A Guerra do Iêmen dura já dois anos

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A Arábia Saudita começou as hostilidades atacando o país então dominado pelos houthis, um movimento xiita. A causa da ingerência saudita foi repor no governo o presidente Hadi, afastado por uma revolução promovida pelos houthis.

Por sua vez, ele também subira ao governo por uma revolução, esta contra o então ditador, Saleh. Eleito para um mandato de dois anos, Hadi permanecia na presidência dois anos depois do fim do prazo do seu mandato, quando os houthis o tiraram do poder.

Durante a administração do presidente derrubado, o Iêmen, um dos países mais pobres do mundo, fora virtualmente um satélite da Arábia Saudita. Não admitindo perder sua posição hegemônica sobre o Iêmen, o reino formou uma coalizão com mais 8 países, sunitas como ele, para repor Hadi no governo.

A coalizão saudita adotou uma estratégia militar comum nas guerras da Idade Média. Quando as nações não pensavam em coisas como Direitos Humanos, leis internacionais, Convenção de Genebra etc.

Ao deparar com uma cidade inimiga fortemente defendida por altas muralhas, arqueiros certeiros e combustível em chamas jorrando das muralhas, os exércitos muitas vezes acabavam desistindo de um ataque direto.

Preferiam cercar completamente as muralhas, impedindo a entrada de alimentos, água e remédios. Enquanto isso, lançavam enormes pedras, usando catapultas, para destruir tudo no interior da cidade.

Morrendo de fome, corroídos por doenças e ferimentos, os defensores eram forçados a se render.

Os sauditas e aliados estão adotando uma estratégia semelhante. Impõem o mais intenso sofrimento ao povo nas regiões sob controle dos houthis, destruindo a infraestrutura de produção de alimentos, de transporte e dos serviços de saúde.

O Iêmen importa 95% dos alimentos básicos que seu povo consome e praticamente todos os combustíveis e produtos médicos.

Navios de guerra da coalizão inimiga passaram a bloquear totalmente a entrada de cargueiros carregados de suprimentos. Sob pretexto de procurar armas, a coalizão saudita obriga esses navios a ficarem meses parados. O resultado é que muitos alimentos se estragaram, o que causou um aumento superior e 33% no preço dos produtos que restaram. Que são em quantidade insuficiente para atender ao consumo. Cada dia reserva uma luta para as pessoas procurarem alimentos, muitas vezes sem sucesso.

Caminhões, parados por falta de combustível, deixam hospitais e centros de saúde com escassos recursos médicos. Os índices de iemenitas mortos por doenças que poderiam ser evitadas são assustadores e tendem a piorar continuamente.

“É a maior crise de segurança alimentar do mundo,” diz o general Jan Egeland, secretário-geral do Conselho de Refugiados da Noruega.



Enquanto isso, modernos bombardeios sauditas e dos Emirados Árabes Unidos, seu principal aliado, vêm bombardeando implacavelmente pontes, estradas, mercados, hospitais, instalações portuárias, escolas, centros urbanos e até um funeral, quando mataram 138 civis. Isso chocou o mundo e levou o presidente Obama a suspender uma nova remessa de bombas à coalizão e a reduzir o apoio logístico e de inteligência. Mas seu governo não deixou de continuar reabastecendo os bombardeiros sauditas em pleno voo, para não perderem tempo nos seus ataques aos iemenitas, com bombas made in USA.

A estratégia militar da coalizão saudita não conseguiu obter rapidamente a esperada vitória. Hoje, com dois anos de guerra, os houthis, usando táticas de guerrilhas, ainda dominam grande parte do norte do Iêmen, inclusive a capital Sanaa.
Mas as estatísticas são terríveis.

Cerca de 10 mil civis já foram mortos, entre eles mais de 1.500 crianças. As Nações Unidas informam que 62% da população não têm condições de acesso à alimentação, sendo que 1/3 se encontra à beira da fome; 17 milhões de pessoas não sabem quando será sua próxima refeição. E 7 milhões estão perto de morrer por não terem o que comer (The Guardian, 31 de outubro de 2016).

Como em todas as guerras, as crianças são as principais vítimas; 500 mil delas estão tão mal alimentadas que provavelmente morrerão logo se não receberem cuidados urgentes, como informa a agência de crianças da ONU e o World Food Program.

A província de Sanaa, principal concentração dos rebeldes houthis, é a cidade com o índice de crescimento das crianças de 8 a 10 anos mais baixo em todo o mundo.

A ONU calculou em 462 mil o número de crianças com menos de cinco anos que já sofrem de severa e aguda má nutrição, o que as coloca em severos riscos de morrer de fome ou de doenças associadas à má nutrição.

Numa reunião com líderes da Europa, o secretário da ONU, Antonio Guterres, informou: “em média, uma criança de menos de cinco anos morre no Iêmen a cada 10 minutos, por causas que poderiam ser evitadas. Isso significa que, durante esta conferência, 50 crianças morrerão no Iêmen, sendo que todas essas mortes poderiam ter sido evitadas”.

Ele apelou para que as nações, principalmente as mais ricas, doassem 2 bilhões de dólares para suavizar a crise iemenita.

A estratégia saudita para vencer os houthis, matando de fome e por doenças civis iemenitas, principalmente crianças, pode atingir agora um ponto de extrema devastação.

O porto de Hodeida está para ser atacado pelo exército da coalizão liderada pela Arábia Saudita. É o último porto em mãos dos houthis. Somente por lá chegam alimentos, remédios e combustíveis, de que o povo tanto carece.

A aviação saudita já bombardeou Hodeida várias vezes. Foram destruídos todos os guindastes usados para o desembarque de containers das cargas dos navios, um armazém do World Food Program, um ancoradouro, o armazém da autoridade portuária e o edifício da alfândega.

Os sauditas estão prontos para o ataque final, que será anfíbio. A ONU diz que, caindo Hodeida, “a fome está iminente”. Uma fome generalizada que pode ser acelerada com a ajuda do presidente dos EUA, Donald Trump.

The Donald deu ordens para se acelerar a venda de um bilhão e cem milhões de dólares em mísseis-guiados de alta precisão.

O general James Mattis, secretário da Defesa, já havia se pronunciado a favor de um maior engajamento dos EUA na guerra do Iêmen.

E o general Votel, chefe do Comando Central norte-americano explicou por que. Seria de “vital interesse” dos EUA, para impedir o Irã de controlar o estratégico estreito de Bar-el-Mandeb, através dos houthis, seus aliados.

Argumento pra lá de discutível. Ao que se sabe, os houthis, embora recebendo armas iranianas, são muito independentes, não se guiam pelas orientações de Teerã.

Testemunhos de jornalistas e experts nas questões do Iêmen sustentam que grandes quantidades dos armamentos dos houthis foram conquistados em batalha com as forças de Hadi e do seu antecessor, Saleh. Eles não dependem muito dos armamentos enviados pelo governo de Teerã.

Sem contar que, ganhar o litoral de Bar-el-Mandeb é missão quase impossível, devido à superioridade militar da coalizão saudita, apoiada pelos EUA. Ainda mais agora que Trump e seus generais decidiram investir ainda mais recursos militares na guerra.

Antes de se comprometerem excessivamente, o presidente e o Pentágono deveriam refletir um pouco.

Valeria a pena continuar submetendo todo o povo iemenita aos horrores desta guerra para evitar um prejuízos tão discutível?

Anteriormente, autoridades estadunidenses já estiveram diante de uma opção assim. Depois da derrota de Saddam Hussein na primeira guerra do Golfo, foram impostas sanções ao Iraque que provocaram a morte de 500 mil crianças, mais do que o total das crianças mortas em Hiroshima.

Numa entrevista, Lesley Stajhl perguntou a Madeleine Albright, então secretária de Estado do governo BilI Clinton, se teria valido a pena aplicar essas sanções.
Madeleine respondeu: “Eu penso que foi uma dura escolha, mas o preço nós pensamos que valeu à pena”.

Que Trump não siga esse mau exemplo.

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