Labirintos do fascismo

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Permitam-me uma opinião dissonante: nada me entristeceu e revoltou mais, nos últimos tempos, do que o caso de tortura do molecote Ruan, próximo do centro de São Bernardo do Campo. Que bom que houve uma reação de solidariedade prática a ele e sua família, puxada pelo coletivo Afroguerrilha: isso sempre é o mais importante - gestos práticos para com as pessoas diretamente envolvidas, implicadas, atingidas. Ao menos tentar reparar um pouco tamanho sofrimento, brutal, inominável.

Quero, no entanto, falar também do tatuador Ronildo Moreira de Araújo, 29 anos, e do seu vizinho, Maycon Wesley Carvalho dos Reis, 27 anos (na foto), moradores daquela mesma quebrada do moleque, que fizeram a atrocidade com ele e foram presos em flagrante por tortura, na noite de sexta-feira (9).

Que seja levada adiante a melhor forma de responsabilização e justiça em relação a estes dois rapazes (embora eu saiba que não será no Sistema criminal, penal e carcerário brasileiro que a melhor forma de justiça se efetivará, muito ao contrário).

Eu sei, o ímpeto de muitos de nós, compadecidos e indignados pelo sofrimento de Ruan, é, ato contínuo, querer "justiçar" esses "monstros", "vagabundos" que foram “capazes de fazer uma crueldade desta”. "Prisão perpétua neles", "tem que tatuar na testa deles também", "tem que torturar até morrer", "quero que eles se fodam", "eles não são humanos" etc. etc. Foram as frases que li de muita gente que eu acredito querer uma transformação social semelhante à que busco contribuir cotidianamente.

Pois é aqui, o fígado das pessoas, inclusive o nosso fígado, o terreno prioritário onde opera e impera o punitivismo e o fascismo que se alastram a cada dia - e as redes sociais, histéricas, frenéticas e hiperpolarizadas são o catalisador ideal para esta ideologia prática e crescente no Brasil (e no mundo).

Não há tempo nem espaço para qualquer ponderação: é preciso aderir, curtir e compartilhar alguma das respostas prontas à disposição, que saltam como pop-ups em nosso feed (sim, nos alimentam voluntária e, sobretudo, involuntariamente).

Desumanizá-los, desejar a prisão dos dois, se possível com tortura, olho por olho, seguida de morte, com algum requinte, desses dois infelizes? Vai aliviar o quê? Sede de "justiça"? Eu sei que é tentador, e é a primeira reação às mãos, estimulada por mil mecanismos. “Qual a alternativa?”, nos perguntamos. E o atalho é sempre este, à mão, imediato, mais fácil do que buscar respirar uma vez mais, questionar de novo, enxergar outros lados, ir mais a fundo.

Aqui e agora: vai ajudar em quê no entendimento, na organização e na superação (coletiva) das inúmeras questões históricas que levam vários rapazes, trabalhadores, negros inclusive, moradores da periferia também, como Ronildo e Maycon, a agirem desta forma diante de tantas situações afins? Vai contornar o fato de nós não contarmos hoje com outras formas de resolução de tretas ou conflitos como este, baseadas em outras concepções práticas de autodefesa e justiça efetiva (reparadoras, restaurativas, realmente autônomas e libertadoras)? Não vai. A soma é toda negativa.

A única certeza que eu tenho é que esta energia figadal propagada, os mecanismos e instituições punitivistas e fascistas estimuladas e retroalimentadas por elas (cada apelo emocional da vez), os chamados hateclicks, voltam contra nós e o nosso povo ainda mais virulentos.

Não é à toa que as frases ouvidas contra os dois rapazes também soam tão familiares às frases direcionadas diuturnamente pelo outro lado (?) da bancada, contra os "defensores dos direitos dos manos", "defensor de bandido", "pega pra criar", "tatua na testa que defende bandido também", "tem que matar junto com os vagabundos".

E não é de hoje que alertamos para este fato... Mas as fogueiras seguem se multiplicando, de um lado e "de outro", das redes e por todos estes muros, intransponíveis.

Danilo Dara é aprendiz de historiador e militante do Movimento das Mães de Maio.

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