Sororidade

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O slogan “mexeu com uma, mexeu com todas”, acompanhado da hashtag #chegadeassédio, estampada nas camisetas de atrizes globais e reproduzida nas redes sociais, recentemente, mexeu comigo.
 
Fiquei com um gostinho de evolução e a sensação de que nos unir é possível. Essa campanha não só iluminou um crime que vive da vergonha e do medo, mas principalmente desencadeou uma onda de indignação ao assédio sexual sofrido por uma mulher no ambiente de trabalho, transformando o fato individual em uma questão coletiva.
         
Mulheres se identificando e percebendo o quanto é importante a união para ajudar a quebrar o silêncio é simplesmente fantástico.
        
Não se trata de julgar aquilo que não vimos, muito menos achar que existem santos ou demônios de qualquer dos lados, como gritam as opiniões em contrário. São apenas as mulheres dizendo que não querem que isso aconteça com mais ninguém. Que não estamos sozinhas e essa é uma luta que tem que ser de todas nós.
        
Em outras épocas, certamente, a maioria diria: “bobagem, amiga. É brincadeira. Não liga”. Mas aí é que está. Não é brincadeira. É machismo. É exercício de poder. É assédio, sim.              
         
O que me fez lembrar do conceito de sororidade. Segundo Lola Aronovich, professora do departamento de línguas estrangeiras da Universidade Federal do Ceará e autora de um dos maiores blogs feministas do Brasil, o Escreva Lola Escreva, sororidade “vem de ‘irmãs’ e vai contra esse mito de que as mulheres não podem ser amigas”.    
        
Uma palavra foneticamente bonita e de um significado representativo que veio para quebrar um dos braços mais fortes do patriarcado: a rivalidade entre mulheres, que serve de verdadeiro escudo para o opressor, nos fazendo lutar uma contra as outras enquanto o que tem de ser destruído – esse sistema que estupra mulheres a cada 12 segundos – permanece firme e forte.
        
A palavra sororidade não existe na língua portuguesa, mas uma palavra muito semelhante pode ser encontrada em qualquer dicionário: fraternidade, descrita como solidariedade entre irmãos ou harmonia entre os homens. Ambas vêm do latim, sendo que sóror corresponde a irmãs e frater a irmãos. Por óbvio, foi a versão masculina que ficou entre nós.
     
Entretanto, embora ainda seja desconhecida por muitas pessoas, sororidade é uma palavra bastante utilizada e familiar às integrantes dos movimentos feministas, para traduzir o sentimento de acolhimento entre as mulheres feministas, na medida em que significa irmandade, união e cuidado mútuo entre mulheres, algo primordial para que haja um sentimento de grupo e reconhecimento das opressões sofridas em conjunto pelas mulheres.
        
Segundo Maiara Moreira de Rios, “sororidade é uma dimensão ética, política e prática do feminismo contemporâneo. É uma experiência subjetiva entre mulheres na busca por relações positivas e saudáveis, na construção de alianças existenciais e políticas com outras mulheres, para contribuir com a eliminação social de todas as formas de opressão e ao apoio mútuo para alcançar o empoderamento vital de cada mulher. A sororidade é a consciência crítica sobre a misoginia e é o esforço tanto pessoal quanto coletivo de destruir a mentalidade e a cultura misógina, enquanto transforma as relações de solidariedade entre as mulheres” (RÍOS, Maiara Moreira de, Y DE LOS Marcela Lagarde. Sororidad. In: GAMBA, Susana Beatriz. Diccionario de estúdios de género y feminismos. Buenos Aires: 2009.    
        
Mas não podemos ter a falsa ideia de que sororidade é universal, porque ela não é. E para ser uma experiência empoderadora precisa ser devidamente contextualizada, sob pena de perpetuar uma falsa e simplista suposição de irmandade, que nega as diferenças e acaba banalizada.  
         
Por isso, para ser de verdade, a sororidade precisa conter também a ideia de interseccionalidade, pré-requisito para que a irmandade feminina seja mais atenta e cuidadosa, observando as necessidades especiais de cada grupo de mulheres e as diferentes formas de opressão que elas sofrem.
        
Como explica Patrícia Hill Collis, é “a interseccionalidade que nos oferece uma lente pela qual se vê raça, classe, gênero, sexualidade como processos que se constituem mutuamente, se apresentando materialmente na vida cotidiana das pessoas de maneiras complexas, como configurações muitas vezes contraditórias, que se sobrepõem, interagem e interseccionam”.
         
Uma mulher negra, por exemplo, que precisa lidar ao mesmo tempo com o machismo e com o racismo, é diferente de uma branca. Aliás, por tudo o que pude ler, acredito que na experiência do Brasil foram e continuam sendo as mulheres indígenas e negras aquelas capazes de exercer de forma mais ampla e profunda a sororidade.

Principalmente quando percebemos que essa prática floresceu, por exemplo, no contexto citado da escravidão, entre as populações mais pobres e mais violentadas do país. Nos quilombos, aldeias e terreiros, onde mulheres eram capazes de, depois de levar 100 chicotadas, cuidar da pele e cabelo de mulheres brancas causadoras de suas mazelas e ainda serem amas de leite dos filhos delas.
        
Por isso a importância de dar o foco necessário para as interesecções com outras opressões, porque uma real união feminina, no sentido de irmandade, cuidado e respeito mútuo deve passar primeiro pelo reconhecimento das diferenças, e a luta feminista só pode existir se também for antipatriarcal, antirracista e anticapitalista.


        
Apesar de todas as dificuldades, já existem muitas iniciativas e exemplos de atitudes capazes de melhorar e facilitar a vida de muitas mulheres que precisam sobreviver em uma sociedade machista e hostil.
        
“Vamos juntas?”, é um projeto que surgiu no ano passado com a ideia de unir mulheres para que não tenham tanto medo e inseguranças quando têm de se locomover pela cidade. Na página do Facebook do projeto, as meninas descrevem a ideia da seguinte maneira: “Na próxima vez que estiver em uma situação de risco, observe: do seu lado pode estar outra mulher passando pela mesma insegurança. Que tal irem juntas?”
        
O projeto se mantém de forma voluntária, com meninas que ajudam na administração da página e até no desenvolvimento de um aplicativo, mas a criadora, Babi Souza, quer expandir o projeto ainda mais, e por isso montou uma campanha no site Catarse.
         
Também no ano passado, algumas mulheres resolveram espalhar uma mensagem no Facebook, a incentivar que mães prestem o Enem, dispondo-se a cuidar gratuitamente das crianças durante os dois dias da prova. Segundo a jornalista Clara Cerioni, 20 anos, uma dessas mulheres, ela disse desejar usar seu privilégio de já estar na faculdade para ajudar outras mulheres e ainda afirmou que o MEC deveria ter uma estrutura que possibilitasse que essas mães fizessem a prova com tranquilidade. “É papel deles também reintroduzir na sociedade essas mães e fazê-las com que elas possam estudar para ter um bom futuro”.
        
A página criada no Facebook para organizar as mães que querem fazer a prova e as mulheres que desejam cuidar das crianças é: https://www.facebook.com/Pelas-M%C3%A3es-do-Enem-562181053907049/?fref=ts&__mref=message_bubble.
        
Outra iniciativa bem bacana foi de universitárias que criaram um sistema para ajudar colegas com “acidentes” menstruais, e que deu muito certo. Com uma caixa de plástico, uma folha de papel e canetas e um punhado de absorventes, Manu Marinho, uma estudante de Design recifense de 20 anos de idade, criou um posto de doações de absorvente num dos banheiros do Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, para que ninguém mais passe por constrangimentos quando for surpreendida pela menstruação.

Na plaquinha escreveu: “pegue um, caso precise. Deixe um, se tiver sobrando”, criando um movimento e uma ideia de ação permanente que espalhou solidariedade e sororidade para muito além do que havia imaginado. Logo, a ideia foi estendida para outros banheiros da universidade. Se quiser saber mais sobre essa iniciativa, pode ler aqui, no  http://marcozero.org/o-despertar-da-sororidade.
        
Também existem grupos femininos secretos no Facebook, onde só entram pessoas indicadas por amigas, cujos laços extrapolam a internet. “Com câncer de mama e dor nas pernas, a secretária Fabiana Ribeiro, 35 anos, ouviu do médico que deveria fazer caminhadas. “Mas não ia ter força para caminhar sozinha”, diz. Postou o dilema no grupo. Na manhã seguinte 14 mulheres desconhecidas a esperavam num parque perto de casa” http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/05/1766587-grupos-secretos-em-rede-social-viram-comunidades-de-apoio-entre-mulheres.shtml.
         
Sheryl Snadberg, CEO do Facebook, também criou uma comunidade que ela chama de Lean In, algo como “apoiem-se”, em português. A ideia é, justamente, fazer com que mulheres se unam e encontrem um apoio mútuo para enfrentarem as dificuldades e os abusos que passam na vida moderna. Aí está, basicamente, definido o conceito de sororidade.
        
E em seu discurso, após ficar viúva, esclareceu a importância do apoio mútuo, em uma de suas facetas:

“As mulheres tornam-se mães solteiras por várias razões: morte do parceiro, fim de uma relação, escolha própria. Há pouco mais de um ano, fiquei viúva e me juntei a elas. Antes, eu não sabia como é difícil ter sucesso no trabalho quando você está sobrecarregada em casa. Todos os dias essas mães fazem sacrifícios, driblam barreiras e criam famílias lindas apesar das demandas. O mundo não facilita a vida delas. É necessário uma comunidade para criar uma criança, e muitas mães solteiras precisam e merecem mais do que estamos dando a elas” (AQUI).  
         
Para quem não sabe, estreia no dia 5 de maio desse ano (2017), no canal Curta!, o documentário Mexeu com Uma, Mexeu com Todas, da cineasta Sandra Werneck (Cazuza - O Tempo Não Para). O filme debate o tema da violência contra a mulher e se propõe a ser uma ferramenta de disseminação e de conscientização da causa.    
         
Participante da 22ª edição do Festival de Documentários É Tudo Verdade, o 19º filme da carreira de Sandra retrata casos relatados por diferentes mulheres. Entre elas estão a atriz e modelo Luiza Brunet, a nadadora Joanna Maranhão, a escritora Clara Averbuck e a bioquímica Maria da Penha Maia Fernandes, que deu o nome à lei que tornou mais dura a punição contra a violência doméstica e familiar contra a mulher. Além dos depoimentos, a produção traz imagens de protestos que expõem a vulnerabilidade da mulher no Brasil.
         
E, apesar de o título ter sido escolhido por uma frase vista pela diretora em um cartaz durante uma das manifestações exibidas no documentário, vimos essa expressão ganhar uma nova dimensão ao se tornar o slogan de protesto contra o assédio cometido pelo ator José Mayer, sofrido e denunciado pela figurinista da Globo Susllem Tonani, antes da estréia do filme.
          
“MEXEU COM UMA MEXEU COM TODAS” não é algo fácil e descomplicado de se praticar, mas com certeza é possível. O que espero é que esse “mexeu com uma, mexeu com todas” de hoje, oxalá ultrapasse os corredores da Globo e inclua Janaina Paschoal, Dandara (a transexual morta no Ceará), Eliza Samúdio (assassinada pelo goleiro Bruno), Joanna Maranhão e muitas outras vítimas escarnadas pelo machismo institucionalizado do Brasil. E que cada vez mais SORORIDADE se espalhe por nós.  

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Anna Trotta Yarid é Promotora de Justiça e membro do Movimento Ministério Público Democrático.

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