O ambiente exige respeito

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Grandes empresas de petróleo, gás e carvão investiram quase 11 milhões de dólares (pesquisa da Comissão Eleitoral Federal) nas carreiras de 22 senadores republicanos.

O lucro foi compensador: os 22 lutaram bravamente para estimular Trump a sair do acordo de Paris, que visa reduzir o consumo mundial de combustíveis fósseis, que os financiadores produzem.

Na véspera da decisão presidencial, eles – todos republicanos – enviaram uma carta ao presidente que dizia: “nós o encorajamos fortemente a retirar completamente os EUA do acordo de Paris”.

Por essas e por outras, foi o que o presidente fez. E assim deu mais um grande passo na sua campanha para rasgar o Plano de Energia Limpa, do ex-presidente Obama, conjunto de regulamentos e diretrizes a estabelecer limites para as emissões e outras disposições onerosas às indústrias de combustíveis fósseis.

Ao cair fora de Paris (sempre uma ideia de mau gosto), The Donald rompeu um compromisso assinado por Barack Obama, em nome dos EUA. Passa para o exterior a ideia de que Tio Sam não tem palavra. E de que não se importa com a mudança do clima, problema que preocupa, e muito, os demais 194 signatários do acordo.

Na hora de pedir apoio desses países em questões internacionais de interesse dos EUA – combate ao terrorismo, enfrentamento da Coreia do Norte, acordos com a indústria dos EUA, aumentos da contribuição à OTAN, acordos econômicos e militares, disputas com a Rússia etc. eles poderão dar uma banana para The Donald.

Ou, ao menos, apresentar inesperadas resistências à vontade imperial nessas questões.

Talvez aí ele perceba como foi errado desprezar Paris (sempre prova de mau gosto). Breve, o mundo inteiro vai sentir a magnitude desse erro.

Veja o que o deverá acontecer, graças à fuga estadunidense, de acordo com análise do think tank Clima Interativo.

O acordo previa limitar as emissões mundiais em 2 graus Celsius até 2030, em relação às emissões produzidas na era pré-industrial. Os EUA responderiam por 20% desse limite. A retirada norte-americana aquecerá o mundo em mais 0,3 graus Celsius, em 2100. O que deve contribuir para aumentar a temperatura global em acima dos 2 graus Celsius previstos, provocando destruidoras ondas de calor, um aumento no nível do mar, o deslocamento de milhões de pessoas e a perda de ecossistemas como os recifes de coral (The Guardian, 2/06/2017).

Embora The Donald às vezes se esqueça, os EUA são parte do mundo. Além do que, em 2100, as consequências da sua decisão irracional atingirão os norte-americanos tanto quanto, digamos, os senegaleses.

Portanto, os EUA serão responsabilizados e ganharão o título de país mais odiado em todo o mundo (acho que até em Israel). Com o ônus do tamanho dessa posição.

E aí, adeus império. Certos países podem compartilhar, ao menos em parte, da futura ojeriza planetária ao Tio Sam.

De acordo com David Konisky, cientista da Escola de Assuntos Ambientais Públicos da Universidade de Indiana, “a retirada dos EUA dará licença para que algumas nações ponham um breque nos esforços de descarbonização, o que seria desastroso para frear o aquecimento global”.

Vergonhosamente, o Reino Unido está sendo influenciado pela decisão. Há razões para se crer que Theresa May seja uma fiel seguidora de Donald Trump, mesmo em questões ambientais.

A primeira-ministra conservadora já não parecia feliz com as medidas da União Europeia em defesa do meio ambiente.

Documentos secretos revelados ao Energydeske (Greenpeace) e apresentados no seu site (de 28 de maio), mostram que o governo tentou enfraquecer o esboço das regras da União Europeia, focadas na energia e no clima, mesmo antes do Brexit. Para ela, as metas para expandir o uso das energias renováveis e aumentar a eficiência da energia, propostas pela eurocomissão, deveriam ser reduzidas, não-mandatórias ou até suprimidas.

Enquanto a União Europeia queria que seus países definissem para 2030 uma meta não vinculativa de 30% de aumento na eficiência da energia, o Reino Unido preferia apenas um índice de 27% e não-mandatório.

Lamentável, pois apenas 1% de melhoria na eficiência da energia significa economizar anualmente emissões de CO2 que equivalem ao despejado no ar por 12 milhões de automóveis, além de evitar milhares de mortes prematuras, causadas pela poluição do ar.

Solidária às posições antiambientalistas de Trump, Theresa May recusou-se a assinar uma declaração a favor do acordo de Paris, proposta pela França, Alemanha e Itália.

Fontes de Downing Street, 10 (gabinete da primeira-ministra), deram explicações que não justificavam nada: o Canadá e o Japão também não assinaram...

Por sua vez, a própria May alegou que preferira levar pessoalmente a Trump o seu desapontamento.

O ex-líder dos trabalhistas, Ed Miliband, não deixou passar batido: “desapontamento a gente sente quando nosso time de futebol perde. Não quando alguém toma uma decisão tão devastadora como esta”.

De todos estes fatos, podemos tirar várias conclusões. A mais evidente consiste num apelo ao povo norte-americano. Segurem Trump antes que ele acabe com a civilização.

Leia também:
Trump bombardeia o clima

Luiz Eça

Começou sua vida profissional como jornalista e redator de propaganda. Escreve sobre política internacional.

Luiz Eça

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