15M e o confronto político da Previdência

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Os protestos e paralisações do dia 15 de março não foram uma greve geral como vimos acontecer, por exemplo, na Grécia, mas foi na história recente brasileira uma das maiores greves de trabalhadores de categorias diversas em um só dia.

Apesar de a maioria das paralisações ter sido nos serviços públicos, não significa que os trabalhadores das empresas privadas não apoiavam a paralisação, como apontaram algumas análises (1). A greve do metrô em São Paulo ter sido aplaudida (2) por usuários diretamente afetados é um exemplo. O que explica a não participação do setor privado nas paralisações são o tipo de vínculo – que facilita demissões – e o alto desemprego que amplia o sentimento de medo de ser demitido.

É necessário reconhecer que o número total de participantes nos protestos foi significativo. As fotos da Avenida Paulista em São Paulo dão a dimensão da participação popular. A convocação dos sindicatos imprimiu uma forma de confronto político que, além das paralisações, tinha discursos em carros de som, balões das centrais sindicais e a predominância de bandeiras e camisas vermelhas.

De forma menos predominante estavam movimentos e pessoas identificadas com movimentos autonomistas – que foram para as ruas em junho de 2013 – e também pequenos grupos que traziam símbolos do repertório patriótico – que foram para as ruas nos protestos pelo impeachment.

E o que dizer da presença de Lula no protesto em São Paulo? Primeiro é necessário apontar que a articulação da sua presença causou mal estar em outros setores organizadores dos protestos. Este oportunismo foi calculado pelo petismo para fazer o enquadramento de defesa dos pobres e das causas sociais e já adiantar o debate presidencial de 2018. Se a presença de Lula agradou militantes petistas, por outro lado desagradou alguns ativistas que estavam nas ruas.

O maior erro daqueles que lutam contra a reforma da Previdência será aceitar a identificação desta importante reinvindicação ao PT, pois isto impedirá uma maior adesão daqueles que ainda não foram para as ruas protestar contra a reforma.

Como seguirá este confronto político daqui para frente? Como os manifestantes irão reagir em relação à tentativa de apropriação dos protestos por parte do lulismo? As predominâncias das formas de confronto podem se deslocar para outros tipos de repertórios?

Não são indagações fáceis de responder. Como não há gesto de que o governo Temer irá recuar, é provável que as manifestações continuem. Arriscando uma projeção, penso que o descontentamento com a reforma da previdência é enorme na população e que haverá adesão de mais pessoas e um maior equilíbrio das formas de confronto nas ruas.

Aqueles que foram às ruas de verde-amarelo em 2015 e 2016 podem voltar. Assim como a juventude influenciada pelo repertório autonomista – predominante em junho de 2013 – poderá ampliar sua participação convocando protestos independentes das centrais sindicais. Este confronto político é ilustrativo da importância da política nas ruas e dos movimentos sociais.

Notas:

1) Por exemplo de Ricardo Boechat na Band News FM no seu comentário do dia 15 de março

2) http://exame.abril.com.br/brasil/populacao-aplaude-metroviarios-em-greve-no-jabaquara/



Paulo Spina é mestre em Ciências Sociais e participa da organização de movimentos sociais através do grupo “HORIZONTES - movimentos sociais e confrontos políticos”

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