Pensando a longo prazo – Luta de classes

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Em O Capital, Marx diz que “ao longo do constante decréscimo do número de magnatas capitalistas, que usurpam e monopolizam todas as vantagens desse processo de transformação, a massa de miséria, opressão, escravidão, degradação e exploração cresce; mas, com isso, também cresce a revolta da classe operária, a classe constantemente aumentada em números, e treinada, unificada e organizada pelo próprio mecanismo do processo capitalista de produção”.

Números recentes sobre “magnatas capitalistas” falam em apenas 8 capitalistas concentrando uma riqueza equivalente à metade de toda a população mundial. Outros números falam em cerca de 70 capitalistas com riqueza superior a toda a população mundial. Nesse sentido, Marx acertou na mosca. Como acertou também que, ao monopolizarem “todas as vantagens” do constante processo de transformação capitalista, tais “magnatas” fizeram crescer “a massa de miséria, opressão, escravidão, degradação e exploração”. ´

A Tolice da Inteligência Brasileira confirma que isso é verdade no Brasil, onde “parcela desproporcional do PIB... em ganho de capital” vai “para o bolso dos endinheirados”, que representam “menos de 1% da população”, enquanto só uma “pequena parte vai para a enorme maioria da população que vive de salários”. Por outro lado, A Tolice... acredita que nas “democracias europeias” tal relação seria “inversa”, embora tal crença na distribuição menos desproporcional do “ganho de capital” na Europa não se sustente diante das inúmeros pesquisas que comprovam, também lá, as previsões de Marx.

Tal crença no “bem-estar” dos trabalhadores teve por base, durante um tempo relativamente longo, a espoliação colonial encetada pelas potências burguesas europeias. Essa espoliação permitiu aos capitalistas europeus explorarem menos intensamente seus operários, criando uma “aristocracia operária” e reduzindo a intensidade da luta de classes naqueles países. Depois da segunda guerra mundial tal crença foi alimentada ainda com mais força através da criação dos Estados de Bem-Estar Social, para contrapor-se à expansão do modelo de socialismo soviético no leste europeu.

No entanto, seja porque o mundo colonial entrou em decadência, seja porque o socialismo de tipo soviético soçobrou, os Estados de Bem-Estar Social vêem sendo abandonados e o capitalismo europeu acompanha a lei geral da centralização do capital e de pauperização da massa trabalhadora, situação que se agravou com a presente crise global. Nessas condições, ressuscitar tal crença neste momento não passa de tentativa disparatada de escamotear as previsões de Marx e criar divagações em torno das denúncias sobre as consequências danosas do processo de concentração e centralização do capital.

Parece “economicista” demais dizer que o “constante decréscimo do número de magnatas capitalistas, que usurpam e monopolizam todas as vantagens desse processo de transformação” faz crescer “a massa de miséria, opressão, escravidão, degradação e exploração”. Talvez por isso, A Tolice... prefira dizer que as “ sociedades modernas compartilham muito mais do que a troca de mercadorias do comércio internacional ou do fluxo de capitais das bolsas de valores”.

Segundo ela, tais sociedades “compartilham uma ... hierarquia moral comum ou semelhante, a qual define quem será percebido pelas instituições, seja pelos seus membros, como digno ou indigno de respeito e reconhecimento social. É exatamente a cegueira em relação a toda a dimensão simbólica do capitalismo que impede de se perceber e de ser articular conscientemente sua hierarquia”. Enfim, é “como se a realidade da exploração não fosse um fenômeno total, existencial, afetivo, subpolítico, emocional e ligado a todo tipo de estímulo irracional, mas apenas uma explicação econômica que bastasse ser mencionada para ser compreendida”.

É evidente que as sociedades capitalistas compartilham “muito mais do que a troca de mercadorias... ou do fluxo de capitais”, em termos nacionais e internacionais. Como é lógico que “a realidade da exploração” é um “fenômeno total”, embora de racionalidade capitalista extrema. Mas, se ficarmos adstritos a tal explicação, sem trazer à luz o mecanismo real da exploração, que repousa sobre uma base econômica, e só se mantém com o apoio de uma superestrutura social, ideológica e política, na verdade estaremos encobrindo a luz do sol com lona. O que pode levar à cegueira de não ver o que está acontecendo nas “democracias europeias”.

Por outro lado, deve-se reconhecer que a afirmação de Marx quanto ao crescimento da “revolta da classe operária, a classe constantemente aumentada em números, e treinada, unificada e organizada pelo próprio mecanismo do processo capitalista de produção” em virtude do aumento da “massa de miséria, opressão, escravidão, degradação e exploração” suscita inúmeras interrogações e a necessidade de dados comprobatórios.

Há correntes não-marxistas e também marxistas que colocam em dúvida a suposição de que a “classe operária” seja uma “classe constantemente aumentada em números”. O aumento do desemprego estrutural, resultante da elevação da produtividade nos países capitalistas avançados, seria uma demonstração do erro das previsões de Marx quanto a esse tema. Assim, do mesmo modo que A Tolice..., muitos deles preferem falar em “multidão”, “ralé”, “despossuídos” etc, ao invés de “classe operária”, “classe trabalhadora” ou “proletariado”.

No entanto, se olharmos para o mundo como um todo e computarmos os processos de industrialização que ocorreram em inúmeros países da Ásia e da África em virtude da globalização capitalista, podemos dizer que a classe operária empregada aumentou “constantemente”, superando em muito o número de operários presentes nos capitalismos avançados durante seus maiores índices de emprego logo após a segunda guerra mundial. Naquela época, os trabalhadores assalariados nos Estados Unidos e na Europa Ocidental não somavam 500 milhões. Atualmente, embora o número de trabalhadores assalariados naqueles países tenha sido reduzido, somente Índia e China somam mais de mil milhões.

Por outro lado, o revolucionamento das forças produtivas e a elevação da produtividade tendem a reduzir o número de trabalhadores assalariados empregados e de aumentar a massa populacional de força de trabalho sem acesso ao processo produtivo, criando um número crescente de excluídos, seja na forma de exército de reserva, seja nas diversas formas de exclusão permanente. O que não elimina o fato de que essa massa populacional excluída continua tendo como característica fundamental a de ter como única propriedade sua força de trabalho, e necessitar vender tal força no mercado para poder se reproduzir como ser humano.

Em outras palavras, as opções que o desenvolvimento capitalista coloca diante do proletariado “incluído” e do proletariado “excluído” são as mesmas: poder vender sua força de trabalho, ser substituído por um sistema que redistribua a riqueza gerada pelo processo produtivo conforme as necessidades de cada um, ou sucumbir miseravelmente. Supor a “ascensão social” num sistema que tende a expulsar cada vez mais a força de trabalho assalariada do processo produtivo não passa de ilusão, ou de escamoteação da realidade.      

É evidente que todo “esse universo”, como pensa A Tolice..., pode ser “naturalizado” e não percebido como “construção histórica”, levando “os interesses eventuais das frações do capital a representar a única referência de análise social”, principalmente se “as classes dominadas” se virem “como inferiores, preguiçosas, menos capazes, menos inteligentes, menos éticas”. Ou pode ser nublada por análises que se percam em generalidades como supor “que não existe uma lógica ‘material’ e econômica que se contrapõe a uma lógica simbólica, não econômica”, pois a lógica simbólica também seria “perpassada pela dimensão simbólica” que possui “um fundamento material”.

Tais considerações só servem para obscurecer a realidade, mesmo que se suponha que tal “separação entre material e simbólico” seja “meramente analítica”, e que “o principal” consiste em perceber “que os atores individuais ou coletivos” produzem “consensos sociais que não são mera decorrência de interesses econômicos”. Este seria o “verdadeiro limite de toda forma de economicismo”, que sequer percebe que a “ação já pressupõe todo um universo simbólico, composto por pressupostos jurídicos, emocionais, pulsionais, morais e políticos” que possuem “positividade própria” quando se trata de “compreender qualquer ação individual ou coletiva”.

Na prática, a ação da classe proletária, incluída ou excluída, em geral não “pressupõe” qualquer “universo simbólico” que possua “positividade própria”. Ao contrário, sua ação, individual ou coletiva é, em geral, negatividade. Negatividade de sua situação humana negativa, miserável, oprimida, degradada e explorada. É somente no processo de negação ou luta de uma, de algumas, ou de todas as suas negatividades, que os proletários percebem a “positividade” de sua luta, assim como os pressupostos simbólicos que a classe burguesa apresenta como se fossem comuns a toda a sociedade.

Esse é um processo de aprendizado de classe, demorado, complexo e carregado de dificuldades, que só ganha “positividade” à medida que a classe burguesa dominante também é compelida, para manter sua própria positividade, a endurecer sua negação no atendimento às pequenas e grandes demandas da classe proletária, e em que a intelectualidade que procura expressar tais demandas atua no sentido de travar uma luta ideológica esclarecedora contra as negaças dominantes. 

Confira os demais textos de Pomar sobre o livro de Jessé de Souza.

Wladimir Pomar

Escritor e Analista Político

Wladmir Pomar

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