesta semana onde se discute o afastamento Michel Temer, a reforma, em linhas gerais, flexibiliza todos os instrumentos de defesa do trabalhador frente ao patronato e é demonizada por absolutamente todos os setores não empresariais do país.

Os sem tetos do MASP

Enquanto o protesto protagonizado pelo principal movimento de moradia do país se desenvolvia, um punhado de moradores de rua, muitos dos quais abrigados em pequenas barracas de camping que têm se espalhado por todos os cantos da cidade, apenas observava.

Sentado sob um pedaço de papelão, com uma cadeira de rodas posicionada logo atrás de seu corpo, Reginaldo Serra, ex-presidiário de 36 anos (12 de cadeia), era um dos observadores da manifestação. Pai de uma criança cuja mãe morreu no parto, ele atendeu brevemente nossa reportagem.

“Estou há nove meses com esse fixador de tíbia na perna direita (mostra o aparelho de metal instalado em sua perna), e ainda preciso ficar mais dois meses assim. Estava trabalhando de carroceiro há três anos e fui atropelado. Depois pelo DPVAT me disseram que devia ter anotado a placa do carro pra ter acesso a alguma indenização. Como se eu tivesse visto alguma coisa! Trabalhei três anos assim, puxando carroça. Tô no MASP depois de passar um tempo na Santa Cecília (bairro central muito próximo à Cracolândia), porque um amigo disse que aqui estava mais tranquilo”, disse.

Criado em Itaquera, logo que saiu da cadeia foi morar em Caraguatatuba (litoral norte do estado), na casa de sua mãe. Mas nada que garantisse um retorno tranquilo à vida livre.

“Minha mãe é casada com um ex-sargento da ROTA. Quando saí da cadeia fiquei seis meses morando com eles, mas não me entendia com o padrasto, que não admitia uso de drogas. Ele já tinha perdido três filhos para as drogas e não me aceitava como eu era. Como ele tem uma boa pensão e colocou no papel que quando morrer tudo vai pra minha mãe, também achei melhor sair de casa, pois fiquei com medo de ver ele piorar de saúde, morrer e a culpa ser jogada nas minhas costas, de ex-presidiário”, contou.

Reginaldo disse que conheceu “de A a Z” a Cracolândia, agora sob choque militar incentivado pela prefeitura de João Doria, que expulsou seus frequentadores após violenta operação da Polícia Militar na madrugada de 21 de maio, em mais uma ação considerada populista por muitos paulistanos, marcada também pelo pedido de demissão de sua secretária de direitos humanos.

“Só lamento pela prisão dos irmãozinhos, que não têm muito mais o que fazer. Não tem emprego, pessoal vai pro tráfico mesmo”, resignou-se Reginaldo.

A este respeito, diz que já trabalhou para três empresas diferentes enquanto preso, chegando a juntar 20 mil reais, além de ter feito cursos profissionalizantes.

“Trabalhei pra Bracol, que faz botas, inclusive pra militares, e a Regina, empresa de embalagens. Essa empresa mandava peças soltas e a gente montava o produto lá dentro, antes de voltar pra fora e ir pro mercado”, contou.

Enquanto o prefeito de São Paulo fala de atendimentos de saúde e oportunidades de reinserção social que até agora não se verificaram, nosso entrevistado comentou suas experiências com a assistência social.

“Já tive contato com pastoral e agente social, esse pessoal de ONG, acho que é só areia no olho, sempre tem um alguma coisa por trás da ajuda, tipo advogado de porta de cadeia. Em relação à igreja tem vezes que pedem pra você fazer atividade religiosa também, por isso nunca consegui ficar muito em abrigo. E olha que sou diácono afastado da Assembleia de Deus...”.

Encerradas as perguntas, Reginaldo ofereceu um jantar do Outback embalado na caixa da franquia e fez questão que experimentássemos ao menos a cebola empanada.

Feitos o agradecimento e a despedida, o novo morador do vão do MASP soltou uma frase que sintetiza o distanciamento de tantos brasileiros de uma realidade que lhes parece eternamente distante e inútil. “Pra mim não tem Temer, Lula e Dilma que resolve. Mas o Temer... Por mim podia enterrar esse aí vivo”, encerrou.

Ainda a reforma


Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Quanto à proposta de flexibilização total da legislação do trabalho, acompanhada de outros projetos que vão na mesma direção de tentar salvaguardar as taxas de lucratividade de um empresariado sem projeto de país, mas que manda no Congresso quase sem mediações, foi votada e aprovada na noite desta terça.

Enquanto isso, Sergio Zveiter (PMDB-RJ), deputado relator do pedido de impeachment de Temer na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), dá parecer favorável à acusação de corrupção que paira sob o mandatário e o país já traça o perfil nada popular de Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados e possível sucessor presidencial em caso de queda do ex-vice de Dilma.

Como resposta, passeatas continuam sendo feitas pelo Brasil, como a dos metalúrgicos do ABC Paulista, que pararam parcialmente a Rodovia Anchieta na manhã desta terça. Outros protestos se desenrolam em regiões periféricas da metrópole, além de Brasília, em frente ao Senado. Todas com baixa adesão e nenhuma contribuição das centrais sindicais.

No momento em que fechávamos esta matéria, a câmara alta do Congresso dava início à votação da reforma, repudiada também por organizações como a Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho (Anamatra), mesmo sem dispor de quórum mínimo. Na sequência, as senadoras da oposição Fátima Bezerra (PT-RN), Gleisi Hoffmann (PT-PR), Vanessa Graziotin (PCdoB-AM), Regina Sousa (PT-PI) e Lídice da Mata (PSB-BA) se sentaram nas cadeiras do púlpito principal, onde os condutores da sessão parlamentar se sentam, e não permitiram seu início, até que as luzes foram apagadas e a atividade suspensa. Horas e negociações depois, os trabalhos foram retomados e a Reforma aprovada por 50 votos a 26.

Leia também:

“Não dá pra sair da crise apenas pela via institucional”

Brasil está atado pela ilegitimidade das instituições e inércia de uma esquerda antidemocrática

“O PT já cumpriu seu ciclo na história do Brasil”

“Diretas Já são muito pouco diante das nossas necessidades”

Gabriel Brito é jornalista e editor do Correio da Cidadania.

Para ajudar o Correio da Cidadania e a construção da mídia independente, você pode contribuir clicando abaixo.

Relacionados