13 de junho de 2013

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Todo dia foi uma preparação para os protestos que começariam no final da tarde. O clima estava tenso, mas a situação parecia um pouco mais promissora com a adesão das organizações de direitos humanos que haviam se manifestado nos últimos dias, denunciando a violência policial e defendendo o direito de protesto.

No dia 11, no Terminal Bandeira, a violência tinha sido grande, um oficial da PM tinha sido agredido, o Pedrão tinha sido preso e o Legume tinha sido ferido. De manhã, abrimos o jornal e vimos a Folha e o Estadão pedindo uma ação enérgica da polícia, assim como o Bonner e o Casoy tinham pedido nos telejornais no dia anterior.

A concentração, em frente ao Theatro Municipal, estava enorme e dava a impressão que não apenas os autonomistas e os militantes do PSOL estavam lá, mas literalmente a esquerda inteira, todo mundo que participava de protestos finalmente tinha resolvido aderir. Se falava em 10, depois em 20 e finalmente em 30 mil pessoas - um número muito elevado para o mundo que existia antes de junho.

Pela primeira vez eu vi amigos da juventude do PT que tinham rompido com o resto do partido sobre a questão da tarifa e timidamente levavam uma bandeira, sob o olhar de suspeição dos demais. Quando a passeata saiu, o trajeto foi todo muito lento, com uma disputa pela frente de ato (e creio que também pela definição do percurso) entre o MPL e os partidos.

Lá no começo da Consolação, o ato parou. Uma comissão estava negociando com a PM que fazia uma barreira um pouco acima da Maria Antônia. Os punks e o MPL tinham retomado a frente do ato e as pessoas se dispersavam um pouco enquanto aguardavam, olhando tensas para a grande quantidade de policiais em formação rua acima. De repente, sem qualquer aviso ou motivo aparente, escutamos uma bomba. E outra, e outra.

As pessoas gritavam "Sem violência! Sem violência!" e a polícia respondia com muitas bombas de estilhaço e gás lacrimogênio. Uma grande parte do ato entrou para a Bela Vista e começou a correr, tentando se reagrupar adiante. Por todas as paralelas e as transversais da Consolação havia gente. Ninguém conseguia mais encontrar os organizadores ou a frente de ato.

Com alguns amigos da geração mais antiga tentamos reagrupar umas pessoas. Um grupo do MTST reagiu com desconfiança. Descobri que com eles estava o Gabriel que eu não via há muitos anos. Desabafamos aliviados que não tínhamos ideia do que fazer, para onde conduzir aquela multidão desorientada.

Não havia saída. A polícia tinha se espalhado por toda a Bela Vista e para onde as pessoas corriam se deparavam com uma tropa ou, pior, com a cavalaria. Não havia rota de fuga. O plano não era dispersar o ato, era agredir, era assustar, era matar aquela rebelião dos jovens contra o aumento das passagens que estava obviamente saindo do controle.

Não havia decisão racional ou responsável ali, o mais sensato era se proteger. Saí com a Mafê e outros amigos tentando achar uma rota de fuga ou um abrigo. À medida que postava o que acontecia no Twitter e no Facebook, uma aluna que morava por ali ofereceu abrigo. Será que conseguiríamos chegar até lá? Subimos até a Fernando de Albuquerque, desviando das bombas. Uma pizzaria no meio do caos mantinha as portas abertas. Entramos e convencemos o dono a fechar as portas, já que cedo ou tarde o gás lacrimogêneo iria entrar no ambiente e sufocar todo mundo. Éramos os únicos clientes. O dono deixou uma pequena porta entreaberta e fomos chamando amigos e transeuntes para se abrigarem ali. Foi nosso bunker.

A Helena terminou chegando com seus amigos e depois veio um grupo grande do cursinho Acepusp que ficou desconfiado do cara de camisa que ofereceu abrigo. Vimos ao vivo, pela TV da pizzaria, a volta que o Datena tomou dos espectadores. Acompanhávamos apreensivos a cobertura dos jornais e às vezes saíamos para buscar alguém nas redondezas. Os telefones ficavam o tempo todo apitando com notícia de gente presa, de gente ferida e de gente de quem não se sabia o paradeiro.

Acho que ficamos ali umas duas horas ou mais. Quando parecia seguro, organizamos uma saída em grupo e tudo ali na região era uma devastação só. Pouca gente na rua, muitas cápsulas de bombas e balas de borracha, vidros quebrados por toda parte. Fomos para casa fazer a contagem dos feridos a partir de uma comissão que passaria pelos hospitais. Passamos a noite compartilhando relatos, fotos e vídeos do horror que vivemos. Naquela noite ninguém dormiu.

Leia também:

Manifestações pelo transporte coletivo revigoram juventude e lutas sociais do país – publicado em 14 de junho de 2013

Pablo Ortellado é filósofo, ativista do software livre e professor da USP. Relato publicado em seu facebook.

 

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