Educação ambiental no século 21

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No seu sentido mais amplo, educação significa o meio formal (ação do Estado) e informal (ação difusa) em que os hábitos, saberes, costumes, maneiras de interagir com o ambiente e valores de uma comunidade, são transferidos de uma geração para a seguinte.

Por sua vez, a educação ambiental é uma dimensão da educação, atividade intencional que deve imprimir ao desenvolvimento individual um caráter social em sua relação com a natureza e com os outros seres humanos, visando potencializar a prática social e a ética ambiental.

Tais conceitos servem como pano de fundo para a nossa reflexão, o princípio do desenvolvimento sustentável não é mais o caminho único para enfrentar as diferentes facetas da temática ambiental. Ou seja, já passamos da fase do “desenvolvimento” sustentável; a hora agora é da “produção e consumo sustentáveis”.
 
Para isso as ações de governo e as pressões da sociedade devem ter a adequada, imediata e responsável resposta por parte do setor produtivo, com práticas sustentáveis, sem a qual não há como levar o Brasil para padrões mais sustentáveis de produção e consumo.

Por outro lado, neste caso, ao analisar a posição das maiores economias mundiais, observa-se uma nítida preocupação com a crise financeira, porém, com um discurso vago e breve em relação à problemática ambiental.

Porém, entre o contexto limite das visões dos pesquisadores e dos políticos, persiste uma análise de idêntica importância, ainda não suficientemente abordada, voltada a saber como a sociedade está preparada para, depois de devidamente informada, pressionar por soluções proteladas, aceitar as consequências da adoção das mesmas e, sobretudo, como nossos futuros gestores, no horizonte do curto e médio prazo, estão preparados não apenas para implementar as propostas conhecidas, mas gerar novas e efetivas respostas para o cenário que a sociedade deverá enfrentar, já que o tempo, neste novo contexto, é uma variável progressivamente mais crítica.
 
Se agregarmos a este cenário os resultados do estudo desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (2006), com a pesquisa realizada em 57 países em diferentes continentes, que mostra que 37% dos alunos brasileiros com 15 anos de idade apresentam um nível mínimo de conhecimento ambiental, ficando abaixo da avaliação do Brasil apenas países como Catar, Quirguistão e Azerbaijão, vemos que nossos jovens estão em posição carente de conhecimento mínimo necessário para lidar com os desafios ambientais.

Ou seja, a pesquisa deixa claro, inclusive no Brasil, que os estudantes estão preocupados e conscientizados de que é preciso agir como ponto positivo, entretanto, não evidenciam condições plenas de explicitar e assumir seu papel no processo da ação desejada. O estudo infere, entre outros pontos, que os estudantes falam muito sobre temas ligados à área ambiental, mas parecem saber pouco a respeito do assunto, apesar das múltiplas, com alocação significativa de recursos financeiros, investidas, através de programas de educação ambiental desenvolvidos e implementados. O problema está no reduzido compromisso de verificação da eficácia dos mesmos.

Tendo estes aspectos em foco, em 2003 foi criado o “Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental (Nepa)”, voltado especificamente a avaliar o nível de percepção ambiental e social de segmentos formadores de opinião, priorizando as áreas educacional e ambiental. Desde então o Nepa (hoje, Nepas) vem consolidando um significativo banco de dados, gerado a partir de pesquisas desenvolvidas com estudantes e professores dos ensinos fundamental, médio, médio-técnico e superior, assegurando o conhecimento efetivo e quantificado o perfil de cidadania ambiental de tais segmentos.

Como decorrência da análise deste banco de dados, em 2006 o Nepas fez a proposição da criação do Enade Ambiental, não compulsório, de iniciativa das próprias instituições de ensino superior, voltado a identificar e quantificar as lacunas do conhecimento ambiental de estudantes ingressantes e concluintes. Trata-se de propiciar aos gestores educacionais e aos gestores públicos informações que possam dar base à definição de ações preventivas e corretivas que assegurem um mínimo nível de conhecimento ambiental, com os quais se chegue ao mercado de trabalho.

Tudo isso nos leva a caracterizar a necessidade de uma reavaliação profunda da retrospectiva da educação ambiental no século 20. É preciso ter em conta a perspectiva sobre o que deverá ser definido como novos paradigmas para a educação ambiental do Século 21.
 
Não que isso seja entendido como uma identificação de erros, dado que na realidade não erramos na forma como até então vínhamos encaminhando o processo de educação ambiental, mas de reconhecer e assumir que posturas aceitas como válidas precisam passar por uma profunda reflexão. Assim, poderemos projetar o que deverá ser a educação ambiental no Século 21.

Pensar, por exemplo, em estruturar programas de educação ambiental sem um diagnóstico prévio da percepção ambiental e social do segmento a ser atendido, bem como não dispor de formas de pós-avaliação da eficácia dos resultados de tais programas, não poderá mais constar das premissas para as novas intervenções.

Ou seja, não basta “oferecer educação ambiental”, há que se ter certeza de que estamos realmente “mudando a percepção ambiental e social da sociedade” com conscientização, exame crítico e desenvolvimento da cidadania.

Um bom exemplo disso pode ser visto através da Resolução 001/2016 do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) do Estado do Espírito Santo, que inseriu os estudos prévios de avaliação da percepção ambiental e social como base para a estruturação de programas de educação ambiental e de comunicação social.

Poder Público e empresas, cada um na sua área de atuação de gestores e financiadores de programas de educação ambiental, devem fazer, isoladamente e em conjunto, esta reflexão. A sociedade, por sua vez, deve acompanhar e cobrar resultados.
 
Nota:

As pesquisas desenvolvidas pelo Nepas podem ser acessadas gratuitamente em: www.nepas.com.br 

Roosevelt S. Fernandes é engenheiro químico, com Mestrado em Engenharia de produção pela COPPE/UFRJ e especialização em Engenharia ambiental pela Nippon Steel (Japão). Membro titular do Conselho Estadual de Meio Ambiente, membro do Conselho Estadual de Recursos Hídricos do Estado do Espírito Santo (Brasil) e idealizador do Núcleo de Estudos em Percepção Ambiental e Social (Nepas).
 

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