Não há como empoderar sem romper poderes

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Não há que se falar em verdadeiro empoderamento feminino uma vez a mulher ocupando espaços já antes ocupados por mulheres, ainda que aquela mulher pontualmente não tivesse acesso àquele espaço.

A fim de se falar em empoderar as mulheres, faz-se necessário um novo conceito. Que as mulheres ocupem espaços até então ocupados apenas, ou basicamente, por homens.

Empoderar uma mulher neste viés passa a ser um conceito coletivo e não pontual.

De suma importância é colocar a mulher em espaços onde não havia mulheres. E isto está longe de ocorrer, sendo necessário um novo percurso a fim de perseguir o novo conceito, fundado na antropologia e em estudos de nascimento de conceitos culturais, ou sejam romper com pré-conceitos arraigados na "cultura".

E, aonde se encontra este empoderamento?

Antes de mais nada, devemos falar das mulheres ainda mais vulneráveis, seja pela sua condição econômica, seja pela cor de sua pele, procedência nacional, ou opção sexual. Estas sofrem ainda mais as dificuldades do percurso, que neste caso se somam ao preconceito de gênero, tornando seu caminho ainda mais árduo e tortuoso e impedindo ou dificultando sua ascensão.

Exemplo: mulheres economicamente bem sucedidas também sofrem violências, mas as de condição socioeconômica desfavorável se encontram em posição INFINITAMENTE mais desfavorável em relação às primeiras.

Agora adentremos nos órgãos de poder representativos da sociedade: na cúpula dos órgãos de poder está o verdadeiro empoderamento feminino. E tal cúpula é ocupada por homens quase totalmente.

No que se refere ao Ministério Público, por exemplo, quantas procuradoras de justiça atingiram o cargo de Procuradora Geral nos últimos dez anos? Quantas mulheres temos como ministras dos Tribunais de Contas (TC)? Quantas mulheres temos como Conselheiras dos mesmos? E, quando Conselheiras, quantas vezes elas chegaram à presidência dos TC? Quantas desembargadoras são eleitas presidentes dos Tribunais de Justiça Estaduais? No que tange ao legislativo, quantas mulheres nos últimos cinco anos chegaram à Presidência da Câmara?

A fim de abranger mais o tema ainda questiono: quantas mulheres foram técnicas dos grandes clubes de futebol ou equipes masculinas de outras modalidades populares?

A resposta a tais questões é preponderantemente negativa, ou seja, os casos positivos são isolados. Será por falta de capacidade? Ou por questões culturais tão arraigadas que as próprias mulheres raramente chegam a pleitear estes espaços?

Há um longo caminho a ser percorrido, bem como um objetivo a ser alcançado.

O empoderamento não se restringe a quem ocupou o espaço, mas a todas que se encontram representadas naquela situação, antes não ocupada por mulheres, devido a questões socioculturais que nada têm a ver com a capacidade técnica.

Muitas vezes a própria mulher não chega a galgar tais posições, sequer questiona por que não as ocupa. Está tão satisfeita em ocupar um cargo de deputada, por exemplo, ou presidente de um determinado partido, sem chegar a questionar a possibilidade de ocupar os órgãos da cúpula.

O empoderamento amplo não se restringe aos órgãos da cúpula dos poderes, mas é necessário ressaltar que são os espaços ocupados única ou basicamente por homens, como o exemplo clássico do técnico de futebol.

As restrições legislativas que impedem as mulheres de ocuparem tais cargos, quando existentes, não podem se fundar em fatores culturais.

Exemplifiquemos: uma mulher, até os dias atuais, não pode ser doadora de espermas, por questões biológicas que a limitam, mas pode ser técnica de futebol ou Comandante das Forças Armadas.    

É deste empoderamento que estou a falar. A fim de se empoderar faz-se necessário o rompimento com poderes pré-existemtes.

Não há que se falar em ocupar espaços coadunando com os limites desta mesma ocupação, limites postos a impedir este feito.

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Melina Pecora é médica, advogada, possui trabalhos científicos publicamos internacionalmente pela Ed. Monduzzi, além de trabalhos publicados em Roma e Érece.

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