Trump: segundo ataque à Síria

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Na madrugada da última quinta-feira (6 de abril de 2017), o 45o presidente dos EUA, cargo cujos poderes são ditatoriais ao estilo romano, auferidos pelo Ato Patriótico desde 2001, Donald Trump ordenou um ataque de 59 mísseis “tomahawk” contra uma base militar na Síria, sem consultar o Congresso dos EUA e a ONU. Trump alegou que era uma retaliação a um ataque com armas químicas realizado a uma cidade dominada por “rebeldes”, que teria sido realizado pela aviação militar síria. Em nenhum momento, o ditador dos EUA apresentou provas irrefutáveis de que o governo do Ba’ath sírio fosse mesmo o responsável pelo bombardeio com gás tóxico.

Não foi a primeira vez que os EUA atacam um país do Oriente Médio usando o argumento de combater o uso de armas químicas contra civis como pretexto para agir militarmente na região. Em julho de 1988, nos estertores da Guerra Irã-Iraque (1980-88) o então secretário de Estado George Shultz acusou, sem apresentar provas, o então presidente do Iraque, Saddam Hussein, de lançar gás sarin contra os curdos goranis iraquianos no vilarejo de Halabja, no norte do país mesopotâmico.

Em janeiro de 1991, os EUA atacariam o Iraque, acusando mais uma vez o presidente iraquiano de ser um “cruel e sanguinário ditador que massacra sua própria população” (em clara referência à suposta autoria do ataque químico à Halabja). Mais de 150 mil iraquianos foram exterminados pelos ataques ianques entre janeiro e fevereiro de 1991, sem que a hiperpotência militar obtivesse uma vitória.

Novamente, em 2002, quando o Iraque já estava arrasado por 11 anos de embargo sem precedentes, no qual até remédios e alimentos foram proibidos de serem comercializados, e o país estava sob severa inspeção da ONU de seu arsenal de armas não convencionais, o então secretário de Estado, o general da reserva Colin Powell (derrotado na Guerra do Golfo) repetiu a mesma atitude de seu antigo antecessor (Schultz) e acusou o país mesopotâmico de possuir “armas de destruição em massa” no Conselho de Segurança da ONU, sem apresentar qualquer prova consistente, a não ser um relatório da CIA. Este, comprovou-se pouco tempo depois, era sido forjado. Sob esta justificativa forjada, os EUA promoveram uma segunda grande invasão e ocupação do Iraque, em março de 2003, que exterminou mais de 1,5 milhão de iraquianos até os dias de hoje.

Como até amplos setores da esquerda ocidental comungaram com a propaganda de guerra do Pentágono nas “campanhas” no Iraque, em agosto de 2013, já durante a Guerra “Civil” da Síria, iniciada em 2011, os EUA acusaram o presidente Bashar al-Assad de usar armas químicas num ataque a um subúrbio de Damasco, causando a morte de dezenas de pessoas. Na época, o presidente-ditador ianque Barack Obama não apresentou qualquer prova convincente, tendo recusado seu pedido de autorização para a guerra contra os sírios ao Congresso.

Obama acusou Assad de ultrapassar a “linha vermelha” determinada por Washington D.C., que estipulava que se o “regime” do Ba’ath sírio atacasse sua própria população com armas não convencionais, os EUA reagiriam militarmente. Preso ao próprio discurso de guerra, mas sem condições de efetivá-la, Obama encontrou o apoio da diplomacia russa que negociou com o presidente sírio a retirada de todo arsenal de armas químicas do país árabe, o que acabou ocorrendo para surpresa do governo ianque.



A grande e permanente ameaça

Os EUA quase entraram abertamente em guerra com a Síria, o que levaria certamente ao confronto militar direto com o Irã, a Rússia e a China, os maiores aliados do governo sírio, podendo fazer eclodir uma 3ª Guerra Mundial aberta e nuclear. Esse foi o temor de Obama, afinal, mais de 12 navios de guerra russos e mais outros dois navios de guerra chineses tinham se aproximado da costa síria. Ele ordenaria o disparo de alguns mísseis à república árabe, interceptados pelos russos, no ápice da crise, em setembro de 2013.

O que observamos no ataque ianque no dia 6 de abril como suposta resposta ao ataque com armas químicas a uma cidade na província de Idlib, no noroeste sírio, em 4 de abril de 2017, foi, portanto, a repetição do que se tornou um “procedimento operacional padrão” dos EUA nas guerras que promovem nos países inimigos.

A reconquista síria da cidade de Aleppo, a maior do país árabe, no final de 2016, além de ter sido uma grande vitória para a resistência à hegemonia ianque na região, fez com que “rebeldes” (membros da al-Qaeda e derivados, todos apoiados pelos EUA e seus vassalos e clientes regionais) fugissem para a província de Idlib, onde passaram a ser contra-atacados pelas forças governamentais.

Os terroristas estavam sendo encurralados e derrotados pelas tropas sírias, não havia motivos, portanto, para que as tropas sírias usassem armas químicas, pois poderiam sofrer dura resposta militar do Ocidente, até porque há tropas ianques em solo sírio.

Desta forma, o ataque com gás venenoso à cidade de Khan Shaykoun, na província de Idlib, sem que se tenha até o presente momento comprovado incontestavelmente a autoria do governo sírio, foi muito conveniente aos EUA para que o novo presidente-ditador Donald Trump mostrasse que é um líder “durão” em contraste ao seu antecessor Obama, a quem sempre acusou de fraqueza durante a polêmica campanha eleitoral em 2016. Em cem dias de governo, Donaldo Trump desfruta dos mais baixos índices de popularidade de um presidente, além de sofrer uma campanha feroz da mídia liberal e conservadora contra seu governo, que lhe proporcionou várias derrotas no Congresso.

Quem é Trump e a quem incomoda

Bilionário dos setores de construção civil e hoteleira, Donald Trump, do Partido Republicano, foi eleito presidente dos EUA, por meio de um sistema eleitoral que só existe para comprovar que a hiperpotência militar norte-americana não é e jamais foi uma democracia (se considerarmos a democracia como sendo um governo fundamentado na soberania popular), com a promessa de adiar a eclosão de uma guerra aberta e nuclear contra a Rússia, que certamente se desdobraria numa 3ª Guerra Mundial. A candidata Hillary Clinton, do Partido Democrata, a mais votada pela população nas eleições de 2016, representava abertamente os grupos neoconservadores e os interesses do establishment militar e financeiro favoráveis a uma guerra total contra os russos, e, por tabela, num conflito mundial.

Trump havia dado inúmeros sinais ao longo de sua campanha de que cooperaria com a Rússia (ao invés de confrontá-la) para destruir o Daesh na Síria e no Iraque. Além disso, ele não escondia que desejava romper com a geoestratégia de dissolução de Estados nacionais (via a “balcanização” e a promoção de “guerras civis”) adotadas pelos EUA desde a década de 1980, assinalando o retorno à velha e tradicional geopolítica centrada no confronto entre Estados.

Isso desagradou a amplos setores do establishment. Uma vez tomado posse, em janeiro desse ano, e nomeado seu gabinete, ele foi pressionado para se afastar da Rússia e não demorou a demitir seu assessor de segurança nacional Michael Flynn, seu ministro mais favorável a uma cooperação com o presidente russo Vladimir Putin. Logo em seguida demitiu Steven Bannon, que era também simpático a uma distensão com os russos.

Ainda assim, o secretário de Estado Rex Tillerson declarou que não deseja intervir para remover de Bashar al-Assad na presidência da Síria, contrariando a política adotada por Obama em todo o seu mandato. Poucos dias após a declaração de Tillerson, houve o ataque com gás tóxico contra a população civil de Khan Shaykoun.

Diante do clamor gerado pela massiva propaganda da mídia ocidental e de seus clientes ao redor do mundo, Trump fez um discurso no qual afirmou que não aceitaria tamanha barbaridade, acusando Bashar al-Assad de ser o responsável pelo ataque com armas químicas que violaria o acordo firmado em 2013 entre russos, sírios e ianques, sem apresentar qualquer prova concreta da autoria da atrocidade. Não demorou muito a ordenar um bombardeio a Síria sem consultar o Congresso e nem a ONU. O bombardeio foi realizado quando o presidente da China visitava oficialmente os EUA. Certamente essa agressão deve ser entendida como um duro recado para os chineses, um dos principais aliados da Síria.

Ainda que seja alegado que o disparo de 59 tomahawks contra uma base aérea tenha provocado menos danos materiais e humanos que o atentado terrorista a Estocolmo ocorrido no mesmo dia – como se crueldade fosse quantificável – o fato é que os EUA deram uma demonstração de força contra um aliado da Rússia sem que as forças russas e sírias pudessem esboçar qualquer reação militar. Demonstraram mais uma vez quem estabelece as “linhas vermelhas” no Oriente Médio, ao lado de seus vassalos e clientes locais.

Armas químicas

Quando Israel promoveu dois grandes massacres na Faixa de Gaza, em 2008-09 e em 2014, não fez questão de esconder que fazia uso indiscriminado de armas químicas contra os palestinos. Várias fotografias de bombas de fósforo branco, que queimam a pele e os órgãos internos de uma pessoa até mesmo embaixo d’água, foram divulgadas sem que houvesse qualquer clamor ou retaliação por parte dos líderes ocidentais. Esta é a dupla moral da maior potência do Ocidente. A Síria obteve importantes vitórias com as reconquistas de Aleppo e Palmira, ocupadas por terroristas apoiados indiretamente pelo Ocidente.

As forças armadas sírias buscavam retomar Idlib, por ser uma província limítrofe com a Turquia (inimigo declarado da Síria), sob o controle dos terroristas, muitos dos quais clientes do governo turco. Não há dúvidas de que a agressão ianque levantou a moral desses “esquadrões da morte” (chamados de “rebeldes” pelo Ocidente), fazendo vítimas até no Egito, onde terroristas do Daesh atacaram igrejas coptas, assassinando dezenas de pessoas. O Egito é um aliado não declarado do governo sírio, pois teme retaliações da Arábia Saudita, de quem depende financeiramente.

Sem dúvida alguma o ataque ianque é um recado de Trump para seus vassalos e clientes locais, a saber: Turquia, Arábia Saudita, Catar, Israel, al-Qaeda, Irmandade Muçulmana, FDS (Forças Democráticas da Síria, compostas pelo antigo grupo terrorista YPG), inclusive o Daesh, que estavam há muito desapontados pela indefinição da política de Obama. Este recado consiste na garantia de que clientes e vassalos locais e regionais dos EUA terão voz em qualquer negociação a respeito da guerra na Síria. Mas foi também um alerta para os inimigos dos EUA: Rússia, China e em menor grau Irã, Coréia do Norte e Síria.

Desse modo, Trump parece afirmar que reconhecer a presidência de Assad dentro de certos limites não significa aceitar que ele ou o seu grupo dirigente permaneçam no poder indefinidamente (em contraste com o regime liberal ianque, existente há 240 anos ininterruptos). Com relação aos russos, mostra que não há linhas vermelhas na região para os EUA, mesmo que cooperem eventualmente com Moscou na guerra ao Daesh.

Desdobramentos iniciais

No que se refere aos iranianos, Trump mostra que o governo islâmico continua na mira dos EUA, a despeito da cooperação que possam ter na ocupação do Iraque. O ataque também serviu para mostrar que o cerco à China está apertando. Para que não houvesse dúvidas, enviou uma frota naval para o litoral da península coreana para intimidar o governo norte-coreano, além promover pesados bombardeios aéreos sobre o Afeganistão.

No entanto, o desdobramento mais grave que poderá se ver dessa agressão é que se trata de um grave precedente, que pode ser usado quando o governo sírio "acertar suas contas" com os separatistas e racistas turcos curdos kurmanjis refugiados do grupo YPG, que ocupam a região leste do país, denominada pelos ianques de "Rojava", caso o ISIS e a al-Qaeda sejam derrotados definitivamente, tanto na Síria quanto no Iraque. A ofensiva mostra que a opção de "balcanizar" a Síria ainda está na mesa e, até o presente momento, não há nenhuma manifestação russa mais contundente em favor da integridade territorial da República Árabe da Síria.

Vamos aguardar, portanto, os resultados do encontro entre o secretário de Estado ianque Rex Tillerson e o chanceler russo Sergei Lavrov que está ocorrendo nesse momento em Moscou. Enquanto isso, a guerra da Síria, patrocinada pelos EUA, prossegue com seus mais de 470 mil pessoas mortas, 4,8 milhões de refugiados e outros 7,6 milhões de deslocados internos, num país que até o início do conflito contava cerca de 18 milhões de habitantes.


Ramez Philippe Maalouf é mestre e doutor em Geografia Humana (USP) e Especialista em Relações Internacionais (UERJ).

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