Estados Unidos e Brasil – a transição de Lula para Dilma

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Nas derradeiras semanas de governo, Lula da Silva intentou retomar a tradicional aspiração da política externa pátria de compor, embora sem condições materiais, a seleta agremiação dos países permanentes no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (CS/ONU), inalterada desde sua constituição em 1945.

Sem eventual reforma, em sua apreciação, a instituição iria decrescer em termos de importância, posição correta se considerado o dinamismo no tocante à distribuição de poderio nas relações internacionais.

Na hipótese de ocorrer a almejada – e mesmo justa – alteração onusiana, ela deveria, na opinião presidencial, contemplar a comunidade global de maneira geográfica, ocasião em que o Brasil poderia ser galardoado por ser sem dúvida o representante-mor da América do Sul. Para tanto, contaria com a hipotética colaboração da maioria do órgão colegiado: França, Grã-Bretanha e China.

Todavia, a atenção de Washington, o decano conciliar, não se direcionava para Brasília, porém para Nova Déli, potência nuclear e em ascensão econômica naquela época, apesar da emergência da crise de financeira de 2008 – acima de dez por cento em 2010.

A valorização da Índia apontaria aos olhos do Brasil algo além, ou seja, seria o reconhecimento tácito de que a modificação seria imperativa. Ademais, o Itamaraty não a avaliava como rival até por não haver nem sequer especulação sobre o número ideal de vagas a ser disposto no futuro.   

Por outro lado, o gesto da Casa Branca poderia ter sido apenas gentileza diplomática, em decorrência da considerada longa visita do presidente Barack Obama àquele país. A amabilidade norte-americana conectava-se com a vontade de alargar a parceria comercial e por que não política, a despeito da desconfiança da China com isso – Pequim mantém acesa, malgrado o fogo brando, a reivindicação territorial sobre área himalaia, objeto de guerra de um mês em 1962 – e também do Paquistão.

Com a vitória relativamente tranquila de Dilma Rousseff sobre José Serra - doze pontos de diferença no segundo turno - vieram a lume na política externa os primeiros traços de que ela não adotaria o mesmo ritmo do predecessor, isto é, o facho destinar-se-ia a outras áreas governamentais.

Uma referência seria a menor quantidade de viagens, ao anunciar, antes da posse em janeiro de 2011, sua ausência no Fórum Econômico Mundial na Suíça e na reunião de cúpula da União Sul-Americana de Nações (UNASUL) na Guiana.

Em sua quase despedida do Planalto, Lula da Silva anunciou em reunião do G-20, ocorrida em Seul, que sua sucessora “(...) não vai fazer discurso algum dizendo que recebeu uma herança maldita do presidente Lula porque ela ajudou a construir tudo que nós fizemos até agora”.

Entusiasmado, comparou-se de certa maneira com Barack Obama porque ele “ (...) recebeu uma herança maldita, que foi uma crise financeira sem precedentes. E eu recebi uma (...), que era um país andando para trás. Nossa geração não terá herança maldita".

De modo bastante otimista, apesar de temerário, analisou que os efeitos da crise global no Brasil teriam passado após seis meses, em decorrência da decisão do governo: robustecer o mercado local.

Acompanhe a série de artigos sobre o tema

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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