Estados Unidos-Brasil: a frustração mútua em 2011

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Na segunda metade de março de 2011, a euforia ainda ecoava entre os trabalhistas pátrios. O crescimento no ano anterior de 7,5% estimulava o bem estar político. Com a terceira vitória presidencial consecutiva, a agremiação petista, consorciada vivamente com a peemedebista, havia superado a marca da socialdemocrata tropical, beneficiada pela emenda da reeleição.

A curta visita do mandatário dos Estados Unidos, Barack Obama, ao Brasil reiterava a sensação de prestígio. Na vinda ao país, o primeiro visitado no continente sul-americano, a presidente Dilma Rousseff recebeu-o não no aeroporto da capital, mas no próprio palácio do Planalto.

De lá, o dirigente norte-americano rumaria com a família para o Rio de Janeiro, onde conheceria um bairro da zona oeste, Cidade de Deus, sob supervisão de uma Unidade de Polícia Pacificadora – UPP. Ciceroneado pelo governador, Sérgio Cabral, e pelo prefeito, Eduardo Paes, ele pôde conferir a aparente estabilidade da cidade. No entanto, seu discurso à população não seria em praça aberta, porém no Teatro Municipal por segurança.

A par da verificação do suposto avanço brasileiro, interessava ao governo a recomposição da distribuição de poderio na arena global. Aos seus olhos, isso se materializaria na consequente modificação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (CS/ONU), ao ampliá-lo. De modo acessório, reformas poderiam estender-se a outros órgãos como o Banco Mundial (BM) e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

De maneira retórica, Washington apoiava o pleito de Brasília, satisfeito, portanto, com a postura da primeira potência. Na prática, ambos representavam uma peça teatral diplomática. A deferência da Casa Branca ao Planalto era menor do que a concedida à Índia militarmente nuclear em 2010. http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2011/03/19/obama-demonstra-apreco-por-aspiracao-brasileira-ao-conselho-de-seguranca-da-onu.

Na realidade, os Estados Unidos se satisfaziam com o Brasil como membro do G-20, em decorrência do aspecto econômico, não castrense como seria o caso de eventual participação através de assento onusiano, responsabilidade para a qual o país não se credenciava à altura se comparado seu perfil com o dos demais integrantes permanentes, independente do convívio pacífico fronteiriço.

Com a atenção ao Brasil, mas com a concentração na Líbia, Barack Obama não mencionou a abstenção do país – somada à chinesa e russa - na votação de proposta do Conselho de Segurança sobre a crise política da sociedade líbia, uma das ditaduras mais longevas naquela época – desde 1969.

Por meio da decisão onusiana, a comunidade internacional garantiria o uso de todas as medidas necessárias para reprimir a violência do regime local – em sua justificativa, o Itamarati havia afirmado preferir em primeiro lugar o diálogo.

Em termos práticos, as potências ocidentais poderiam agir de acordo com seus interesses específicos, em especial os energéticos. O resultado tem sido desde aquele período um país com várias formas internas de conflito, como étnicos e religiosos, sem perspectiva de paz no curto prazo.

A par da questão líbia, a chancelaria estadunidense punha em foco em solo brasileiro três temas: a venda de dezenas de aviões militares, a participação na construção da infraestrutura dos Jogos Olímpicos de 2016 e a presença na exploração dos recursos petrolíferos da área do pré-sal.

Naquele momento, nenhum dos dois países logrou êxito em suas reivindicações imediatas: o Brasil aspirava-as na política; os Estados Unidos, na econômica.
Enfim, o desapontamento mútuo encorajaria a modificação na movimentação diplomática de ambos. Para tanto, aguardava-se no segundo semestre de 2011 a ida da presidente Dilma Rousseff a Washington.

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Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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